quarta-feira, 31 de março de 2010

A vida é feita de amigos

Tenho uma amiga que está passando por uma fase complicada na vida: problemas familiares, afetivos, financeiros. Nada que seja por si só arrasador, mas a somatória desses problemas é que tem sido ultimamente uma carga pesada para ela. Como nos conhecemos desde crianças, não precisamos de preâmbulos nem de "entretantos" para iniciar uma conversa: vamos direto aos "finalmentes". Gosto dessa economia de códigos convencionais - coisa que em geral só é possível entre amigos de longa data.

Esta semana fomos juntas a uma reunião de trabalho, logo de manhã cedo. Ela se ofereceu para me dar uma carona e, assim que entrei no carro, percebi pela expressão do seu rosto que ela já estava preocupada com mil e uma coisas naquele começo de dia. Percebi também que ela vestia uma blusa nova, de um tecido estampado de cores alegres, que me agradou muito.  "Você está bonita hoje, com esta blusa toda florida!", disse eu, tentando desanuviar o ambiente. Ela captou na hora a intenção do elogio e embarcou na conversa, abrindo um sorriso cúmplice: "Pois é, eu escolhi essa blusa para enfrentar a reunião de hoje com mais alegria mesmo... e sabe que está dando certo? Já estou doida para chegar lá e encontrar todas aquelas pessoas diferentes, superinteressantes..."

E foi aí, sem mais nem menos, que nós duas desatamos a rir dentro do carro, como duas crianças bobas. O trânsito na boca do túnel Rebouças estava lento, quase parado. E ali estavam dentro do carro duas velhas amigas, rindo às gargalhadas, recarregando as energias para enfrentar um novo dia com leveza e alegria, como se o melhor lugar do mundo fosse bem ali, naquele monstruoso engarrafamento matinal.

Quanto tempo tempo terá durado aquele riso destemperado? Um minuto? Dois? Sei lá. Só sei que, quando finalmente voltamos à nossa pose de senhoras responsáveis, eu me sentia como se tivesse acabado de remar uma hora inteira na lagoa. Uma boa risada ao lado de uma boa amiga faz um bem danado para a gente!


E a propósito desse tema - a importância de se ter amigos -, aqui segue uma tira do Quino, o genial cartunista argentino, que me acompanha diariamente e me faz sorrir um pouco todas as manhãs. (Clique na imagem para ampliá-la.)

domingo, 28 de março de 2010

A ceia de Páscoa engordou

A Páscoa está chegando. Aleluia.

Em vez da gente parar e refletir um pouco sobre o significado simbólico-religioso deste feriado, o "normal" hoje é a gente se afobar com coisas menos espirituais: "Ainda não comprei meus ovos de chocolate..." ou "Onde é que eu encontro um bacalhau bom e barato para a ceia de domingo?"... ou então "Ai, já sei que vou engordar muito este fim de semana!"!  Uma coisa é certa: nos dias de hoje, a preocupação com a festa da Páscoa gira vorazmente em torno de um só assunto - comida.

Mas quando Jesus reuniu os doze apóstolos para participarem da ceia de Páscoa com ele - a última refeição que os treze fariam juntos - garanto que não houve excessos gastronômicos. Pelo menos é o que dá para se depreender dos rituais milenares da tradição judaica do Pessach e dos relatos dos evangelhos que chegaram até nós. Um pouco de pão ázimo (daqueles fininhos, sem fermento e quase sem gosto), alguns goles de vinho e pronto: a ceia estava servida. Dando asas à imaginação, talvez desse até para se visualizar naquela mesa uns bocados de peixes do rio Jordão ou algumas tâmaras cultivadas por ali mesmo. O certo é que na mesa da última ceia de Jesus não havia nada que pudesse ser chamado, nem de longe, de pantagruélico.



O que terá acontecido com a ceia da Páscoa nos últimos mil anos? Por que existem hoje tantos exageros na nossa mesa - não só na Páscoa, como também na refeição nossa de cada dia? Por que se vêem cada vez mais pessoas obesas entre nós?

