quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Chuva em Floripa, sol no coração

Na mala, só levei sandália havaiana, short, camiseta, maiô e boné. Também coloquei um par de raquetes de frescobol e um frasco de filtro solar. Mas São Pedro tinha outros planos e se esqueceu de me avisar. Este fim de semana choveu em Floripa.

E eu, cá comigo: "São Pedro que me perdoe, mas não vou lhe acender vela, nem fazer promessa alguma. Com chuva ou sem chuva, esse fim de semana vai ser bom demais!"

E foi, mesmo. Quando se está ao lado de bons amigos, não existe tempo ruim. Não deu para ir à praia, é verdade. Mas nossa turma aproveitou para colocar as conversas em dia, relembrar velhas histórias, fazer troça uns dos outros e saborear quitutes locais sem pensar na balança.

E tome chuva.

Nos momentos de quietude, terminei de ler um livro e logo comecei um novo. À noite ia dormir com o barulho das ondas.

Mais chuva.

No final do último dia, um fato surpreendente fechou meu fim de semana como um raio de sol.   Ao terminar uma boa sessão de massagem no hotel onde estava hospedada, comentei agradecida com a massagista que aquela hora havia passado rápido demais para mim.  A moça apenas sorriu, educada. Continuei:

- Muito provavelmente a pessoa que dá a massagem, como você, não deve achar que esta hora da sessão passe tão rápido assim...

A massagista contestou, com firmeza:

- Não, para mim essa hora também passou muito rápido.

E acrescentou, sem mais nem menos:

- Eu fiz esta massagem em você rezando.

- Como assim... rezando?!

A revelação me pareceu tão estapafúrdia, que não conseguia lhe dizer mais nada. Com delicadeza, ela me explicou:

- É que meu irmão está muito doente, internado em um hospital de Porto Alegre. Os médicos dizem que ele tem poucas chances de sobreviver. Como estou longe, tudo o que posso fazer é rezar por ele, transmitindo-lhe boas energias. Foi o que eu fiz durante a sua massagem e, por isso, nem senti o tempo passar.

Disse essas palavras com simplicidade, sem drama algum.

Como se fôssemos amigas de longa data, nos abraçamos afetuosamente. A moça me agradeceu a massagem do coração e eu elogiei a que ela havia acabado de me dar. Em seguida nos despedimos, confortadas mutuamente.

E dali cada qual foi para o seu lado, debaixo da chuva fina de Floripa.





sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Paulo remador


Antes do sol nascer, Paulo Roberto de Andrade já está lá firme, praticando remo na sede náutica do clube Botafogo, na Lagoa Rodrigo de Freitas.  Aos 48 anos de idade, cabeça grisalha e jeitão descontraído, Paulo se destaca dos jovens atletas que remam neste horário. Mas o que realmente o distingue dos demais é uma alegria contagiante, quase infantil, que ele transmite a cada passada dos remos na água. Remar é uma atividade que obviamente o faz sentir feliz.

"Bom dia!", grita ele de longe, sem parar de remar, assim que reconhece algum amigo olhando em sua direção.

Já no píer, suado e sorridente, Paulo cumprimenta cada um dos remadores que encontra pelo caminho, sempre pronto a ajudá-los a colocar seus barcos na água ou a guardar os remos usados.

Todos no clube sabem do seu entusiasmo por esportes.  Ele participa de quase todas as maratonas e provas de natação promovidas no Rio de Janeiro. Em julho passado, contrariando todas previsões médicas, Paulo completou a maratona da cidade com o auxílio de muletas, quando ainda se recuperava de um acidente.  Não ganhou medalhas, mas em compensação recebeu uma profusão de aplausos, beijos e abraços de um público emocionado.


O que poucos sabem é que, na vida profissional, Paulo se dedica a provas muito mais duras que competições esportivas. Ele é policial militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), força especial de combate ao crime em áreas de alto risco do Rio de Janeiro.  


A ideia de se tornar policial surgiu aos doze anos de idade, quando viu o pai ser assassinado a tiros durante um assalto perto da casa onde moravam, no bairro carioca de Santo Cristo. A morte do pai trouxe mudanças radicais e imediatas na sua vida. O mais velho dos seis filhos, Paulo teve que tomar conta dos irmãos menores, para que a mãe pudesse trabalhar como faxineira. Pouco tempo depois, também ele teve que procurar emprego e, desde então, não parou mais de trabalhar. Já fez um pouco de tudo: foi office-boy, entregador, tratorista, brigadista de paraquedismo da Aeronáutica. "Nunca fiquei desempregado em minha vida", afirma Paulo.  Para garantir maior segurança, resolveu prestar concurso para a Polícia Militar no final dos anos oitenta. Foi assim que Paulo ingressou na Companhia Independente de Operações Especiais (CIOE), órgão precursor do BOPE, que seria criado em 1991.


No âmbito familiar, o destino lhe reservava surpresas extraordinárias, dignas de um romance. A médica oftalmologista Suzana Limmer, que mais tarde viria a ser sua esposa, entrou na vida de Paulo por causa de uma de suas irmãs, que tinha um problema de estrabismo grave. A menina foi levada ao seu consultório pela mãe, mas na época não pôde ser operada por questões financeiras. Foi somente anos mais tarde que a médica voltou a vê-la, desta vez num hospital de Madureira, onde a cirurgia pôde ser finalmente realizada. Suzana, que hoje também rema no Botafogo, relembra o momento em que viu o futuro marido pela primeira vez:  "Eu estava saindo do centro cirúrgico onde tinha acabado de operar a irmã de Paulo. Quando abri a porta e o vi na antessala, ansioso e aflito, aguardando o final da cirurgia, pensei comigo mesma: Que rapaz lindo!"

