quarta-feira, 16 de maio de 2018

As mentirinhas de Aninha: meu primeiro livro!


Responda depressa: o que é que você mais gostaria de fazer na vida?

Essa é uma pergunta que embatuca qualquer adulto mas, naquela tarde de contação de história ao ar livre, as crianças que estavam sentadas na grama diante de mim nem titubearam:

"Cavalgar em um dragão!"

"Voar pelo céu com um unicórnio!"

"Tirar uma foto do Papai Noel quando ele entrar na minha casa!"




Aqueles olhinhos brilhantes, cheios de entusiasmo diante das infinitas possibilidades da vida, foram para mim as cerejas do bolo daquela tarde feliz, que marcou o lançamento do meu primeiro livro infantil - As mentirinhas de Aninha. O evento aconteceu no Conecta Orgânica, um novo espaço de vivências e cursos em Araras, na serra de Petrópolis, com uma proposta de valorização dos artesãos locais e foco na sustentabilidade. Não poderia imaginar um local melhor para lançar meu livro,  rodeado pelo verde da Mata Atlântica, com a presença de amigos, numa bela tarde de sol!


A ideia do Mentirinhas surgiu há alguns meses, quando meu marido me desafiou com a pergunta inesperada: "O que é que você mais gostaria de fazer na vida?" Por alguns momentos fiquei paralisada com a imensidão daquela pergunta. Desnecessário dizer que nem me passou pela cabeça a ideia de vivenciar aventuras com dragões ou unicórnios.  Há poucas coisas mais assustadoras para mim do que me ver diante de uma página em branco, à espera de uma ideia inspirada.

Bem devagarinho, como um fio de Ariadne a me conduzir pelo labirinto de neurônios, aquela pergunta saiu à procura de uma ideia quase inatingível, meio mitológica, que dormitava desde sempre num porão escuro dentro de mim.  De repente a ideia inspirada apareceu: escrever um livro! E o que antes me parecia uma ideia fantasiosa, impossível, foi aos poucos criando forma - primeiro na mente, depois no papel.  E foi assim que alguns meses de trabalho no computador, contatos telefônicos, troca de e-mails com fornecedores e reuniões com o ilustrador Vitor Bellicanta, transformaram um sonho antigo nesta alegre realidade.


Cada vez que olho para as ilustrações do Vitor sinto vontade de rir. A simplicidade do traço nos transporta ao mundo infantil com um senso de humor delicado, revelando o olhar atento aos detalhes.

Terminada a contação da história, o evento continuou com uma oficina culinária com as crianças, onde preparamos deliciosas mentirinhas - biscoitos caseiros feitos com uma receita secreta de família. Receita que, por sinal (é bom que se diga), agora deixou de ser secreta porque está publicada no final do livro, para quem quiser experimentar em casa.




Desconfio que a história do livro já estava esboçada na minha cabeça desde meus tempos de criança. Uma vontade insaciável de viajar, conhecer novas culturas e interagir com pessoas diferentes sempre me acompanhou desde cedo. Por outro lado, as coisas simples da vida - como fazer biscoitos em casa - também me fascinavam muito. E quando a vida me presenteou com a chegada de Ana, a neta querida, misturei todos esses ingredientes num grande caldeirão e deixei-os cozinhar em fogo lento até se transformarem nesta poção mágico-literária, que todos vocês estão desde já convidados a provar.

Quem quer uma provinha?

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Quem não pôde ir ao lançamento de Araras terá nova chance de participar do lançamento do Mentirinhas, desta vez na cidade do Rio de Janeiro. Vai ser sábado, dia 9 de junho, às 16 horas, na Livraria Malasartes. 
A livraria possui uma maravilhosa coleção de livros infanto-juvenis e fica no Shopping da Gávea, 3o. piso, à rua Marquês de São Vicente 52.  




domingo, 9 de abril de 2017

Cada dia mais jovem - um retrato de minha mãe

Acordei  com a sensação de ter dormido mais do que deveria. Ainda deitada, lembrei num sobressalto de que, nesse dia, estava fazendo oito anos que minha mãe se havia ido. "Que estranho, parece que já faz mais tempo", pensei comigo mesma, ainda sonolenta, esforçando-me mentalmente para confirmar contas e datas. Já com os pés firmes no chão, estanquei num susto: "Epa! Não faz somente oito, mas dezoito anos!" Refiz as contas e vi que, de fato, já se havia passado todo aquele tempo desde que mamãe e eu havíamos estado juntas pela última vez. Como foi que pude me enganar numa conta dessas - um erro de nada menos do que uma década inteira, a contar de uma data tão importante na minha vida?