Este assunto é o tema de uma pesquisa curiosa feita pela Cornell University, que acaba de ser publicada no International Journal of Obesity. A idéia dos pesquisadores é genial: partindo da premissa de que a arte (quase sempre) imita a vida, eles selecionaram 52 pinturas com o tema da última ceia e examinaram cuidadosamente todos os utensílios e alimentos representados pelos artistas de diversas épocas.

Resultado: os pesquisadores chegaram à conclusão de que os homens tem aumentado gradativamente o tamanho não só das porções dos alimentos que consomem, como também dos utensílios que empregam nas suas refeições:
pratos, copos, talheres. 

Tudo está cada vez mais farto e maior.

Ou seja, estamos ficando cada vez mais gulosos, quase sem perceber.

Nos últimos mil anos, os estudos das pinturas da última ceia indicam que:
  • os pratos aumentaram 66% de diâmetro
  • as porções servidas estão 69% maiores
  • os pães são 23% maiores
Bem, estas considerações são apenas  food for thought.
Um aperitivo light para nossos espíritos, enquanto nos afobamos com os preparativos gastronômicos do domingo que vem. 

sexta-feira, 26 de março de 2010

Mestre Vitalino e Nelson Leirner


Esta semana fui a duas exposições de arte aparentemente desconexas, que me fizeram sorrir e acrescentaram um tempero bom na minha sopa de idéias.



A primeira foi no Museu do Folclore, que fica bem ao lado do Palácio do Catete: "Mestre Vitalino e artistas pernambucanos". O título da mostra é singelo como o artista homenageado, o escultor das figurinhas de cerâmica Vitalino Pereira dos Santos, que se estivesse vivo estaria completando 100 anos de idade. Tive a sorte de percorrer a galeria da exposição ao lado da minha amiga Guacira Waldeck, que organizou a mostra e é uma expert apaixonada pela arte popular brasileira. Foi ela quem me chamou a atenção para uma escultura de madeira de um artista contemporâneo do Vitalino, também pernambucano, chamado Benedito José dos Santos.

A escultura mostra duas figuras humanas carregando uma rede, com desenhos geométricos, numa concepção estilizada e moderna, quase urbana-chique. De onde terá este homem tirado idéias estéticas tão avançadas? Ali ao lado, um depoimento do próprio Benedito, colhido em 1980, parece responder à minha pergunta: " Passo o dia na madeira: aí de noite vem o sonho. Quando acordo, chega a imaginação. Então tenho uma felicidade estranha."

"Uma felicidade estranha"... Que maneira simples e direta de descrever aquilo que se sente quando a inspiração bate e se cria o belo.

A outra exposição que fui ver esta semana tem um nome complicado: "Stripencores". É uma mostra individual do Nelson Leirner, artista polêmico com meio século de criação e experimentação em happenings, instalações, cinema, técnicas mistas. Leirner já está perto dos 80 anos, mas parece ainda não ter saído da adolescência. É inquieto e gosta de provocações.

Desconfio que se o Mestre Vitalino e o Benedito José dos Santos pudessem voltar à Terra e dar uma passadinha no novo casarão sofistiqué da galeria Silvia Cintra + Box 4, no Baixo Gávea, iriam ficar encantados com a obra de Leirner - principalmente com as obras feitas com figurinhas e brinquedos baratos que a gente encontra no comércio popular.

Leirner constrói uma arte colorida e ousada, que nos faz sorrir... 
...exatamente como as peças dos artistas pernambucanos no Museu do Folclore. 




quinta-feira, 25 de março de 2010

Ultrassom

Dia de check-up geral. Uma chatice. Munida da papelada dos pedidos médicos devidamente assinados e carimbados, compareci ao predio modernoso, com ar condicionado no ponto máximo de refrigeração e um quadro de funcionários bem treinados, ostentando sorrisos pontuais. Sou mais um número na lista interminável de pacientes que por ali passam todos os dias das 8 às 18 horas, cada qual com seus medos, fingindo indiferença.

Deixo minha roupa no vestiário e visto aquela batinha infame, que nunca sei se deve ser colocada com a abertura na frente ou atrás. Não faço questão de aprender. Quanto menos intimidade tiver com aquela coisa, melhor.

