sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Paulo remador


Antes do sol nascer, Paulo Roberto de Andrade já está lá firme, praticando remo na sede náutica do clube Botafogo, na Lagoa Rodrigo de Freitas.  Aos 48 anos de idade, cabeça grisalha e jeitão descontraído, Paulo se destaca dos jovens atletas que remam neste horário. Mas o que realmente o distingue dos demais é uma alegria contagiante, quase infantil, que ele transmite a cada passada dos remos na água. Remar é uma atividade que obviamente o faz sentir feliz.

"Bom dia!", grita ele de longe, sem parar de remar, assim que reconhece algum amigo olhando em sua direção.

Já no píer, suado e sorridente, Paulo cumprimenta cada um dos remadores que encontra pelo caminho, sempre pronto a ajudá-los a colocar seus barcos na água ou a guardar os remos usados.

Todos no clube sabem do seu entusiasmo por esportes.  Ele participa de quase todas as maratonas e provas de natação promovidas no Rio de Janeiro. Em julho passado, contrariando todas previsões médicas, Paulo completou a maratona da cidade com o auxílio de muletas, quando ainda se recuperava de um acidente.  Não ganhou medalhas, mas em compensação recebeu uma profusão de aplausos, beijos e abraços de um público emocionado.


O que poucos sabem é que, na vida profissional, Paulo se dedica a provas muito mais duras que competições esportivas. Ele é policial militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), força especial de combate ao crime em áreas de alto risco do Rio de Janeiro.  


A ideia de se tornar policial surgiu aos doze anos de idade, quando viu o pai ser assassinado a tiros durante um assalto perto da casa onde moravam, no bairro carioca de Santo Cristo. A morte do pai trouxe mudanças radicais e imediatas na sua vida. O mais velho dos seis filhos, Paulo teve que tomar conta dos irmãos menores, para que a mãe pudesse trabalhar como faxineira. Pouco tempo depois, também ele teve que procurar emprego e, desde então, não parou mais de trabalhar. Já fez um pouco de tudo: foi office-boy, entregador, tratorista, brigadista de paraquedismo da Aeronáutica. "Nunca fiquei desempregado em minha vida", afirma Paulo.  Para garantir maior segurança, resolveu prestar concurso para a Polícia Militar no final dos anos oitenta. Foi assim que Paulo ingressou na Companhia Independente de Operações Especiais (CIOE), órgão precursor do BOPE, que seria criado em 1991.


No âmbito familiar, o destino lhe reservava surpresas extraordinárias, dignas de um romance. A médica oftalmologista Suzana Limmer, que mais tarde viria a ser sua esposa, entrou na vida de Paulo por causa de uma de suas irmãs, que tinha um problema de estrabismo grave. A menina foi levada ao seu consultório pela mãe, mas na época não pôde ser operada por questões financeiras. Foi somente anos mais tarde que a médica voltou a vê-la, desta vez num hospital de Madureira, onde a cirurgia pôde ser finalmente realizada. Suzana, que hoje também rema no Botafogo, relembra o momento em que viu o futuro marido pela primeira vez:  "Eu estava saindo do centro cirúrgico onde tinha acabado de operar a irmã de Paulo. Quando abri a porta e o vi na antessala, ansioso e aflito, aguardando o final da cirurgia, pensei comigo mesma: Que rapaz lindo!"

Naquela época, a ideia de que os dois pudessem vir algum dia a se casar parecia absurda. Suas trajetórias de vida pareciam não ter nada em comum. Suzana era médica, recém-casada, havia sido criada na Zona Sul carioca e a primeira vez que foi a Madureira foi quando começou a trabalhar nesse hospital. Paulo, por sua vez, sempre viveu no subúrbio, teve que enfrentar todos os tipos de dificuldades na vida e não tinha conseguido completar um curso superior. Novas coincidências, entretanto, fizeram com que seus caminhos  voltassem a se cruzar.  Suzana teve um filho, Pedro, mas em seguida se separou do marido. Logo veio a transferência de seu trabalho para  Nilópolis, onde morava a família de Paulo. Quando menos esperavam, Paulo e Suzana se apaixonaram e, em 1992, resolveram se casar.