O passar do tempo tem uma relatividade afetiva que nem todas as teorias einsteinianas são capazes de desvendar. Dez anos a mais ou a menos causam grande impacto em qualquer agenda pessoal, mas agora descobri que podem significar muito pouco no nosso calendário emocional.

Passei o dia pensando naquela mulher alegre, espontânea e bem humorada, que me trouxe ao mundo. Batizada como Maria do Carmo, era chamada pelos pais e pelos cinco irmãos de Carmita e, por muitos de seus amigos, conhecida simplesmente como Mariazinha.

Como era desejável entre as mulheres de sua geração, mamãe se casou cedo e engravidou logo em seguida, deixando o trabalho de secretária no recém-inaugurado Hospital dos Servidores do Estado para cuidar da família. Antes mesmo de meus pais completarem um ano de casados, eu já havia nascido. Poucos dias depois de completar meu primeiro ano de vida, minha irmã Angela nasceu. Não me lembro de nenhum dia de minha infância em que mamãe não estivesse lá ao nosso lado, disponível e atenta.

Mamãe era divertida. Gostava de participar das nossas brincadeiras e, muitas vezes, era mais "moleca" do que as próprias filhas. Lembro-me especialmente de uma noite em que papai estava dando plantão no hospital e, depois do jantar, mamãe colocou na "vitrola" um disco de marchinhas de carnaval que ela adorava. Ficamos as três dançando na sala, cantando alto e rindo às gargalhadas até tarde, muito além do horário previsto - jamais discutido ou negociável - da gente ir para a cama. Foi uma das melhores noites da minha infância.

Nas férias de verão, era ela quem nos levava todos os dias à praia. No mar, quando a gente insistia em avançar de encontro à rebentação, ela nos levava "até o fundo", onde as ondas nos davam imensos "caldos", dos quais emergíamos em risadas resfolegantes, os fundilhos de nossos maiôs pesados de areia.

Às vezes mamãe deixava à mostra seu lado inseguro - o que, aos olhos de uma filha, tinha um efeito intrigante. Orgulhava-se, por exemplo, de ter passado "de primeira" no exame para obter a carteira de motorista, mas depois disso jamais teve coragem de dirigir um carro sozinha.

O prazer de cozinhar lhe veio mais tarde na vida, já com as filhas casadas, e mudou a rotina da família. Mamãe preparava almoços caprichados nos fins de semana, em geral com pratos que lhe traziam boas lembranças da infância no Maranhão. Farinha d'água, molho de pimenta ardida e doce de sapoti eram motivo de intermináveis conversas à mesa. Ninguém fazia fritada de camarão ou caruru melhor do que ela.

A chegada dos quatro netos encheu sua vida de novas cores e alegrias. Bordou carinhosamente lindos tapetes arraiolos para os quartos dos bebês, pintou camisetas com estampas engraçadas, jogou Mico Preto e biriba com a garotada, assistiu dezenas de vezes ao musical Noviça Rebelde em videocassete e às aventuras dos Trapalhões e do Sítio do Picapau Amarelo na TV. O banho na banheira da vovó era outra atividade memorável na rotina familiar das crianças.

Com o passar dos anos, vieram problemas de saúde e preocupações diversas que, aos poucos, invadiram seu coração. Poucas semanas depois de completar setenta anos de idade, ela faleceu de repente, sem tempo para se despedir nem dar trabalho a ninguém. Recebi a notícia inesperada pelo telefone de minha casa na Flórida, bem na hora do jantar. Não tive tempo a perder, nem mesmo para absorver a ideia completamente absurda de que minha mãe tinha morrido naquele dia. Joguei apressadamente algumas roupas na mala e rumei direto ao aeroporto. Em pouco mais de duas horas, já estava a bordo do avião que me levaria ao Rio de Janeiro, justo a tempo para o enterro. Sozinha e no escuro, viajando a noite inteira acordada, pude finalmente fazer uma parada interior para, emocionalmente exausta, tentar absorver o que estava acontecendo ao meu redor.