Enquanto espero a minha vez na saleta fria, a televisão da parede fala sozinha e uma senhora de olhar triste me conta os detalhes da doença detectada no último exame. Ouço tudo em silêncio respeitoso, paciente.  Mas quando a enfermeira finalmente chama meu nome lá do fundo do corredor, saio dali ligeira e feliz, como se tivesse sido convidada para dançar no baile do príncipe encantado.

A enfermeira me conduz a uma saleta ainda mais fria que a anterior e me faz deitar na cama mais dura de todo este Rio de Janeiro. "A doutora já vem lhe atender", me avisa sorridente, logo fechando a porta atrás de si. E me deixa ali  na penumbra, olhando para o teto.

Passados longos minutos, chega a doutora, com perguntas curtas: "Idade?"  "Qual a razão do exame?" "Já fez alguma operação?"

O exame de ultrassom é feito em silêncio completo. Olho para o rosto da jovem médica, iluminado pela luz azulada do monitor. Não consigo identificar nenhuma expressão especial.

Por fim, o exame termina. A doutora se levanta, pela primeira vez  me olha direto nos olhos e anuncia, econômica, antes de sair: "Está tudo normal."

Mal tenho tempo de lhe agradecer. A porta se fecha rápida e fico de novo sozinha na penumbra da sala, agora doida para tirar aquela bata e voltar para as minhas roupas "normais", minha vida "normal". Como é bom não se ter nada de urgente a fazer.

Tem momentos na vida em que
nada é tudo.

terça-feira, 23 de março de 2010

Politicamente incorreta

Meu amigo Mario está com vontade de começar um blog politicamente incorreto, sob o manto protetor de um pseudônimo. Ele quer esbravejar contra todas as safadezas da política nacional e do desgoverno deste país, gritar aos quatro ventos tudo aquilo que as regras da boa educação o impedem de fazer no meio civilizado em que circula. Quando ele fala no assunto, seus olhos brilham da mais pura indignação contida.



Em resumo: meu amigo Mario quer lavar a alma, 
no blog que ele ainda vai criar.

***
Achei graça na conversa e acabei me entusiasmando com a idéia do Mario. Resolvi escrever aqui no meu blog um pouco daquilo que penso mas não tenho coragem de confessar em público. Não é nada tão radical quanto a ira política do meu amigo, apenas um fiapo de reflexão que tem rondado meus pensamentos com frequência.

Eis a questão:

Como podemos descrever o povo brasileiro? 
O que nos caracteriza e diferencia do outros povos, de uma maneira geral? 
O que é que o brasileiro tem na maneira de se apresentar em público, que faz com que a gente consiga se identificar mútua e imediatamente, no meio de qualquer multidão em um país estrangeiro?

Pois aqui vai, sem papas na língua,  minha visão absolutamente superficial e politicamente incorreta do conterrâneo típico. Na minha maneira de ver, noventa por cento dos brasileiros:

  • Tem pele da cor marrom, em algum dos seus muitos matizes 
  • Pertencem a uma igreja evangélica
  • Votam (ou já votaram) no PT
  • Olham sem a menor cerimônia (mas também sem maldade) nos olhos de pessoas estranhas por quem passam na rua
  • Falam alto nos lugares públicos e não se dão conta disso
  • Acham que esporte e futebol são sinônimos

Quem quiser que discorde, não vou me incomodar. Mas qualquer brasileiro que de vez em quando ande de ônibus, trem ou metrô irá concordar comigo.

Pronto, já disse. 

Meu amigo Mario tem toda a razão:
ser politicamente incorreto é bom demais.

Arte no Parque Lage

Comecei a fazer um curso na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Fazia tempo que não mexia em tintas e pincéis e senti que meu lado artístico estava ficando meio enferrujado. Escolhi o curso por causa do horário (segunda-feira à tarde), um dos poucos  disponíveis para mim. Dei uma rápida olhada no programa e decidi me matricular em um curso cujo título me pareceu simpático:  "Em torno da pintura".

Pronto: lá fui eu para a primeira aula, armada com minha velha caixa  de pintura, manchada de tintas de muitas cores passadas, cheia de pincéis endurecidos e paninhos esfarrapados.

Surpresa! O meu curso de "pintura"... não tem absolutamente nada a ver com tubos de tinta nem pincéis! Na verdade, a proposta de "Em torno da pintura" é estimular cada aluno a explorar sua própria criatividade através de técnicas de - ai, meu Deus! - ... gravura.