Alguns anos depois, Pedro ganhou um irmão com o nascimento de Bruno, hoje com dezesseis anos. Foi por causa do Bruno que Paulo começou a remar no Botafogo. "Eu vinha sempre trazê-lo de carro e ficava esperando por ele na beira da Lagoa, observando o pessoal remar", conta Paulo. "Um belo dia, um dos instrutores, o Dragão, me convidou para remar um pouco no tanque e eu gostei da experiência, apesar de não ter tido grande sucesso no começo. Acho até que bati um recorde mundial: eles me fizeram praticar dois meses no tanque antes de me permitirem remar qualquer barco na Lagoa!"

Hoje Paulo rema seu canoe por todos os lados da Lagoa, sem problema.  Com frequência ele é visto praticando largadas curtas junto ao píer, voltando sempre ao mesmo lugar. "Gosto deste exercício, porque sempre tive muita dificuldade para remar em linha reta. Acho que agora já melhorei bastante!"

Persistência parece ser mesmo uma de suas qualidades mais marcantes. Há poucos anos resolveu aprender a nadar para se recuperar de um problema na perna causado por um tiro durante uma operação policial. Além de ter ficado bom da perna, conseguiu também vencer o medo que sentia de nadar em mar aberto e agora participa de quase todas as competições de travessias marítimas no Rio de Janeiro. "Chego a ser chato quando quero alguma coisa que considere realmente importante", diz ele. Já depois de casado, voltou a estudar e formou-se em Fisioterapia. "Agora temos outro doutor na nossa família", brinca Suzana, orgulhosa do marido.

"Sou um homem feliz", diz Paulo. "Tenho saúde, uma esposa maravilhosa, dois filhos ótimos." E resume: "Família é tudo na vida de um homem."






sábado, 10 de setembro de 2011

Nova York, dez anos depois (2)

Devo ter acionado sem querer algum botão esquecido do meu cérebro quando publiquei o texto sobre as emoções que os ataques terroristas à cidade de Nova York produziram em mim há dez anos atrás. É que, logo em seguida, muitas outras lembranças que eu julgava soterradas em um canto qualquer da memória, voltaram a aflorar, nítidas, 
como se tivessem ocorrido ontem.


Uma das primeiras imagens que me ficaram marcadas na memória é a do rosto de um bombeiro que passava pela minha rua num carro de socorro, em direção ao Ground Zero ainda em chamas. Era muito jovem e estava sentado à janela do carro, com o braço apoiado para fora, e os olhos claramente na minha direção. Interrompi meu caminho para aplaudi-lo ali da calçada, em sinal de respeito e solidariedade. Estou certa de que ele me viu, mas o danado nem se mexeu, indiferente ao aplauso.  Nas telas de TV, o horror da tragédia começava a ser contabilizado: quase 3 mil desaparecidos, apenas algumas dezenas de corpos encontrados. De repente compreendi toda a dor contida no olhar daquele jovem bombeiro e fiquei imaginando as cenas infernais que ele já devia ter presenciado, na missão heróica de resgatar corpos e salvar vidas, muitas vezes arriscando a própria. Neste momento, a inutilidade dos aplausos desabou sobre mim.

Na verdade, havia muito pouco o que nós, moradores de Manhattan, podíamos fazer para ajudar. A Defesa Civil recomendou que todos nos mantivéssemos o mais longe possível do local da tragédia. Apenas profissionais experientes das áreas de saúde e resgate tinham permissão para trabalhar como voluntários. Ansiosos para ajudar de alguma forma,  nós, simples moradores da cidade, formamos filas imensas à porta dos hospitais para doar sangue. Nem isso conseguimos fazer. As autoridades logo nos dispensaram, com a informação de que já havia reservas suficientes. Motivo: o ataque às torres gêmeas quase não deixou feridos. Vítimas fatais, sim; pessoas com necessidade de receber sangue, quase nenhuma. O surreal parecia não ter limites.