Tudo isso aconteceu há exatos dezoito anos. Ou seriam mesmo só oito? De qualquer maneira, que diferença faz medir o tempo de calendário com precisão absoluta, quando o tempo do coração faz o que bem entender?

De repente me dou conta de um fato curioso: à medida que o tempo avança, a lembrança que tenho de minha mãe vai-se modificando. Rugas e lágrimas dissolvem-se aos poucos na minha memória até desaparecerem por completo.  E mamãe se torna cada dia mais jovem, mais bonita e mais feliz.



Essa transformação gradual, tão delicada e bem vinda, me tranquiliza o coração.








domingo, 29 de janeiro de 2017

Entre tapas, churros e chatos


Recentemente voltei de uma viagem de dez dias a Madrid, Toledo e Valencia, para a qual não tive muito tempo de me preparar.  Não era a primeira vez que visitava a Espanha e, das outras vezes, havia feito meu dever de casa diligentemente, vasculhando informações em livros, filmes e artigos publicados sobre este país encantador e sempre surpreendente.  Autoconfiante no meu castelhano (talvez um pouco demais!) e nas boas experiências passadas, fiz a mala de qualquer jeito e rumei ao aeroporto, despreocupada e feliz. Porém - há sempre um "pero" quando se fala a língua dos espanhóis - por mais que a gente se prepare antes, a Espanha sempre nos faz sentir como um marinheiro de primeira viagem.

Compartilho aqui algumas observações culturais e gastronômicas que fiz durante esta curta temporada, que provam, mais uma vez, que a Espanha é um universo infindável de descobertas deliciosas para o estrangeiro.
          
         1) Ao contrário do que eu supunha - depois de ter lido reportagens sobre a crise financeira que atravessa a Espanha desde 2008, com taxa de desemprego superior a 25% e um grande número de jovens que têm deixado o país em busca de melhores condições de trabalho -, o que vi nas ruas das cidades que visitei não reflete absolutamente o clima de um país em crise. Os espanhóis parecem se divertir bastante,  frequentam bares e restaurantes alegremente até altas horas da madrugada, não se preocupam com a segurança nas ruas e utilizam meios de transporte público perfeitamente confiáveis a qualquer hora do dia ou da noite. Não vi crianças vendendo balas ou pedindo esmolas.  Avistei alguns grafites na periferia das cidades, mas não vi nenhum edifício do centro pichado.

         2)  Os espanhóis são muito diretos, falam o que lhes dá na telha, sem subterfúgios, em alto e bom som.  Adoro isso! Imagino que, para muitos estrangeiros, esse jeito franco pode vir a ser confundido com grosseria - mas é apenas uma característica da cultura espanhola. No fundo, são bem afáveis. Eles têm uma mania semelhante à dos brasileiros de tocar fisicamente a pessoa com quem estão falando (um tapinha nas costas, um pequeno toque no braço) para demonstrar certa atenção especial. Há pessoas que detestam esse tipo de invasão do espaço privado, mas o espanhol nem liga e vai tateando quem ele bem entender. Sinceramente, acho que eu me daria muito bem se vivesse entre eles.

         3) A vida noturna em Madrid é uma das mais animadas (e econômicas) de toda a Europa. A “noite”, aliás, começa bem depois do sol se por.  Notei que eles dizem “sete horas da tarde”, em vez de “sete horas da noite”. Pessoas de todas as idades (inclusive crianças) circulam ruidosamente pelas ruas da cidade, conversando, rindo e cantando, até se cansarem. É invejável o jeito guloso dos espanhóis de curtirem a noite.  Quando saem de casa para qualquer programa, eles sempre passam antes em algum bar para tomar pelo menos uma taça de vinho ou cerveja e mordiscar tapas. "Nós não sobreviveríamos sem nossos bares", me disse um espanhol. Numa noitada típica, percorrer diversos bares de tapas, um após o outro, é o próprio programa. Parece algo “normal”, mas não é. Desafio qualquer turista brasileiro a fazer isso sem a ajuda de um amigo espanhol! Muito provavelmente o viajante voltará ao quarto de hotel exausto e faminto. É que há uma “técnica” toda especial que só eles entendem de se pedir alguma coisa nos balcões, em geral apinhados de gente comendo, bebendo e gritando.