Naquela época, a ideia de que os dois pudessem vir algum dia a se casar parecia absurda. Suas trajetórias de vida pareciam não ter nada em comum. Suzana era médica, recém-casada, havia sido criada na Zona Sul carioca e a primeira vez que foi a Madureira foi quando começou a trabalhar nesse hospital. Paulo, por sua vez, sempre viveu no subúrbio, teve que enfrentar todos os tipos de dificuldades na vida e não tinha conseguido completar um curso superior. Novas coincidências, entretanto, fizeram com que seus caminhos  voltassem a se cruzar.  Suzana teve um filho, Pedro, mas em seguida se separou do marido. Logo veio a transferência de seu trabalho para  Nilópolis, onde morava a família de Paulo. Quando menos esperavam, Paulo e Suzana se apaixonaram e, em 1992, resolveram se casar.

Alguns anos depois, Pedro ganhou um irmão com o nascimento de Bruno, hoje com dezesseis anos. Foi por causa do Bruno que Paulo começou a remar no Botafogo. "Eu vinha sempre trazê-lo de carro e ficava esperando por ele na beira da Lagoa, observando o pessoal remar", conta Paulo. "Um belo dia, um dos instrutores, o Dragão, me convidou para remar um pouco no tanque e eu gostei da experiência, apesar de não ter tido grande sucesso no começo. Acho até que bati um recorde mundial: eles me fizeram praticar dois meses no tanque antes de me permitirem remar qualquer barco na Lagoa!"

Hoje Paulo rema seu canoe por todos os lados da Lagoa, sem problema.  Com frequência ele é visto praticando largadas curtas junto ao píer, voltando sempre ao mesmo lugar. "Gosto deste exercício, porque sempre tive muita dificuldade para remar em linha reta. Acho que agora já melhorei bastante!"

Persistência parece ser mesmo uma de suas qualidades mais marcantes. Há poucos anos resolveu aprender a nadar para se recuperar de um problema na perna causado por um tiro durante uma operação policial. Além de ter ficado bom da perna, conseguiu também vencer o medo que sentia de nadar em mar aberto e agora participa de quase todas as competições de travessias marítimas no Rio de Janeiro. "Chego a ser chato quando quero alguma coisa que considere realmente importante", diz ele. Já depois de casado, voltou a estudar e formou-se em Fisioterapia. "Agora temos outro doutor na nossa família", brinca Suzana, orgulhosa do marido.

"Sou um homem feliz", diz Paulo. "Tenho saúde, uma esposa maravilhosa, dois filhos ótimos." E resume: "Família é tudo na vida de um homem."






sábado, 10 de setembro de 2011

Nova York, dez anos depois (2)

Devo ter acionado sem querer algum botão esquecido do meu cérebro quando publiquei o texto sobre as emoções que os ataques terroristas à cidade de Nova York produziram em mim há dez anos atrás. É que, logo em seguida, muitas outras lembranças que eu julgava soterradas em um canto qualquer da memória, voltaram a aflorar, nítidas, 
como se tivessem ocorrido ontem.


Uma das primeiras imagens que me ficaram marcadas na memória é a do rosto de um bombeiro que passava pela minha rua num carro de socorro, em direção ao Ground Zero ainda em chamas. Era muito jovem e estava sentado à janela do carro, com o braço apoiado para fora, e os olhos claramente na minha direção. Interrompi meu caminho para aplaudi-lo ali da calçada, em sinal de respeito e solidariedade. Estou certa de que ele me viu, mas o danado nem se mexeu, indiferente ao aplauso.  Nas telas de TV, o horror da tragédia começava a ser contabilizado: quase 3 mil desaparecidos, apenas algumas dezenas de corpos encontrados. De repente compreendi toda a dor contida no olhar daquele jovem bombeiro e fiquei imaginando as cenas infernais que ele já devia ter presenciado, na missão heróica de resgatar corpos e salvar vidas, muitas vezes arriscando a própria. Neste momento, a inutilidade dos aplausos desabou sobre mim.

Na verdade, havia muito pouco o que nós, moradores de Manhattan, podíamos fazer para ajudar. A Defesa Civil recomendou que todos nos mantivéssemos o mais longe possível do local da tragédia. Apenas profissionais experientes das áreas de saúde e resgate tinham permissão para trabalhar como voluntários. Ansiosos para ajudar de alguma forma,  nós, simples moradores da cidade, formamos filas imensas à porta dos hospitais para doar sangue. Nem isso conseguimos fazer. As autoridades logo nos dispensaram, com a informação de que já havia reservas suficientes. Motivo: o ataque às torres gêmeas quase não deixou feridos. Vítimas fatais, sim; pessoas com necessidade de receber sangue, quase nenhuma. O surreal parecia não ter limites.


Por muitos meses após os ataques, moradores anônimos vinham depositar flores junto às fotos dos bombeiros que sacrificaram a própria vida tentando salvar a de outros. No total, 343 bombeiros morreram no local onde ficavam as torres do World Trade Center. As fotos publicadas aqui  são de minha amiga Alessandra Silva, moradora do Upper East Side. Elas mostram a calçada do batalhão da rua 85 Leste, poucos dias depois dos ataques. No quadro de honra, os rostos dos nove heróis da nossa vizinhança, que desapareceram tragicamente no dia 11 de setembro.



Com o passar dos dias, em vez de diminuir, minha tensão aumentava. Sentia-me só. Meu telefone não tocava. Não conhecia quase ninguém na cidade.  Na parede da cozinha, um pequeno quadro  insistia em me anunciar o que eu já sabia de sobra: a vida é feita de amigos. Que falta me faziam os amigos naqueles dias difíceis em Nova York!

Passado um mês da tragédia, meu marido e eu tomamos uma decisão divertida: resolvemos convidar todos os vizinhos do vigésimo-segundo andar do prédio onde morávamos para um happy hour em nosso apartamento. A bebida seria por nossa conta e quem quisesse poderia trazer algum tiragosto para beliscar. Colocamos os convites por baixo da porta de cada um dos quinze apartamentos e, na hora marcada, aguardamos ansiosos a chegada dos convidados.