E agora? Como é que eu poderia imaginar? Justamente gravura, talvez a única linguagem artística que nunca consegui apreciar direito! Xilografia, serigrafia, monotipia, relevo seco... tudo isso sempre me pareceu tão distante dos meus interesses, tão estrangeiro à minha sensibilidade...


Bem, se o acaso de conduziu até lá deve ter sido por um bom motivo. Então vamos lá!
Mãos à obra!


Ontem tive a terceira aula e - nova surpresa! - estou adorando, apesar da inevitável sujeira das tintas de impressão. Saí de lá com as unhas pretas e a cabeça pontilhada de idéias coloridas.

domingo, 21 de março de 2010

Outono, outono no Rio

Tem vezes que coincidências na vida da gente parecem mágica. Depois de escrever no meu último blog sobre a minha vontade repentina - e até meio "adolescente" - de viajar para algum lugar longe daqui, recebo agora a doce mensagem de uma amiga, cantando a beleza do outono no Rio de Janeiro. É uma mensagem simples, um clip no Youtube do cantor Ed Motta,  que derreteu meu coração carioca:


Há um lugar para ser feliz
Além de abril em Paris
Outono, outono no Rio...







Era justamente essa a mensagem que eu precisava ouvir hoje. (Obrigada, Anacris!)


Sinto que sosseguei um pouco. Em vez de olhar para o céu e sentir inveja daqueles que sobrevoam a minha cabeça dentro de aviões,  hoje vou manter minha atenção ao nível do mar e curtir serenamente a beleza do outono na minha cidade. 




sexta-feira, 19 de março de 2010

Estou com vontade de viajar

Estou com vontade de viajar. Ainda não sei para onde, nem se vou poder fazer alguma viagem logo. Mas estou sentindo aquele comichão, que me dá de vez em sempre, de sair do rotineiro e da minha zona de conforto. Ver paisagens novas, ouvir línguas estranhas, sentir cheiros indecifráveis, caminhar por ruas onde nunca estive... que falta tudo isso me faz! 

Alguém disse que viajar é levar o coração para passear. 
Pois o meu está doidinho para embarcar num avião e sair por aí.


Tento me acalmar e convencer de que viagens não são tão importantes assim. Machado de Assis nunca saiu do Brasil - poucas vezes deixou o Rio de Janeiro - e no entanto era um homem cosmopolita, versado em línguas estrangeiras, sempre a par do que acontecia nos meios literários europeus. Marcel Proust se trancou naquele quartinho forrado de cortiça para abafar os ruídos de fora e foi ali que escreveu uma das obras mais impactantes da literatura mundial. Drummond raramente viajava - talvez para evitar as pedras no meio dos seus caminhos. 

Mas não quero ser famosa nem evitar pedras no meu caminho.
Quero ver o mundo de perto
e me ver refletida em espelhos alheios.

terça-feira, 16 de março de 2010

Dois filmes que mexeram comigo

Ontem fui ver o excelente filme argentino "O Segredo dos Seus Olhos", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Saí de lá com a sensação de que o diretor Juan José Campanella (que também dirigiu "O Filho da Noiva") havia desnudado a alma dos argentinos diante do mundo, sem o menor pudor. Lá estavam nuestros hermanos del sur, bem ali na nossa frente em tremendo close-up, com suas imperfeições, inseguranças, canalhices, fraquezas... tudo isso exposto com um senso de humor adorável, que nos faz render à simpática cafajestagem dos argentinos que nós, brasileiros, tanto gostamos de odiar.

Ai, desgraciados! Os argentinos ganharam seu segundo Oscar de melhor filme estrangeiro! (O primeiro foi em 1985, com outro filme extraordinário, impossível de se esquecer, "A História Oficial".)   E nós? Cadê o cinema nacional? Será que vamos ter que amargar essa humilhação e ficar só com a glória do nosso futebol?


Bueno, ni modo... Não adianta espernear: os argentinos estão mesmo à nossa frente nos louros do cinema internacional.