Por muitos meses após os ataques, moradores anônimos vinham depositar flores junto às fotos dos bombeiros que sacrificaram a própria vida tentando salvar a de outros. No total, 343 bombeiros morreram no local onde ficavam as torres do World Trade Center. As fotos publicadas aqui  são de minha amiga Alessandra Silva, moradora do Upper East Side. Elas mostram a calçada do batalhão da rua 85 Leste, poucos dias depois dos ataques. No quadro de honra, os rostos dos nove heróis da nossa vizinhança, que desapareceram tragicamente no dia 11 de setembro.



Com o passar dos dias, em vez de diminuir, minha tensão aumentava. Sentia-me só. Meu telefone não tocava. Não conhecia quase ninguém na cidade.  Na parede da cozinha, um pequeno quadro  insistia em me anunciar o que eu já sabia de sobra: a vida é feita de amigos. Que falta me faziam os amigos naqueles dias difíceis em Nova York!

Passado um mês da tragédia, meu marido e eu tomamos uma decisão divertida: resolvemos convidar todos os vizinhos do vigésimo-segundo andar do prédio onde morávamos para um happy hour em nosso apartamento. A bebida seria por nossa conta e quem quisesse poderia trazer algum tiragosto para beliscar. Colocamos os convites por baixo da porta de cada um dos quinze apartamentos e, na hora marcada, aguardamos ansiosos a chegada dos convidados.

A primeira a chegar foi Evelyn Glasser, uma divorciada extravagante e coquete, de oitenta e poucos anos de idade, que logo se tornou uma grande amiga. "Vocês não vão acreditar", exclamou, esfuziante e feliz, assim que lhe abrimos a porta, "mas esta é a primeira vez que algum vizinho me convida para entrar em sua casa desde que me mudei para este prédio, há 21 anos atrás!" Junto com ela, a alegria entrou no nosso apartamento como um vendaval.

Vieram poucos vizinhos. Alguns justificaram sua ausência com bilhetes simpáticos deixados à nossa porta. Outros nem se deram o trabalho de nos dar qualquer satisfação - o que, longe de nos incomodar, nos era até previsível.

Mas, entre os que apareceram, criou-se um clima festivo. Foi reconfortante ver aquele pequeno grupo de pessoas, que até então nunca se haviam trocado palavra, conversando animadamente na sala do nosso apartamento. Por algumas horas, nos esquecemos dos nossos medos e inquietações, celebrando a alegria de estarmos simplesmente ali, reunidos na Grande Maçã ferida.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Nova York, dez anos depois (1)

Faz quase dez anos que a cidade de Nova York virou palco de uma guerra não declarada, que abalou o mundo. No dia 11 de setembro de 2001, como grande parte dos moradores de Manhattan, amanheci encantada com a beleza do céu daquele fim de verão. Enquanto caminhava com  passo acelerado pelo Upper East Side, rumo à minha academia de ginástica na rua 85, de vez em quando olhava para o alto, admirando o contraste das tonalidades douradas dos edifícios com o azul do céu. Era uma terça-feira como outra qualquer - só que extraordinariamente bela e com o frescor de meia estação, que não dura mais que o pressentimento de mudança.

Hoje, quase uma década depois da tragédia em que quase 3 mil pessoas morreram, resolvi criar coragem para remexer  nas gavetas da minha memória e registrar aqui algumas das emoções que tomaram conta de mim naqueles dias de setembro. Apesar de não ter sido atingida pessoalmente pelos ataques e, nem de longe, querer comparar minhas angústias pessoais com o sofrimento brutal de milhares de outras pessoas que perderam a vida ou entes queridos, de alguma forma também participei do sofrimento coletivo daquela ilha.

Foi uma época particularmente difícil para mim, pois me havia mudado para Nova York apenas seis meses antes. Ainda não tinha tido tempo, portanto, de fazer muitos amigos e me sentia fora do ninho, à procura do meu espaço. Nunca imaginei que algum dia viveria em lugar tão marcado por tanta violência e destruição. Posso dizer que, durante os sete anos seguintes, enquanto vivi em Manhattan, não houve um dia sequer sem que a lembrança daquela terça-feira não sobrevoasse a minha cabeça, como uma nuvem ameaçadora.