Bar de tapas El Lacón, em Madrid
É preciso, antes de mais nada, que o turista tenha conhecimento de um fato perturbador: o espanhol não faz fila. Sério. Os atendentes dos balcões só prestam atenção aos clientes que lhes dirigem a palavra gritando. Além da gente ter que brigar para ser ouvido, tem que se esforçar para pronunciar corretamente o nome daqueles tapas que estão no cardápio, mas que a gente nunca viu antes.  Para complicar, alguns desses nomes não estão sequer escritos em castelhano, mas em algum dos outros muitos idiomas ou dialetos falados no país. Palavras como “pintxos” (espetos bascos) e “espencat” (tapa valenciano) aparecem em perfeita harmonia ao lado de “patatas bravas”. Levei algum tempo para perceber que “chato” não era o que eu pensava, mas uma pequena dose de vinho e que “vaso de chato” é um diminuto copo para degustação.

         4) Confesso que alguns tapas não me apeteceram quando li seus nomes no cardápio – como “oreja de cerdo” (orelha de porco) e “matambre de ternera” (mata-fome de vitela), mas os entendidos garantem que são muito saborosos. Em contrapartida, me deliciei à vontade com as tradicionais “gambas al ajillo” (camarões no alho), “croquetas de jamón” (croquetes de presunto), “queso manchego” e inesquecíveis porções de “jamón ibérico” (presunto curado, orgulho da região). Aprendi que “tostas” correspondem às nossas conhecidas “bruschettas” e são sempre uma boa pedida para acompanhar o vinho ou a cerveja.


Tostas no Mercado San Miguel, Madrid
         5) Para a gente se aquecer num dia frio, há poucas bebidas mais deliciosas do que o “carajillo” – café fortificado com algum tipo de bebida alcoólica. Tomei uma vez com Bailey’s  e logo fiquei viciada. Em que outro lugar do mundo você pode pedir em voz alta no balcão “un carajillo, por favor!”, com a maior dignidade ?

         6)  Outra bebida muito apreciada pelos espanhóis é a “horchata”, um tipo de refresco feito com o leite extraído de uma planta chamada “chufa”. No Brasil ela é conhecida como “junquinho” (ou “junça”)  e considerada planta daninha, mas na Espanha é cuidadosamente cultivada. Não morro de amores por esta bebida leitosa e adocicada, mas, quando a gente viaja, parece que tudo fica mais atraente. Tomei “horchata” duas vezes na rua e achei ótimo!

Horchatería em Valencia

   7)  Outra coisa que não como de jeito nenhum aqui no Brasil, mas que na Espanha tem um sabor todo especial é “churro”. Não que esta fritura massuda e sem graça tenha um gosto melhor lá na Espanha. O que muda é o jeito de se comer: antes de levá-lo à boca, a gente deve mergulhar o churro numa xícara de chocolate quente. Só então, tentando evitar os respingos de chocolate pela mesa no trajeto entre a xícara e a boca, estaremos prontos para saboreá-lo à moda espanhola. É viagem garantida de volta à infância!


Churros com chocolate: uma viagem à infância
Enquanto comia meus primeiros churros da viagem, achando que já dominava toda a cena madrilenha, dei com os olhos num cartaz que me confundiu um pouco, onde se anunciavam “porras con chocolate”. Uma rápida consulta ao garçon me tranquilizou. Na Espanha, “porra” é um tipo de churro, feito com a mesma massa, porém sem as ranhuras na superfície. 



Churros e porras são vendidos por todos os cantos da Espanha, mas há um local em Madrid que se destaca de todos os outros – a Chocolateria San Ginés, fundada em 1894. No começo do século XX, era ponto de encontro de celebridades literárias, mas hoje os frequentadores são na maioria turistas. Um detalhe que me impressionou: a chocolateria fica aberta 24 horas por dia, sete dias por semana.