A primeira a chegar foi Evelyn Glasser, uma divorciada extravagante e coquete, de oitenta e poucos anos de idade, que logo se tornou uma grande amiga. "Vocês não vão acreditar", exclamou, esfuziante e feliz, assim que lhe abrimos a porta, "mas esta é a primeira vez que algum vizinho me convida para entrar em sua casa desde que me mudei para este prédio, há 21 anos atrás!" Junto com ela, a alegria entrou no nosso apartamento como um vendaval.

Vieram poucos vizinhos. Alguns justificaram sua ausência com bilhetes simpáticos deixados à nossa porta. Outros nem se deram o trabalho de nos dar qualquer satisfação - o que, longe de nos incomodar, nos era até previsível.

Mas, entre os que apareceram, criou-se um clima festivo. Foi reconfortante ver aquele pequeno grupo de pessoas, que até então nunca se haviam trocado palavra, conversando animadamente na sala do nosso apartamento. Por algumas horas, nos esquecemos dos nossos medos e inquietações, celebrando a alegria de estarmos simplesmente ali, reunidos na Grande Maçã ferida.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Nova York, dez anos depois (1)

Faz quase dez anos que a cidade de Nova York virou palco de uma guerra não declarada, que abalou o mundo. No dia 11 de setembro de 2001, como grande parte dos moradores de Manhattan, amanheci encantada com a beleza do céu daquele fim de verão. Enquanto caminhava com  passo acelerado pelo Upper East Side, rumo à minha academia de ginástica na rua 85, de vez em quando olhava para o alto, admirando o contraste das tonalidades douradas dos edifícios com o azul do céu. Era uma terça-feira como outra qualquer - só que extraordinariamente bela e com o frescor de meia estação, que não dura mais que o pressentimento de mudança.

Hoje, quase uma década depois da tragédia em que quase 3 mil pessoas morreram, resolvi criar coragem para remexer  nas gavetas da minha memória e registrar aqui algumas das emoções que tomaram conta de mim naqueles dias de setembro. Apesar de não ter sido atingida pessoalmente pelos ataques e, nem de longe, querer comparar minhas angústias pessoais com o sofrimento brutal de milhares de outras pessoas que perderam a vida ou entes queridos, de alguma forma também participei do sofrimento coletivo daquela ilha.

Foi uma época particularmente difícil para mim, pois me havia mudado para Nova York apenas seis meses antes. Ainda não tinha tido tempo, portanto, de fazer muitos amigos e me sentia fora do ninho, à procura do meu espaço. Nunca imaginei que algum dia viveria em lugar tão marcado por tanta violência e destruição. Posso dizer que, durante os sete anos seguintes, enquanto vivi em Manhattan, não houve um dia sequer sem que a lembrança daquela terça-feira não sobrevoasse a minha cabeça, como uma nuvem ameaçadora.

Deixo que algumas lembranças me visitem, com a leveza que só a distância no tempo me é capaz de dar:

1) A primeira lembrança que me vem é a do imenso silêncio que se abateu sobre a cidade, absolutamente surreal. De repente, tudo parou: os carros, as linhas de metrô, os ônibus, os aviões. Da janela do meu apartamento, no vigésimo-segundo andar, vi ao longo da Segunda Avenida uma fila interminável de homens e mulheres caminhando no mesmo ritmo, em silêncio e em ordem, todos na mesma direção - para o lado oposto do sul da ilha, onde os ataques haviam ocorrido. Muitos deles estavam com as roupas inteiramente recobertas de pó branco e pareciam robotizados. Escolas, lojas, restaurantes, teatros, bibliotecas, museus -  todos fecharam as portas.  Os serviços de Internet foram interrompidos. Até mesmo os telefones pararam de tocar, com as linhas em pane. Só consegui me comunicar com o Brasil dois dias depois dos ataques, para avisar que estava bem. No meio de tanto silêncio, apenas duas exceções sonoras: a voz dos locutores de plantão em todas as telas de TV - sempre compungida e solene, quase monocórdia - e as sirenes das ambulâncias e do Corpo de Bombeiros - infrequentes, dilacerantes.

2) Todos os túneis e pontes que ligam Manhattan ao continente foram rápida e sumariamente interditados. Ninguém podia mais entrar nem sair da ilha. Além disso, não havia data prevista para a reconexão. Todos estávamos, portanto, literalmente ilhados. Lembro-me de ter ouvido uma notícia que conseguiu me deixar ainda mais nervosa: naquele primeiro dia, a venda de botes infláveis foi tão alta, que os estoques se esgotaram em poucos minutos. Meu Deus, será que ouvi direito a notícia? Botes infláveis, for God's sake! Este fato só confirmou minha desconfiança de que menos informação quase sempre é melhor que informação demais.

3) Passados os primeiros momentos de horror, a muitos de nós, indefesos moradores da Grande Maçã, sobreveio o medo - na verdade, quase a certeza - de que outro ataque terrorista à cidade estaria prestes a ocorrer. Para nós, naqueles dias tudo era possível: contaminação química da água, bomba nuclear, guerra biológica com bacilos de anthrax, ataques suicidas de homens-bomba... Logo percebi que só tínhamos dois caminhos a seguir: simplesmente entrar em pânico ou, então, esquecer o medo e cuidar da vida. Optei pela segunda alternativa. Preparei uma listinha de itens essenciais para um kit-sobrevivência, no mesmo padrão da que eu preparava todos os anos quando vivia na Flórida, no início da temporada de furacões: algumas garrafas de água potável, pacotes de biscoitos, pilhas, velas, fósforos, enlatados. Dentro do supermercado em frente ao meu prédio, encontrei muitos vizinhos que tiveram a mesma ideia que eu. Mas, ao contrário do que normalmente acontecia quando cruzávamos um com o outro na rua e fingíamos que não nos tínhamos visto, naqueles primeiros dias depois dos ataques todos buscávamos um sorriso amigo, uma palavra de cortesia, uma troca de informações sobre as últimas notícias veiculadas pela TV. Na fila do caixa, todos agíamos como velhos conhecidos, conversando amavelmente uns com os outros. Foi muito curioso observar esta mudança de atitude entre os novaiorquinos logo após os ataques. Pouco tempo depois, entretanto, voltamos todos ao "normal".