Deixo que algumas lembranças me visitem, com a leveza que só a distância no tempo me é capaz de dar:

1) A primeira lembrança que me vem é a do imenso silêncio que se abateu sobre a cidade, absolutamente surreal. De repente, tudo parou: os carros, as linhas de metrô, os ônibus, os aviões. Da janela do meu apartamento, no vigésimo-segundo andar, vi ao longo da Segunda Avenida uma fila interminável de homens e mulheres caminhando no mesmo ritmo, em silêncio e em ordem, todos na mesma direção - para o lado oposto do sul da ilha, onde os ataques haviam ocorrido. Muitos deles estavam com as roupas inteiramente recobertas de pó branco e pareciam robotizados. Escolas, lojas, restaurantes, teatros, bibliotecas, museus -  todos fecharam as portas.  Os serviços de Internet foram interrompidos. Até mesmo os telefones pararam de tocar, com as linhas em pane. Só consegui me comunicar com o Brasil dois dias depois dos ataques, para avisar que estava bem. No meio de tanto silêncio, apenas duas exceções sonoras: a voz dos locutores de plantão em todas as telas de TV - sempre compungida e solene, quase monocórdia - e as sirenes das ambulâncias e do Corpo de Bombeiros - infrequentes, dilacerantes.

2) Todos os túneis e pontes que ligam Manhattan ao continente foram rápida e sumariamente interditados. Ninguém podia mais entrar nem sair da ilha. Além disso, não havia data prevista para a reconexão. Todos estávamos, portanto, literalmente ilhados. Lembro-me de ter ouvido uma notícia que conseguiu me deixar ainda mais nervosa: naquele primeiro dia, a venda de botes infláveis foi tão alta, que os estoques se esgotaram em poucos minutos. Meu Deus, será que ouvi direito a notícia? Botes infláveis, for God's sake! Este fato só confirmou minha desconfiança de que menos informação quase sempre é melhor que informação demais.

3) Passados os primeiros momentos de horror, a muitos de nós, indefesos moradores da Grande Maçã, sobreveio o medo - na verdade, quase a certeza - de que outro ataque terrorista à cidade estaria prestes a ocorrer. Para nós, naqueles dias tudo era possível: contaminação química da água, bomba nuclear, guerra biológica com bacilos de anthrax, ataques suicidas de homens-bomba... Logo percebi que só tínhamos dois caminhos a seguir: simplesmente entrar em pânico ou, então, esquecer o medo e cuidar da vida. Optei pela segunda alternativa. Preparei uma listinha de itens essenciais para um kit-sobrevivência, no mesmo padrão da que eu preparava todos os anos quando vivia na Flórida, no início da temporada de furacões: algumas garrafas de água potável, pacotes de biscoitos, pilhas, velas, fósforos, enlatados. Dentro do supermercado em frente ao meu prédio, encontrei muitos vizinhos que tiveram a mesma ideia que eu. Mas, ao contrário do que normalmente acontecia quando cruzávamos um com o outro na rua e fingíamos que não nos tínhamos visto, naqueles primeiros dias depois dos ataques todos buscávamos um sorriso amigo, uma palavra de cortesia, uma troca de informações sobre as últimas notícias veiculadas pela TV. Na fila do caixa, todos agíamos como velhos conhecidos, conversando amavelmente uns com os outros. Foi muito curioso observar esta mudança de atitude entre os novaiorquinos logo após os ataques. Pouco tempo depois, entretanto, voltamos todos ao "normal".

4) Nos dias que se seguiram ao ataque, era quase impossível concentrar minha atenção no que quer que fosse. Não podia sair de casa, nem conversar com ninguém. Para manter um pouco de sanidade mental nos primeiros dias, tive uma ideia produtiva. Desliguei a televisão e resolvi me lançar num projeto antigo, para o qual nunca encontrava o tempo necessário: a digitalização das fotografias de meus dois filhos quando crianças. Arquivadas naqueles álbuns de plástico que todos nós achávamos o máximo da modernidade nos anos 70-80, as fotos já estavam perdendo a cor. Graças a essa atividade simples que me manteve muitas horas ocupada, consegui criar momentos de tranquilidade no meio do caos, ao mesmo tempo em que recuperava as fotos de um tempo despreocupado e feliz, no meu Brasil tão distante.