***
Mas - calma! - sinto que nem tudo está perdido. Na mesma sessão de ontem, no Estação Ipanema, pude assistir ao trailer de um filme brasileiro que me deixou verdadeiramente emocionada: "Sonhos Roubados", de Sandra Werneck. Duas razões muito diferentes contribuíram para eu me sentir mexida assim:

1) A primeira razão é o próprio tema do filme, doloroso e urgente, como um tapa na cara de qualquer carioca minimamente responsável: o que leva meninas adolescentes das comunidades carentes do Rio de Janeiro à prostituição, permitindo que seus sonhos sejam roubados. Até que enfim, vem aí um filme com tema feminino, dirigido por uma mulher, com base num livro-reportagem escrito por outra mulher, a jornalista Eliana Trindade. Já era tempo de se mostrar o que acontece no outro lado da vida das nossas cidades de Deus.

2) A segunda razão desse trailer ter mexido tanto comigo é de ordem exclusivamente pessoal. Sandra Werneck e eu fomos colegas de turma nos primeiros tempos de colégio. Aprendemos a ler e a brincar juntas. Por vários anos convivemos diariamente nas aulas de português, matemática, religião, moral e patriotismo, como faziam então as meninas "de boa família" da Zona Sul carioca. Lembro-me da Sandra sempre risonha e inquieta, de cabelos curtos, com uns óculos de aros vermelhos que, por algum motivo, me fascinavam. (Não sei por que até hoje me lembro da cor desses óculos!). Também me lembro bem de uma festa de aniversário que ela deu no Yatch Club, que me deixou deslumbrada pela beleza do ambiente cheio de luzes e alegria, aquele ar fresco à beira da marina. 

Um belo dia, sem que nos fosse dada qualquer explicação no colégio, Sandra nos deixou e nunca mais nos vimos. Devíamos ter talvez uns dez anos de idade. Só voltei a vê-la muitos anos mais tarde, nas fotos publicadas em jornais e revistas, rodeada de celebridades, recebendo aplausos, agradecendo prêmios. Já não usava óculos, mas o rosto mantinha a mesma expressão da criança que havia sido. 

Há pouco tempo atrás, uma das "meninas" da nossa turma conseguiu entrar em contato com ela para convidá-la a participar de uma das nossas reuniões. A resposta veio por vias indiretas, mas foi clara: infelizmente estava muito ocupada,  não poderia comparecer, obrigada.

Percebo e respeito as razões não ditas. Mas dentro de mim fica uma sensação levemente incômoda, como se parte da nossa infância nos tivesse sido roubada.

sábado, 13 de março de 2010

"Bastardos Inglórios" não me ganhou

Ando meio atrasada nessa corrida em que todo o mundo entra para ver os filmes vencedores do Oscar. Só agora vi Bastardos Inglórios, do Quentin Tarantino, e não gostei. Preferia ter feito outra coisa naquelas duas horas e meia de ficção furiosa, em que soldados americanos escalpelam prisioneiros nazistas ao melhor estilo apache e Hitler morre carbonizado junto com toda a elite do Terceiro Reich, trancafiados num cinema de segunda classe em Paris. Mein Gott, was ist das? Alguém poderia me explicar?  

Quando o filme terminou, uma pergunta ficou dando voltas na minha cabeça: por que será que a violência e a barbárie fascinam tanto as pessoas?

Apesar de tudo, devo dizer que a primeira meia hora do filme me deixou maravilhada e cheia de expectativas positivas. As cenas iniciais mostram uma bela paisagem rural, na França ocupada pelos alemães. Um fazendeiro corta lenha em sua pequena propriedade, onde mora com as três filhas adolescentes. A paz idílica do lugar se rompe com a chegada de um oficial nazista, que vem interrogar o fazendeiro sobre o paradeiro de uma família judia local, que havia sumido do mapa sem deixar vestígio. É a primeira cena em que o ator austriaco Christopher Waltz aparece e, já neste primeiro momento, dá para a gente entender por que deram o Oscar de melhor ator coadjuvante para ele. O homem é uma fera poliglota (domina quatro idiomas perfeitamente) e consegue transformar os textos mais horripilantes em poesia de veludo.

Meia hora de tensão perfeitamente construída, iluminação sedutora, coreografia genial de câmera, silêncios  eloquentes, surpresas cruéis: este primeiro capítulo de Bastardos Inglórios (o filme é dividido em cinco capítulos mais ou menos independentes)  seria simplesmente glorioso como um curta metragem.