Chocolatería San Gines, uma instituição madrilenha
         8) Uma dica valiosa para qualquer turista desavisado na Espanha: “bocadillo” não significa “bocadinho”, mas sanduíche feito com aqueles pães deliciosos, tipo baguete italiana, de farinha boa. Logo no início da viagem, caí na besteira de pedir um “sándwich de jamón”, caprichando na pronúncia, apenas para receber da balconista o sanduíche de presunto mais sem graça deste mundo, feito com pão de forma. Depois dessa experiência frustrante, aprendi:  para comer um bom sanduíche, é preciso pedir “bocadillo de jamón ibérico”. E nem precisa caprichar na pronúncia, que todo o mundo entende.



sexta-feira, 15 de julho de 2016

A voz de Svetlana em Paraty



Quando anunciaram o nome da jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, na Tenda dos Autores da Festa Literária Internacional de Paraty, me levantei da cadeira num pulo. Era o momento mais esperado da Flip. Mal podia acreditar que estava a poucos metros da detentora do Prêmio Nobel de Literatura que, nove meses antes, me tinha roubado o sono de muitas noites a fio, por causa do livro Vozes de Tchernóbil.

Será mesmo ela?

Com passos miúdos e vestida com a simplicidade discreta de quem conhece bem o próprio valor e não faz a menor questão de aparentar o que não é, a jornalista e escritora de 63 anos de idade nos sorriu timidamente e logo se encaminhou à cadeira que lhe foi destinada, procurando rapidamente uma posição confortável.



Enquanto a plateia aplaudia entusiasmada, lembrei-me de um detalhe insignificante que li em uma reportagem sobre o Nobel, em outubro do ano passado. A matéria dizia que, quando o telefone tocou para lhe dar a notícia do prêmio de 1,4 milhão de dólares, Svetlana se encontrava em casa, tranquilamente... passando roupa! Esta insignificância nunca me saiu da cabeça. Para mim, a imagem pé-no-chão da ilustre jornalista, passando roupa no seu momento de maior glória, revela mais sobre a personalidade desta mulher incomum do que longos discursos laudatórios.

Assim que vi o nome de Svetlana nos jornais, procurei ler algum dos seus livros.  Foi tarefa complicada. Percebi que o trabalho da jornalista bielorrussa era desconhecido do lado de cá do Atlântico. Os Estados Unidos ainda não haviam prestado muita atenção nela. Traduções ao Português, até onde pude investigar, simplesmente inexistiam. Encontrei finalmente uma versão eletrônica, com boa tradução ao Espanhol, do Vozes de Tchernóbil - um livro emocionante e perturbador, baseado em entrevistas com sobreviventes do acidente catastrófico da usina nuclear de Chernóbil, na Ucrânia, então parte da União Soviética, ocorrido em 1986. 

Escrito com uma humanidade tocante, Vozes de Tchernóbil me pegou pelo estômago. Devorei-o com uma voracidade e encantamento que há muito tempo não sentia ao ler um livro. Fiquei tão emocionada, que acabei escrevendo um texto sobre ele aqui no blog. (Se quiser lê-lo, basta clicar aqui.)

Ao final do livro, uma pergunta não saía da minha cabeça: por que é que o mundo levou tanto tempo para descobrir a obra desta escritora monumental?



Assim que terminei o livro, fui logo em busca de outro. Mais uma vez, senti-me grata por viver na era mágica da internet, que me permitiu ler A Guerra Não Tem Rosto de Mulher sem ter que esperar meses até seu aparecimento nas livrarias daqui do Brasil. É um livro forte, inesquecível, tão impactante quanto o primeiro. Desta vez, porém, o tema é o envolvimento das jovens mulheres soviéticas na Segunda Guerra Mundial, que deixaram para trás tudo o que tinham -  famílias, estudos, segurança, conforto, inocência e juventude - para pegar em armas e lutar no front contra o exército alemão, embriagadas pelo fervor nacionalista do stalinismo. 

Como indica o próprio título do livro, a importância da feminilidade na vida das mulheres traz revelações surpreendentes, tanto na guerra quanto na paz, provocando profundas reflexões sobre a questão do feminino vs masculino. Assim como no livro sobre Tchernóbil, A Guerra Não Tem Rosto de Mulher é uma sequência de depoimentos comoventes colhidos ao longo de anos, em centenas de entrevistas. Svetlana, entretanto, prefere evitar este termo.  "Não faço entrevistas", fez questão de ressaltar durante a apresentação na Flip. "O que faço são visitas às casas das mulheres, onde tomamos chá e passamos horas conversando, sem pressa nenhuma, sobre temas que nos interessam - falamos sobre uma blusa nova que compramos, uma boa receita de bolo ou a vida com nossos netos. Aos poucos,  vêm à tona lembranças de detalhes das histórias da guerra que, para muitas daquelas mulheres, pareciam estar completamente esquecidos e apagados." 