4) Nos dias que se seguiram ao ataque, era quase impossível concentrar minha atenção no que quer que fosse. Não podia sair de casa, nem conversar com ninguém. Para manter um pouco de sanidade mental nos primeiros dias, tive uma ideia produtiva. Desliguei a televisão e resolvi me lançar num projeto antigo, para o qual nunca encontrava o tempo necessário: a digitalização das fotografias de meus dois filhos quando crianças. Arquivadas naqueles álbuns de plástico que todos nós achávamos o máximo da modernidade nos anos 70-80, as fotos já estavam perdendo a cor. Graças a essa atividade simples que me manteve muitas horas ocupada, consegui criar momentos de tranquilidade no meio do caos, ao mesmo tempo em que recuperava as fotos de um tempo despreocupado e feliz, no meu Brasil tão distante.

5) "Alguém viu minha filhinha?" "Por favor, me ajude a encontrar meu marido!" "Eles estavam no Financial Center no dia 11 - quem souber alguma notícia deles, favor ligar para este telefone." Dia após dia, as mensagens afixadas nos postes de toda a cidade se multiplicavam aos milhares, quase sempre acompanhadas por fotos de pessoas sorridentes, a maioria jovens, cheias de vida. Impossível passar por elas sem um momento de reflexão ou uma pequena oração silenciosa.

6) No primeiro domingo após a tragédia, todas as igrejas de Manhattan ficaram abarrotadas de fiéis, entre crentes e descrentes. Jamais vou esquecer a imagem dos seis bombeiros que naquele domingo levaram o pão e o vinho até o altar da igreja de Santo Inácio, na Park Avenue. No meio do cortejo, aqueles homens fortes e vigorosos de repente se despiram da pose de super-herois e se deixaram cair num choro convulsivo, como crianças desamparadas. Não houve quem não chorasse ali junto com eles.

7) Na mesma semana do ataque às torres, acordei sobressaltada às 2 horas da manhã, com um solavanco que fez tremer toda a cama, provocando um barulho seco, que parecia vir das entranhas da terra. Pensei apavorada: "Explodiram uma bomba dentro do metrô! Eu bem que sabia que isso ia acontecer, eu sabia!" Fiquei um bom tempo ali deitada, imóvel, sem coragem de me levantar da cama, à espera de sirenes e gritos - que felizmente nunca vieram -, até ser vencida pelo sono. No dia seguinte, li no noticiário local: precisamente às 2 da madrugada, registrou-se em Manhattan um abalo sísmico de um grau de magnitude na escala Richter. OK, o tremor foi mesmo pequeno, mas  o epicentro foi logo ali, dentro do Central Park, a poucas quadras do meu edifício. Precisava uma coisa dessas? Nenhum morador de Manhattan merecia um susto extra naquela semana!

8) Demorei mais de três meses para ter coragem de voltar a andar de metrô na cidade. Além do medo de  encarar uma bomba no subterrâneo, outra coisa que me incomodava muito eram os excessos do aparato policial, com seus gritos e apitos. O policiamento embaixo da terra era tão ostensivo que deixava qualquer passageiro intimidado e receoso de levar voz de prisão, sem qualquer motivo aparente. Para não ter de enfrentar grosserias desse tipo no meu cotidiano, passei a utilizar apenas ônibus e táxis. Um pensamento ridículo me consolava e divertia ao mesmo tempo: se eu tivesse que ser vítima de um ataque a bomba, que não fosse embaixo da terra. Por cima dela, eu pelo menos teria condições de identificar direitinho o local em que iria morrer!

Quase um mês depois do atentado, recebemos um telefonema de nossos dois filhos, já adultos, avisando que estariam vindo passar o próximo fim de semana conosco.  Naquela época os dois estudavam em Boston, cidade a quatro horas de viagem de trem de Nova York. Fiquei sem saber o que lhes dizer no telefone. Parte de mim queria muito estar com eles, poder abraçá-los depois de tantos dias emocionalmente difíceis para todos nós. Mas outra parte sentia medo de sabê-los viajando pelas estradas de ferro da  região, alvo fácil para atentados terroristas e que, por isso mesmo, eram meticulosamente monitoradas pela polícia naqueles dias.

Ainda bem que nossos filhos crescem e, sem que a gente se dê conta disso, um belo dia sentem-se perfeitamente capazes de tomar suas próprias decisões sem nos consultar.

Quando mais precisávamos de seu abraço apertado, aqueles dois jovens adultos apareceram à nossa porta, sorridentes, bonitos, saudáveis. Foi um fim de semana feliz, no aconchego seguro do nosso apartamento em Manhattan.



segunda-feira, 11 de julho de 2011

Meu banquete literário na Flip

Cheguei ontem da Festa Literária Internacional de Paraty com a cabeça fervilhando de ideias e emoções. Estes cinco dias de palestras literárias, encontros com autores daqui e de fora, reencontros com amigos queridos, música, comes e bebes, teatro, dança e cultura popular todos os anos me alimentam o cérebro, fortalecem o espírito e, invariavelmente, amolecem meu coração.

Para mim, a Flip começa muitos meses antes, com a reserva de um lugar para dormir e a leitura de tudo o que sai nos jornais sobre possíveis convidados e o autor homenageado do ano. Por causa da Flip, o desvairado do Oswald de Andrade, que eu não lia desde os tempos do pré-vestibular, voltou às minhas prateleiras e, na honrosa condição de homenageado de 2011, quase me mata de rir com suas tiradas impossivelmente pós-modernas. Delícia antropofágica.