A última cena deste capítulo inicial - em que uma jovem foge desesperada pelo campo fértil e ensolarado - é de uma beleza plástica tão vasta quanto a da paisagem rural do filme. E me fez lembrar o Christina's World, aquele quadro do Andrew Wyeth, que é um verdadeiro ícone da pintura americana - um dos poucos que sempre mexem comigo e me dão vontade de chorar.

Será que fui só eu... ou teve mais gente que também se lembrou do quadro do Wyeth nessa cena do filme?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Extra! Extra! O dia anoitece em paz!

Acabo de receber uma mensagem do meu primo Sergio, que atualmente trabalha em Kosovo, em missão de paz da ONU: ontem, bem no dia do seu aniversário, a terra tremeu por lá. Um terremoto de 4.8 deixou todo o mundo aflito por alguns segundos. Felizmente o chão voltou a ficar firme naquelas paragens... pena que o mesmo ainda não possa ser dito sobre a situação política dos Bálcãs.




Enquanto isso, aqui na serra de Itaipava, o dia transcorreu sem nenhuma notícia digna de ser impressa na mídia internacional. Começou em paz e está terminando do mesmo jeito: sem tremores de terra, sem chuva, sem neve, sem acidentes de trânsito, sem tornados, sem falta d'água, sem comícios de campanha eleitoral, sem assaltos nem sobressaltos.


E, como se tanta bonança não bastasse, ainda tem o mais incrível de todos os não-eventos serranos: 
estamos há QUASE uma semana sem falta de luz!


Bomba, bomba: o dia amanheceu em paz!


Atenção, terráqueos! 
Hoje o dia amanheceu assim, aqui em Itaipava: 
céu azul, 23 graus, gente indo trabalhar, passarinhos cantando.

Nenhum jornal do mundo vai dar essa notícia. 
Mas considero este cenário de paz um furo de reportagem global.  

quarta-feira, 10 de março de 2010

Tem que correr, tem que correr...

Juro que pensei que estava sendo assaltada. Em plena luz do dia, duas mãos masculinas fortes, urgentes, me pegaram pelos ombros. Elas vieram do nada, pelas minhas costas, e quase me derrubaram na calçada na rua Visconde de Pirajá, perto da praça General Osório. "Pronto, chegou a minha vez", pensei. Todo brasileiro que se preze já foi assaltado em algum momento na vida. Não há razão para acreditar que só eu seja poupada dessa praga nacional.

Mas de repente aquelas mãos me soltam e duas pernas passam ríspidas por mim, desaparecendo em seguida no meio de pedestres, vendedores ambulantes e camelôs.

Um silêncio estranho toma conta da calçada, enquanto sacolas, toalhas, chapéus, relógios, óculos e panos de todas as cores esvoaçam ao meu redor.

Por trás de mim ouço o toc-toc de um par de botas que se aproximam, num compasso decidido. O guarda civil chega impecavelmente fardado, o cassetete preso à cintura. Os camelôs desaparecem dali como mágica. Vejo relógios que se esparramam no asfalto.

Uma mulher franzina se atrapalha e, de tão nervosa, não consegue desmontar a banca de papelão nem guardar as bolsas de plástico que está vendendo. Sem apressar o passo, o policial alcança a mulher com facilidade e, visivelmente contrariado, avisa em voz baixa à transgressora incômoda: "Tem que correr, tem que correr..."

Alguém pragueja contra o policial. Ele finge que não ouve e se afasta, arrastando sem vontade pela calçada aquele amarrado de bolsas de plástico.

Pois é, a mulher perdeu. Mas, também, quem mandou? O aviso do policial foi claro: "Tem que correr, tem que correr..."

terça-feira, 9 de março de 2010

A galope, no Dia da Mulher

Ontem comemorei o Dia Internacional da Mulher de um jeito bem carioca: jogando conversa fora com um grupo de amigas, em volta da mesa de um bar ao ar livre. Éramos onze mulheres, todas amigas desde os primeiros tempos de colégio. Nossa mesa era um verdadeiro luxo tropical, debruçada sobre a pista de corrida de cavalos do Jockey Club. Neste final de verão, sob um imenso céu sem nuvens, a temperatura ambiente não poderia estar melhor.