Os relatos que Svetlana consegue obter nessas longas conversas são de uma força emocional esmagadora.  "A guerra é uma vivência demasiado íntima", acredita Svetlana. "Não me interessam os fatos externos nem as estatísticas da guerra, mas os sentimentos das pessoas, a história omitida." E se define, com firmeza delicada: "Sou historiadora da alma".



Se você está planejando ler algum destes livros, prepare-se para entrar num redemoinho emocional violento. Svetlana não brinca em serviço. Ela mergulha fundo no coração das pessoas, sem dó nem piedade, manejando com habilidade um afiado bisturi jornalístico. Mas apesar das tragédias e da dureza dos temas tratados, a jornalista consegue extrair de cada entrevistado os sentimentos mais belos e nobres existentes no ser humano, como solidariedade, amizade, generosidade, coragem e, acima de tudo, amor  ("essa palavra de luxo", como diz a poeta Adélia Prado).  Mesmo quando descreve as cenas mais cruas e dolorosas, o que Svetlana quer nos transmitir, na verdade, são as falas que vêm do coração. Sem jamais resvalar para o sentimentalismo, ela garante: "A única saída existente hoje no mundo, para a humanidade, é o amor."

Atrás daquele semblante afável, Svetlana não esconde o que pensa sobre a política russa atual. Sem meias palavras, dispara: "Não temos ilusões políticas, sabemos que bandidos estão no poder. Nós, democratas, fomos derrotados. Para reconquistar a liberdade, ainda temos um longo caminho a percorrer. E daí? Muito mais importante do que tudo isso na vida é estar perto das pessoas a quem queremos bem. Por isso resolvi retornar ao meu país." E pergunta, com um sorriso desarmante: "Como poderia viver longe da minha netinha?"













terça-feira, 28 de junho de 2016

Sonhos olímpicos nos Lençóis Maranhenses

Ligo a televisão e lá está ele, todo sorridente, carregando a tocha olímpica às margens do rio Preguiças, no Maranhão. Não tenho a menor dúvida: é ele, sim.  Conhecido como Júnior por todos ali na região, ele é o guia que me havia levado, poucos dias antes, a explorar com um grupo de amigos o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses - paisagem de sonho, com dunas de areia branca que se espalham  por 1.550 quilômetros quadrados, a perder de vista, entremeadas por lagoas azuis.


Por dois dias seguidos, Júnior nos conduziu por essas dunas inquietas, que o vento desloca sem cessar. Se hoje uma montanha de areia está aqui, amanhã ela bem pode estar no meio de um dos lagos, que então passa a ser dois, desnorteando o visitante menos avisado.

Nada é permanente nos Lençóis. A cada ano, na época da seca, as lagoas desaparecem nas areias, para subirem novamente à tona meses depois, quando o lençol freático se encharca de chuva. 



Algumas pessoas se referem a este lugar mágico como "Deserto Brasileiro". Pessoalmente, considero esta expressão um engano do olhar.  Para mim, os Lençóis nada têm de desértico. São cheios de água, vida, movimento, magia e história.



Guiados pelo Júnior, subimos e descemos incontáveis montanhas movediças, os pés afundados na areia, nossos olhares cravados no infinito de possibilidades daquela paisagem, verdadeiro abraço de 360 graus.




Durante a caminhada nas dunas, de vez em quando Júnior rompe o silêncio para nos falar com entusiasmo sobre a vida nos Lençóis. Ele parece conhecer bem o nome de cada lagoa, cada gramínea e cada pequeno animal que compõem aquele bioma maranhense, ainda pouco explorado pela comunidade científica.

Júnior tem 42 anos e nasceu em São Luís. Sua vida parece ter a mesma característica de mutabilidade constante que as dunas - a começar pelo próprio nome. Foi batizado como Jony Silva, mas hoje todos o conhecem como Júnior Gomes. Casou-se e teve filhos cedo. Quando a mulher os deixou em 1995, Júnior se mudou com os filhos para Barreirinhas, para morar com o avô, que precisava de apoio.  Recém-viúvo, o avô estava fisicamente muito debilitado, depois de ter cuidado por dez anos da avó enferma, que não tinha as duas pernas.