Pessoalmente, vivenciei muitos momentos mágicos nesta Flip, que mais do que compensaram as quatro horas de estrada sacolejante que separam o Rio de Janeiro do centro histórico de Paraty. Quero destacar apenas cinco dos que mais me emocionaram e que saboreei deliciosamente, como se fossem pratos de um grande banquete. Listo-os aqui em ordem caótica, sem qualquer intenção de comparar um a outro, como convém ao ambiente saudavelmente macunaímico deste ano:

Primeiro Prato - A palestra do professor Antonio Cândido, que abriu a Flip na  noite de quarta-feira - O auditório inteiro se levantou para aplaudir de pé o maior crítico literário do Brasil quando, com a autoridade dos seus 92 anos de idade e robustez intelectual, ele entrou no auditório ainda em penumbra, de mansinho, talvez imaginando que a gente não iria se dar conta de sua chegada. Foram aplausos longos, calorosos, irrecusáveis. Que privilégio estar ali, diante daquele cidadão elegante nas palavras e na postura, do tipo de pessoas que já não se fazem mais, que tinha vindo nos contar sobre o homem Oswald de Andrade, que ele havia conhecido na condição de seu grande amigo pessoal. Não há preço de ingresso que pague este banquete.

Segundo Prato - Os shows de música da  Maria Martha - Qualquer um que passasse em frente à janela da casa da Folha de São Paulo durante o show desta cantora e compositora paulista que mora há anos em Paraty, dificilmente deixava de parar para escutá-la. Muitos, como eu, não resistiam e entravam na casa só para ouvi-la um pouquinho mais. E acabavam ficando um tempão, maravilhados com o timbre delicado de sua voz, a simplicidade sofisticada de seu violão e o belo repertório cuidadosamente colhido entre os melhores nomes da música latinoamericana. Beleza pura.

Terceiro Prato - Meu encontro pessoal com o historiador, escritor e editor mexicano Enrique Krauze - Dou pouca importância a ter livro autografado pelo autor, mas desta vez dei uma de tiete e enfrentei a fila dos autógrafos só para apertar a mão do escritor que me alargou os horizontes como poucos. Li seu Historia de México quando vivia naquele país e acho que foi essa leitura que afinal me fez desistir de mudar os mexicanos, aceitá-los como são e amá-los precisamente por serem maravilhosamente diferentes de mim. Que alegria cumprimentar Enrique Krauze em pessoa, depois de ouvi-lo falar com tanta lucidez política e a precisão elegante que caracteriza o seu uso da linguagem. Órale, maestro! Viva México!


Quarto Prato - Meu abraço num mamulengo de rua - As noites da Flip são tão mágicas como as ilustrações dos contos de histórias infantis. Há poetas declamando pelas esquinas, músicos tocando instrumentos medievais, indígenas vendendo artesanato, procissões religiosas, rodas de maracatu. Quase todos os que participam desses eventos são moradores de Paraty mesmo. E foi assim, rodopiando entre um evento de rua e outro, que caí nos braços de um mamulengo de rua. Upa! Que abraço gostoso!

Quinto Prato - A carta de agradecimento ao Brasil do escritor português valter hugo mãe (escrito assim mesmo, em letras minúsculas) - Antes da Flip, confesso que nunca tinha ouvido falar nesse autor de quarenta anos de idade, que o José Saramago certa vez chamou de "tsunami literário" da língua portuguesa. Nem sequer tinha comprado ingresso para assistir ao debate de sua mesa na Flip, mas na última hora me baixou uma curiosidade repentina de dar uma olhadinha nele. Resolvi, então, me juntar ao pessoal que fica do lado de fora da tenda do telão, pegando "carona" nas palestras sem pagar. Bendita intuição! Foi um dos momentos mais emocionantes de toda a Festa para mim. Junto com quase todos os que estavam ali ao meu lado, chorei  com aquela fala mansa, bonita e singela. Com as lágrimas, me sobrveio também um imenso sentimento de proximidade com Portugal. E com grande ternura, pensei: "valter hugo mãe - meu irmãozinho".





terça-feira, 24 de maio de 2011

Myanmar, Batman e o mapa do crioulo doido

Cheia de otimismo, resolvo ir ao correio para enviar um livro de presente a uma amiga que mora na cidade de Yangon, antiga capital de Myanmar.

- Myanmar? Onde fica esse país? - pergunta-me o rapaz, educado e solícito, que me atende no balcão. Com os olhos pregados na tela do terminal de computador, o rapaz procura, intrigadíssimo, o nome daquele lugar estranho, no meio da lista dos 192 países existentes no mundo.
Antes que eu tenha tempo de lhe responder qualquer coisa, o rapaz encontra na lista o nome de Myanmar e exclama, animado:
- Já sei! É perto do país do Batman!
- País do Batman?!
- É! Acho que é o Batman, sim... Ou será aquele outro morcego?
- Que morcego?...
De repente começo a duvidar da sanidade mental daquele funcionário público. Penso que talvez não tenha sido uma boa ideia confiar meu precioso livro aos cuidados do correio nacional.
O rapaz continua, em tom decisivo:
- Ah! Agora me lembro, não é o Batman: é aquele outro, que mora na Tunísia!
- Tunísia?! - minha voz soa como um eco, já perdido naquele mapa geográfico surreal.
- Não... não é Tunísia que eu quero dizer... é aquele outro lugar que também começa com "T"... aquele onde vive o Conde Drácula!
- Seria a...Transilvânia?... - arrisco o palpite, já embarcando na loucura daquele diálogo.
- É, isso mesmo! Myanmar não fica perto dali?
- Bem, mais ou menos. A Transilvânia fica na Europa e Myanmar fica na Ásia...
- Ah, sei...
- Você tem certeza de que esse livro vai chegar na casa da minha amiga?
- Tenho. Pode ficar tranquila.
- Posso mesmo?
- Sessenta reais, por favor.

Suspiro fundo e pago a conta. Tenho a impressão de que só mesmo o Batman será capaz de fazer meu livro chegar ao seu destino final.

PS: Juro que esse diálogo não foi inventado. Aconteceu ontem à tarde, na agência dos correios da Praça N.Sra. da Paz, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro.