Do alto do Corcovado, o Redentor dava as costas para nós, espiando o outro lado da cidade. Menos mal, assim a gente pôde ficar mais à vontade.

Ali bebericamos drinks de frutas coloridas,  comemos pizza sem medo de engordar, ouvimos e contamos as histórias de sempre, rindo de todas como se fossem inéditas. E, como sempre, celebramos a alegria de estarmos novamente reunidas, reinventando a vida.

Uma chegou cedo, outra atrasada.
Uma cortou o cabelo bem curtinho, outra deixou crescer.
Uma conseguiu convencer o maridão a fazer aquela viagem tantas vezes adiada, outra continua procurando marido novo.
Uma acendeu um cigarro, outra protestou contra a fumaça do vício maldito e se mudou de lugar.
Uma assistiu à entrega dos Oscar até altas horas da madrugada, outra nem sequer sabia quais os filmes que haviam levado a estatueta na noite anterior.
Uma falava animada, movimentando braços, pernas e cotovelos, enquanto outra só ouvia tudo, calada.
Uma quis saber  por que outra havia faltado ao encontro de ontem.
E todas nos lembramos daquela outra ausente, que se foi para sempre do nosso convívio,
mas continua muito presente entre nós. 

A vida é um galope. 


Bem ali diante da nossa mesa, de vez em quando era dada a largada de uma nova corrida na pista do Jockey. Noto que os cavalos ficam inquietos antes de serem soltos para disparar. É bonito vê-los ansiosos, na antecipação da corrida.

Qual deles vai chegar na frente?

Pensando bem, percebo que esta pergunta não faz sentido algum. Tanto faz quem cruzar alinha de chegada na frente. O importante é galopar com vontade, sem pressa de chegar.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Meu Dia Internacional da Mulher


De uma coisa tenho certeza: a comemoração do Dia Internacional da Mulher, 8 de março, segunda-feira, já vai começar no fim de semana, com uma chuva de reportagens na grande imprensa sobre Mulheres Maravilha - guerreiras, pioneiras, artistas, bruxas, santas, cientistas, estadistas... Deixo que a mídia as festeje condignamente e me volto, humilde, para o meu microcosmo. Fico pensando nas mulheres que marcaram a minha vida, caminhando junto comigo na trilha ancestral das gerações, nesta busca incessante de minha própria identidade:  

minha mãe,
minha irmã
e minha filha.

Devo a estas três mulheres a construção de uma outra mulher, que vejo refletida no espelho todas as manhãs.

*****


A primeira me ensinou que eu vim ao mundo por uma razão óbvia: para ser amada por todos os habitantes do planeta. Nunca duvidei deste sábio ensinamento de minha mãe, que ela me transmitia todos os dias com grande convicção, sem necessidade de dizê-lo em palavras.


A segunda me ensinou a brigar pelos meus espaços, coisa que irmãs sabem fazer como ninguém. Como me atreveria a conquistar meus lugares ao sol, se não tivesse treinado antes com minha irmã?


E a terceira me ensinou a reencontrar a menina que um dia fui, no meu corpo de mulher. Minha filha e eu somos tão diferentes e tão parecidas. Ter uma filha é um dos maiores presentes que a vida me deu. Meu mundo hoje é muito mais rico, alegre e colorido por causa dela.

Quem não acredita na existência da Mulher Maravilha é porque nunca esteve com nenhuma dessas três, que me acompanham pela vida afora.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Viajando com Dehesa e Calvino


De tanto pensar no México ontem, hoje acordei com saudades da bem humorada coluna do jornalista e professor de litereatura Germán Dehesa, que eu costumava ler todas as manhãs no jornal mexicano La Reforma. Ele conseguia fazer com que meu dia começasse com algumas idéias para reflexão, acompanhadas muitas vezes de uma boa gargalhada. Fui ao Youtube e - que bom! - lá estava meu amigo Dehesa, um pouco mais velho e mais barrigudo, mas com o mesmo brilho nos olhos, falando da importância de se lerem livros. "No hay mejor recreo que la lectura", diz ele, fazendo logo em seguida a ressalva, com uma piscadela: "El amor, talvez..." E acrescenta: "Así como los parques tienen bancas, la vida tiene libros."