Naquele tempo, Barreirinhas era um povoado pouco conhecido e sem maiores atrativos turísticos. Apesar do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses ter sido criado em 1981, na verdade só foi aberto ao turismo a partir do ano 2000.  Os únicos que conheciam toda a beleza e magia daquelas dunas de acesso difícil eram os moradores da região.

Assim que se estabeleceu em Barreirinhas,  Júnior abriu um pequeno negócio de conserto de bicicleta. Como não havia eletricidade na região, ele mantinha um carregador de bateria num canto do seu negócio, para prestar serviços aos moradores da região. Certo dia, um senhor chamado Constantino passou lá para consertar a bicicleta. Enquanto realizava o conserto, Júnior conversou com o freguês e ficou sabendo que ele precisava da bicicleta para se deslocar até a cidade e recarregar uma bateria. "Quanto é que eles lhe cobram para fazer a recarga?", Júnior perguntou. "Cinco reais", respondeu sr Constantino. Quando Júnior soube que a bateria era para ele poder ouvir uma rádio local que anunciava falecimentos, nascimentos, avisos de chegada de barcos, marcação de encontros entre pais e filhos etc - resolveu não cobrar nada pelo serviço da recarga. Os dois ficaram amigos. Como agradecimento ao serviço prestado, o sr Constantino se ofereceu para levá-lo a conhecer um local de beleza extraordinária, que os moradores dali chamavam de "Morraria".

"Na hora eu nem dei muita importância ao convite",  relembra Júnior. "Eu imaginava uma grande área cheia de morros verdes, desses comuns." Quando finalmente resolveu ir até lá e avistou pela primeira vez os Lençóis do alto de uma duna, ficou deslumbrado. Naquele momento,  sua vida mudou completamente.

A partir dali, Júnior passou a trabalhar com ecoturismo, numa época em que este tipo de serviço estava apenas começando na região. Em 2008, tornou-se monitor ambiental do Parque Nacional, com especialidade na flora e geografia locais. Junto com um filho,  hoje com 19 anos, abriu o Hostel Rotativa em Barreirinhas, à beira do rio Preguiças, que recebe jovens turistas de vários países. Além de guia turístico, Júnior também é fotógrafo profissional e nunca se cansa de registrar as imagens dos Lençóis, que a cada dia o surpreendem com uma beleza diferente.

Ano passado, Júnior foi escolhido como um dos 12 mil condutores que irão percorrer 329 cidades de todo o Brasil com a tocha olímpica dos Jogos de 2016.  Escolha bem merecida, para um homem de muitos sonhos e muitas realizações na vida com o esforço do próprio trabalho.




segunda-feira, 20 de junho de 2016

O menino e o Homem Aranha

- Você existe de verdade? - pergunta Gabriel, quando o Homem Aranha se abaixa para abraçá-lo na cadeira de rodas, no quarto da Pediatria do Hospital Federal da Lagoa, onde ele está internado há várias semanas. Gabriel faz hoje 10 anos de idade. 

- É claro que eu existo! Só não posso revelar minha verdadeira identidade! - responde o Homem Aranha, tentando disfarçar a voz embargada.

O quarto está todo enfeitado de balões coloridos. A pequena mesa encostada à parede, que normalmente contém remédios e bandejas de plástico, hoje tem um bolo de aniversário e brigadeiros, trazidos pela equipe de médicos, enfermeiros e funcionários do hospital. Eles estão todos reunidos ali no quarto, muitos com chapeuzinho de papel na cabeça, assistindo sorridentes ao encontro do menino com o super-herói.

Desde que adoeceu, nas férias do verão passado, Gabriel não pôde mais frequentar as aulas na escola. Nos últimos meses, o Hospital tem sido o seu lar. As pessoas que lá trabalham têm sido seus amigos mais próximos, quase parte da sua família.

Nessas últimas semanas, estive algumas vezes com o Gabriel, contando histórias para lhe dar um pouco de alegria e tentar lhe restituir alguma sensação de normalidade, neste cotidiano nada normal de uma criança. Ele é um menino esperto, curioso e antenado, talvez até acima da média. Mas está sem aulas, sem o convívio com meninos de sua idade, sem desafios intelectuais. 