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19/julho/2011

Mal posso acreditar: menos de um mês após minha ida ao correio, o livro despachado no Rio de Janeiro chegou ao seu destino final em Yangon, Myanmar. Minha amiga Myo Nwe ficou feliz com o presente surpresa e me enviou esta simpática mensagem por e-mail:   


 Yestarday I arrived back Yangon, I received your book and I want to say very very thank you for your photo book , but I know like that saying is not enough for my feeling. When I saw this book I want to cry and I miss you very very much. Nothing can show my feeling. Really I want to talk only one word is" I love you very very much and thank you very very much Ma Thit Sar and Ko Tun."

Como é bom ter amigos por esse mundo afora!


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Esquisitices de Myanmar-4

Viagem a Myanmar - parte 10 (última da série)
E finalmente termina aqui a lista das treze "esquisitices" da cultura de Myanmar que mais me chamaram a atenção nesta viagem.


10)  Remo com pé


Na região do lago Inle (sudeste de Myanmar), os pescadores desenvolveram um tipo de remada único no mundo: eles utilizam um pé para impulsionar o "remo" (na verdade, apenas um simples tronco de madeira), equilibrando-se na canoa sob  a outra perna. O lago Inle é extenso, mas pouco profundo, o que facilita bastante esta forma sui generis de propulsão de barco.



11)  Mulheres Padaung

As mulheres de pescoço comprido da tribo Padaung são uma atração turística deprimente da região do Lago Inle. Tirei esta foto com uma mistura de fascinação, pena e vergonha de mim mesma, por contribuir de alguma forma para a exploração cruel dessas mulheres. Por outro lado, penso que a divulgação dessa imagem talvez possa contribuir para a conscientização das pessoas para combater essa prática tão esquisita quanto abominável.Tomara!
Além de posarem para fotos,  as mulheres Padaung trabalham também como tecelãs num dos ateliês que visitei à beira do lago. Os anéis de metal começam a ser colocados no pescoço das meninas a partir dos 5 ou 6 anos de idade. À medida que elas crescem, mais anéis são acrescentados, esticando cada vez mais o comprimento do pescoço, até o número máximo de 24 anéis. Tive a oportunidade de segurar nas mãos um conjunto desses anéis e posso atestar: são pesadíssimos. Fico profundamente triste só de pensar nas meninas Padaung que jamais poderão praticar um esporte ou dançar com a leveza de uma criança "normal". Resta-me o consolo de saber que o número das mulheres de "pescoço comprido" tem diminuído progressivamente e que hoje existem menos de 180 delas no mundo. Pelo menos foi o que me garantiram lá.

12) Filas colossais para comprar gasolina

A primeira vez que vi um amontoado de pessoas ao lado de motocicletas paradas, pacientemente perfiladas em filas sêxtuplas, dando voltas em quarteirões, fiquei sem entender o que estava acontecendo. Para quem vive em Myanmar, esta é uma visão corriqueira, parte integrante da vida cotidiana. Trata-se da fila para comprar gasolina, cuja comercialização é controlada pelo governo. Aqueles que tem mais dinheiro, contratam vários motociclistas desocupados (homens, mulheres ou até crianças) para ficarem horas na fila e encherem o tanque de suas motos com o precioso líquido, que em seguida lhes é vendido ao preço tabelado. Para os que não dispõem desses "profissionais de fazer fila" e precisam encher o tanque do carro, a saída é comprar gasolina no mercado negro, que funciona abertamente pelas ruas e estradas de todo o país. Paga-se mais caro, mas em compensação obtém-se o luxo de encher o tanque de uma só vez, sem perder tempo nas filas intermináveis.

13) Longyi

Finalmente, a "esquisitice" cultural de Myanmar de que eu mais gosto: o uso do longyi por quase todos os homens e mulheres. O traje tradicional dos birmaneses é uma saia comprida, feita em tecido de algodão. O modelo é simples, igual para todo o mundo: costuram-se as extremidades do corte do tecido, faz-se um cós... e é só. Está pronto o longyi. Para vesti-lo, os homens amarram o pano em volta da cintura com um nó simples, atado bem na frente do corpo. Já as mulheres, em vez de fazerem o nó, empurram uma ponta do pano para dentro do cós, em um dos lados da cintura. 

Tive a sorte de mandar fazer um longyi para mim nesta viagem. Se não consegui passar por uma birmanesa típica, pelo menos me senti maravilhosamente feminina, rodeando minha nova saia para lá e para cá, tentando imitar a malemolência natural e sedutora das mulheres de Myanmar.





PS: Aqui chego ao final da série de textos sobre Myanmar. Desconfio que meus amigos já estão cansados de me ouvir falar sobre esta cultura fascinante. Juro que só volto a tocar no assunto depois da próxima viagem para lá!




Esquisitices de Myanmar-3

Viagem a Myanmar - parte 9
"Esquisito" é pouco para a gente definir certos aspectos da cultura de Myanmar, mas é justamente isso que a torna tão fascinante. Aqui vão mais três "esquisitices" da série de treze que selecionei.


7)  Cama pública


De vez em quando, num barzinho de beira de estrada ou à porta de um pequeno restaurante nos arredores de alguma cidade, a gente vê umas camas feitas de esteira, com travesseiro e tudo, à espera de viajantes cansados que queiram tirar uma sonequinha antes de prosseguir viagem. Não há nenhum cartaz explicativo, ninguém tomando conta nem cobrando ingresso. Todo o mundo em Myanmar já sabe que essas camas são públicas e podem ser utilizadas por quem quer que seja - basta que esteja a fim de dar uma esticada no corpo ali mesmo. Muitas vezes as camas são duplas (como a da foto) e duas pessoas que nunca se viram na vida podem se deitar nelas e dormir lado a lado, sem o menor constrangimento. Tudo muito natural!

8)  Chá para os saudáveis e café para os enfermos

Como em quase todos os países asiáticos, o chá é, de longe, a bebida mais consumida pela população de Myanmar. O café também é apreciado por muitos, mas como se trata de um excitante natural pelo seu alto teor de cafeína, em geral as pessoas procuram tomar essa bebida quando se sentem enfraquecidas ou doentes. Como resultado, em Myanmar as pessoas associam o aroma do café a doenças e o do chá a situações saudáveis - exatamente o contrário do que fazemos daqui deste lado do mundo.