5) "Alguém viu minha filhinha?" "Por favor, me ajude a encontrar meu marido!" "Eles estavam no Financial Center no dia 11 - quem souber alguma notícia deles, favor ligar para este telefone." Dia após dia, as mensagens afixadas nos postes de toda a cidade se multiplicavam aos milhares, quase sempre acompanhadas por fotos de pessoas sorridentes, a maioria jovens, cheias de vida. Impossível passar por elas sem um momento de reflexão ou uma pequena oração silenciosa.

6) No primeiro domingo após a tragédia, todas as igrejas de Manhattan ficaram abarrotadas de fiéis, entre crentes e descrentes. Jamais vou esquecer a imagem dos seis bombeiros que naquele domingo levaram o pão e o vinho até o altar da igreja de Santo Inácio, na Park Avenue. No meio do cortejo, aqueles homens fortes e vigorosos de repente se despiram da pose de super-herois e se deixaram cair num choro convulsivo, como crianças desamparadas. Não houve quem não chorasse ali junto com eles.

7) Na mesma semana do ataque às torres, acordei sobressaltada às 2 horas da manhã, com um solavanco que fez tremer toda a cama, provocando um barulho seco, que parecia vir das entranhas da terra. Pensei apavorada: "Explodiram uma bomba dentro do metrô! Eu bem que sabia que isso ia acontecer, eu sabia!" Fiquei um bom tempo ali deitada, imóvel, sem coragem de me levantar da cama, à espera de sirenes e gritos - que felizmente nunca vieram -, até ser vencida pelo sono. No dia seguinte, li no noticiário local: precisamente às 2 da madrugada, registrou-se em Manhattan um abalo sísmico de um grau de magnitude na escala Richter. OK, o tremor foi mesmo pequeno, mas  o epicentro foi logo ali, dentro do Central Park, a poucas quadras do meu edifício. Precisava uma coisa dessas? Nenhum morador de Manhattan merecia um susto extra naquela semana!

8) Demorei mais de três meses para ter coragem de voltar a andar de metrô na cidade. Além do medo de  encarar uma bomba no subterrâneo, outra coisa que me incomodava muito eram os excessos do aparato policial, com seus gritos e apitos. O policiamento embaixo da terra era tão ostensivo que deixava qualquer passageiro intimidado e receoso de levar voz de prisão, sem qualquer motivo aparente. Para não ter de enfrentar grosserias desse tipo no meu cotidiano, passei a utilizar apenas ônibus e táxis. Um pensamento ridículo me consolava e divertia ao mesmo tempo: se eu tivesse que ser vítima de um ataque a bomba, que não fosse embaixo da terra. Por cima dela, eu pelo menos teria condições de identificar direitinho o local em que iria morrer!

Quase um mês depois do atentado, recebemos um telefonema de nossos dois filhos, já adultos, avisando que estariam vindo passar o próximo fim de semana conosco.  Naquela época os dois estudavam em Boston, cidade a quatro horas de viagem de trem de Nova York. Fiquei sem saber o que lhes dizer no telefone. Parte de mim queria muito estar com eles, poder abraçá-los depois de tantos dias emocionalmente difíceis para todos nós. Mas outra parte sentia medo de sabê-los viajando pelas estradas de ferro da  região, alvo fácil para atentados terroristas e que, por isso mesmo, eram meticulosamente monitoradas pela polícia naqueles dias.

Ainda bem que nossos filhos crescem e, sem que a gente se dê conta disso, um belo dia sentem-se perfeitamente capazes de tomar suas próprias decisões sem nos consultar.

Quando mais precisávamos de seu abraço apertado, aqueles dois jovens adultos apareceram à nossa porta, sorridentes, bonitos, saudáveis. Foi um fim de semana feliz, no aconchego seguro do nosso apartamento em Manhattan.