Hoje, esta singela demonstração de solidariedade da equipe do Hospital da Lagoa mexeu muito comigo. Num país quebrado como o nosso, onde a má gestão, a irresponsabilidade e a falta de ética dos nossos governantes achincalharam o atendimento na área da Saúde aos brasileiros mais indefesos e carentes, a atitude amorosa daqueles profissionais me trouxe um pouco de esperança no futuro de um Brasil melhor.

Parabéns pelo seu trabalho dedicado, equipe da Pediatria do Hospital da Lagoa! Hoje senti vontade de lhes fazer a mesma pergunta que o Gabriel fez ao Homem Aranha: será que vocês existem de verdade?

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Pedalando sem meu pai

A "descoberta" me caiu como um raio sobre a cabeça, enquanto pedalava pela ciclovia da Lagoa. Explico-me. Vinha distraída, admirando a paisagem, enquanto pensava na reportagem que tinha acabado de ler sobre um grupo de voluntários que dão aulas no Aterro do Flamengo a crianças e adultos que queiram aprender a andar de bicicleta. Escola Bike Angel é o nome do grupo, que já atua aqui no Rio há mais de um ano. O que mais me chamou a atenção na reportagem foi o fato de haver adultos interessados nessas aulas.


Como assim, adultos? Sempre associei o ato de aprender a andar de bicicleta à fase da infância - quando nos expomos a essas coisas maravilhosas que, uma vez aprendidas, jamais esquecemos na vida - como ler, escrever e assoviar. Pedalar bicicleta, para mim, fazia parte deste curriculum natural na vida de qualquer criança.

Não foi preciso muito tempo para que eu me desse conta da absurda ingenuidade desta ideia. É claro que nem todas as crianças do mundo tem acesso a uma bicicleta, menos ainda as de gerações passadas. Por que razão eu nunca havia pensado na necessidade de um adulto ter aulas para aprender a andar de bicicleta?

Enquanto pedalava, meus pensamentos voaram ao passado. Onde é que eu estava quando andei de bicicleta pela primeira vez? Quem foi que estava ao meu lado naquele momento mágico de equilíbrio e coragem que me libertou para sempre daquelas rodinhas de trás?



Eu me vi então na calçada da rua tranquila de um Leblon que já não existe, onde vivi toda a infância. A muito custo me equilibrava naquela Merck Suisse cor de vinho, que me parecia enorme. De repente, senti um empurrão no assento da minha bicicleta, que foi jogada à frente aos solavancos. Lá de trás, pude ouvir a voz de meu pai, segura e confiante: "Pode ir, vai!" O guidón tremilicou de um lado para o outro, mas logo consegui dominar a bicicleta e deslizei, livre e feliz, pelos cinco metros mais gloriosos da minha vida até então. Lembro bem do sorriso orgulhoso do meu pai, quando desmontei da bicicleta e me virei para trás para me certificar de que ele ainda estava lá. A primeira pedalada sem rodinhas ninguém esquece!

Somente agora, depois de todos esses anos vividos, de repente me dei conta do óbvio. Aquele que me deu o empurrão necessário,  transmitindo-me confiança para que eu fosse capaz de me equilibrar sobre duas rodas... nunca aprendeu, ele mesmo, a andar de bicicleta na vida! Uma constatação ao mesmo tempo clara e surpreendente para mim. 

Foi esta a "descoberta" inesperada que se abateu como um raio sobre a minha cabeça, a que me referi no início do texto. Por mais que eu revirasse as gavetas da memória, não consegui encontrar nenhuma lembrança de meu pai pedalando. Nenhuma foto, nenhum fragmento de história contada. Nada. 

De família humilde, meu pai não teve a sorte de ganhar uma bicicleta na infância. Já adulto e crescido, poderia perfeitamente ter aprendido a andar de bicicleta e recuperado o tempo perdido. Mas talvez não tivesse mais vontade - ou coragem - para pedalar sem rodinhas.

Se ainda estivesse vivo, hoje meu pai faria 95 anos de idade. Neste dia do seu aniversário, deixo aqui um pensamento de gratidão ao meu professor de bicicleta - aquele que jamais soube andar em uma.