9)  Ouro com banana


"Bem vindos à Terra do Ouro!", exclamam os cartazes nos portões de chegada dos aeroportos de Myanmar. A expressão descreve bem a imagem impactante que a gente tem do país desde os primeiros momentos após a aterrisagem: é ouro brilhando para todos os lados, na superfície de uma infinidade de templos, pagodes e estupas. Grande produtor de ouro, Myanmar nunca economizou seu uso.  Tão incrível quanto a ubiquidade do nobre metal é a atitude blasée da população diante de tanto brilho e riqueza. Além de ser usado na arquitetura e na decoração, o ouro também é tido como panacéia infalível para os males que afetam o corpo humano. Esfregar folha de ouro na pele, por exemplo, aumenta a circulação e estimula a energia vital. Há mães que acrescentam uma pequena quantidade de ouro no alimento dos filhos para fortificá-los. Nos dias de 
muito calor, tem até gente que come ouro com banana para se "refrescar".


(Continua no próximo blog)

Esquisitices de Myanmar-2

Viagem a Myanmar - parte 8
Aqui vão mais três "esquisitices" da cultura de Myanmar que me impressionaram bastante nesta viagem:

4)  Câmbio de dólar? Só se as notas forem novinhas em folha!

Cometi a imprudência de não comprar kyats (pronuncia-se "tchats") antes de chegar a Myanmar. Quase estrago minha viagem por causa da falta de dinheiro local no bolso. Mesmo tendo lido todas as dicas de viajantes que me caíam às mãos antes da viagem, dois detalhes de importância vital me passaram completamente despercebidos. Primeiro: em Myanmar não existem caixas eletrônicos (nenhum mesmo). Segundo: lá não existem cartões de crédito ou débito (idem).
Felizmente eu tinha levado comigo alguns dólares para caso de emergência ou imprevisto. Assim que desembarquei do avião em Yangon e me dei conta da minha situação de quase total mendicância em moeda local, fui direto a uma casa de câmbio, acreditando que sairia de lá em questão de minutos com o problema resolvido. Ledo engano. Cada nota de dólar que eu apresentava no balcão era submetida ao escrutínio desconfiado de dois ou três funcionários da casa. Para meu desespero, ao final do exame de cada cédula, quase sempre vinha o veredicto absurdo: "Não podemos trocar esta nota porque ela não está limpa". "Como assim, não está limpa?" E os funcionários apontavam para a marca da dobra no meio da cédula ou um sinal qualquer que indicasse que já havia circulado no mercado. Era difícil acreditar, mas eles só aceitariam meus dólares se as cédulas estivessem com aspecto de novas em folha.  Logo percebi que qualquer tentativa de diálogo seria vã.  Em Myanmar o câmbio era feito dessa forma há décadas e um funcionário quis saber se eu não havia sido informada disso antes de viajar. Tive vontade de responder: "Não, meu senhor. E, mesmo se alguém tivesse me alertado sobre isso, eu jamais acreditaria." Mas achei prudente não comentar nada.  Diante da toda-poderosa burocracia local, comecei a contar tristemente os kyats que me couberam em troca das poucas cédulas de dólar "limpas" que havia trazido na bolsa. Ainda bem que os hotéis e os passeios já estavam pagos. Com o parco dinheirinho de que dispunha, uma coisa era certa: nas duas semanas seguintes teria que limitar meus gastos ao absolutamente essencial. Mas tudo bem. Eu estava tão feliz com esta viagem sonhada há tantos anos, que nada - nem mesmo a falta de dinheiro - poderia atrapalhar meu entusiasmo.

5) Três viradas de ano novo em um só


Os birmaneses celebram três passagens de ano novo diferentes. O primeiro réveillon segue o calendário gregoriano utilizado por quase todo o mundo ocidental (inclusive nós, aqui no Brasil), com base na data do nascimento de Jesus Cristo. Mas é o segundo réveillon que agita todo o país, em meados de abril: é o Thingyan, Festival das Águas. Durante dez dias seguidos, as pessoas vão às ruas para jogar água umas nas outras, numa grande farra nacional. Esta festa celebra a virada do calendário "lunisolar" de Myanmar, uma complicada visão astronômica, que leva em conta simultaneamente as fases da lua e o movimento dos planetas em torno do sol. Por este calendário, no último dia 18 de abril Myanmar entrou no ano de 1373. A terceira virada de ano novo é a do calendário budista, que acontece no período correspondente ao nosso mês de maio. Neste calendário, a contagem dos anos tem início no ano da morte de Buda (543 a.C.). Os birmaneses acabam de celebrar, portanto, a chegada do ano budista de 2555. Assim sendo, as folhinhas em Myanmar registram a passagem do tempo em três diferentes contagens de anos: 1373, 2011 e 2555. Simples, não?

6) Mãos inglesa e americana na mesma via ao mesmo tempo
Nos tempos coloniais, a mão das ruas e estradas seguia o sistema inglês - ou seja, os veículos tinham a direção no lado direito e trafegavam no lado esquerdo da pista. Recentemente, entretanto, o governo de Myanmar resolveu mudar o sistema da mão inglesa para a mão americana,  para distanciar-se ainda mais do modelo colonizador. Como esta mudança ocorreu por decreto e passou a vigorar da noite para o dia, não houve tempo hábil para alterar a frota de veículos do país e adaptá-los ao novo sistema. Resultado: carros, ônibus e caminhões com a direção do lado direito (como os veículos ingleses) continuaram a trafegar pelas ruas e estradas (agora com mão americana) como se aquela mudança repentina fosse a coisa mais natural do mundo. Só que havia uma dificuldade adicional para os motoristas: fazer ultrapassagens sem qualquer visibilidade da pista no sentido contrário. Tornou-se, então, essencial a presença do co-piloto para orientar o motorista na hora da ultrapassagem, para se evitarem colisões frontais: "Não, agora não... espera só um pouquinho...", grita o co-piloto para o motorista, com metade do corpo para fora da janela. "Vai... peraí... agora dá! Vai rápido!"