Concordo plenamente. Quando a gente caminha por um parque, sem tempo para se sentar num banco e observar as coisas ao nosso redor, na verdade está desperdiçando uma boa chance de saborear o passeio. Da mesma forma, viver sem desacelerar o ritmo da rotina diária para se ler um livro é perder a chance de se alimentar interiormente.

Pois bem: hoje pude alimentar um pouco o meu espírito, que anda meio cansado e mal nutrido, com tanta informação fast-food consumida na Internet. Comecei a ler As Cidades Invisíveis, do Ítalo Calvino, tradução de Diogo Mainardi - um presente da minha amiga Claudinha. Neste livro, nada acontece, tudo se adivinha. É um relato de viagem que passa por diversas cidades da antiguidade, mas não nos leva a lugar nenhum.  Com palavras simples e um estilo enganadoramente singelo, acaba nos conduzindo a um mergulho  no fundo de nós mesmos.

Isso é que é viagem!

quarta-feira, 3 de março de 2010

"Amor fati", Nietzsche e o México

"Agora não tem mais jeito: tenho que me mudar para São Paulo até o final do mês", disse desconsolado meu amigo do clube de remo na Lagoa, hoje cedo. Há meses ele vem sendo preparado para esta mudança profissional. Não há nenhuma novidade nisso. O que me espanta nessa história é a sua recusa obstinada em aceitar uma situação já definida pela empresa, que pode lhe abrir muitas oportunidades novas.  Ele sofre demais com a perspectiva de deixar sua zona de conforto pessoal. 



Resultado: o tempo passa e ele perde a chance de viver mais um dia feliz.



Conheço bem este sentimento. Já passei por coisa parecida, quando me mudei para a cidade do México contra a minha vontade. Meus primeiros três meses en la Gran Ciudad foram infernais, não conseguia ver beleza em nada. Um belo dia, apertei um botão interno e parei de lutar contra o que a vida tinha me preparado. Mágica! De repente, o México se transformou no paraíso terrestre, cheio de cores, sabores e texturas maravilhosas. Foi assim mesmo, da noite para o dia. Os mexicanos não mudaram nada, isso eu posso garantir. Quem mudou fui eu.  

Tentei animar meu amigo, mas não consegui encontrar nada convincente para lhe dizer. Aquele botão mágico dentro do peito, quem tem que encontrar e apertar é somente ele.  

Voltei para casa pensando na beleza daquela expressão de Nietzsche - "amor fati" - que encerra a fórmula para se viver bem. Em Latim quer dizer "amor ao fado" ou "amor ao destino".  É um conceito ousado, que vai além da simples aceitação das coisas. É "não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade". É "não apenas suportar o que é necessário, mas também amá-lo". 

Pois se nessa vida alguma coisa não tem jeito... remediado está. Pronto. Acabou-se. C'est fini. Finito. Kaput. E vamos em frente, que atrás vem gente.


No meu caso pessoal, não foi Nietzsche quem me ensinou isso. Foi o México.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Carioca (até) debaixo dágua

Hoje a comemoração dos 445 anos de fundação da Cidade Maravilhosa foi debaixo dágua. Ouvi diversas pessoas dizerem hoje na rua, com um meio sorriso, em tom consolador:  "São as águas de março..."
Mas eu pergunto: para que tanta água fechando o nosso verão? E logo no primeiro dia do mês de março? Precisava chover desse jeito, justo no no dia do aniversário da cidade?
Por causa de um acidente dentro do túnel Rebouças, levei uma hora e meia para chegar em casa a partir de Ipanema - um trajeto que normalmente faço em dez minutos. Droga.
Aí, de repente me lembro das vítimas do terremoto que arrasou o Chile há dois dias e logo paro de me queixar. Afinal, agora já estou dentro de casa, onde (pelo menos hoje) não falta luz elétrica nem água na torneira. Tenho um teto sobre a cabeça e uma cama onde dormir. Quantos não dariam tudo para ter um pouco desta paz hoje à noite?
E viva a nossa Cidade Maravilhosa... ainda que sob as águas deste primeiro de março!