Como se toda esta loucura não bastasse, os novos carros importados são agora os que tem a direção do lado esquerdo, apropriados ao sistema da mão americana.

Ou seja, em Myanmar os veículos convivem democraticamente com todas as regras do mundo ao mesmo tempo - contando sempre, é claro, com a proteção do Buda todo poderoso.

(Continua no próximo blog)


sábado, 7 de maio de 2011

Esquisitices de Myanmar-1

Viagem a Myanmar - parte 7
Myanmar tem uma quantidade enorme de esquisitices culturais que fascinam e, ao mesmo tempo, intrigam a mente de qualquer visitante estrangeiro. Fiz uma lista das treze esquisitices que mais me chamaram a atenção.

1) Tanaka


Para o visitante estrangeiro, talvez a mais visível de todas seja a pasta de tanaka, feita com casca de árvore e água, que os birmaneses aplicam na face como um tipo de maquiagem. Quase toda a população - principalmente mulheres e crianças - espalha essa pasta amarelada pelo rosto, criando desenhos deliberadamente destacados da cor da pele, sem se preocuparem muito com  a perfeição dos traços.  A ideia é deixar tudo meio borrado mesmo. A pasta é feita em casa, bem na hora de ser usada.
Sobre uma base redonda de pedra, eles esfregam a casca da árvore até obterem um pó bem fino, parecido com talco. Aos poucos, eles acrecentam água ao pó, até formarem uma pasta, que espalham imediatamente pelo rosto com a ponta dos dedos. Isso tem que ser feito com rapidez, porque a pasta seca em dois tempos. Em geral, a maquiagem consiste de duas grandes bolotas nas bochechas, um traço ao longo do nariz e uma camada na testa, com pequenas variações.
O efeito criado é desconcertantemente teatral, como um tipo de máscara bufa. No começo a gente fica meio atordoada, sem saber como interpretar aquele adorno facial. Seria bonito? Feio? Cômico? Divertido? Ou simplesmente diferente? Mas são tantos os rostos pintados à nossa volta, que logo nos acostumamos com eles e nos deixamos cativar pela beleza dos sorrisos e olhares que chegam até nós através da pasta amarela.


2) Nomes próprios só de pessoas, não de famílias


Não existem nomes de família em Myanmar, apenas nomes próprios de indivíduos.  Pais, filhos, casais, irmãos ou avós possuem nomes completamente diferentes uns dos outros. Por isso é impossível a gente identificar pelos nomes os que pertencem à mesma família.  Os nomes próprios podem ser composto de dois, três ou mais nomes, sendo que o primeiro deles indica o dia da semana em que aquela pessoa nasceu. Por exemplo, todos sabem que alguém cujo nome comece com "Aung" nasceu num domingo. Se o nome  for "Thin", é porque nasceu numa sexta-feira. E assim por diante. Na cultura de Myanmar, em que a astrologia é fator determinante em quase todas as tomadas de decisão, esta informação é preciosíssima.

3) Oito dias na semana

Em Myanmar, a semana tem oito dias, em vez de sete. Entretanto, o tempo transcorrido entre o primeiro e o último dia é exatamente o mesmo que o do nosso calendário. É que o dia que fica no meio da semana (correspondente à nossa quarta-feira) se subdivide em duas partes distintas: a que vem antes do meio-dia (quarta-feira de manhã) e a que vem depois do meio-dia (quarta-feira de tarde). Cada dia da semana corresponde a um animal diferente, com suas características e tendências astrológicas. O animal das duas "quartas-feiras" é o elefante, representado na parte da manhã com as presas de marfim e, na parte da tarde, já sem elas.


(Continua no próximo blog)


quarta-feira, 4 de maio de 2011

O teatro perseguido dos Moustache Brothers

Viagem a Myanmar - parte 6


- Assim que eu chegar a Mandalay quero assistir a um teatro de marionetes, daqueles bem tradicionais! - exclamei animada, achando-me muito esperta com a programação cultural que havia preparado para os próximos dias da viagem pelo interior de Myanmar.


- Se eu fosse você, não ficaria tão entusiasmada - disse minha amiga birmanesa, jogando água fria nos meus planos de viagem. - Na verdade, esses teatrinhos de marionetes são feitos para agradar turistas estrangeiros e não tem tanta graça assim. Muito mais empolgante é o show de comédia política dos Moustache Brothers. Este, sim, você tem que ver de qualquer maneira quando estiver em Mandalay!




Lembrei-me de ter lido alguns dias antes um artigo sobre esse pequeno grupo de comediantes.  O nome do grupo ("Irmãos Bigode") é uma alusão aos vistosos bigodes ostentados pelos três integrantes principais. Eles tem sido duramente perseguidos pelo governo por causa das críticas que fazem em seus shows contra a ditadura militar que controla o país desde 1962.


Minha amiga prosseguiu:


- Mas tenha muito cuidado na hora de contratar um táxi para ir a este show, porque nem todos os motoristas tem coragem de parar na porta da casa deles, com medo de serem perseguidos pelo governo e perderem a licença para trabalhar. Peça ao motorista para descer do carro a uma quadra dali. É mais prudente e seguro para todos.


Nem preciso dizer que, com uma introdução dessas, eu já estava mais do que convencida: a primeira coisa que faria quando chegasse a Mandalay seria assistir ao show dos Moustache Brothers. Os marionetes poderiam esperar.


E foi assim que, toda empolgada e com espírito combativo em prol da liberdade de expressão, saí à procura de um taxista destemido pelas ruas de Mandalay. Ao contrário do que esperava, foi bem fácil encontrar um motorista discreto e disposto a me levar até a porta do teatro, sem necessidade de negociações. 


O que me deixou  preocupada foi o tamanho absurdamente diminuto do táxi, que mais parecia um daqueles carrinhos bate-bate de parque de diversões. Era provavelmente um prenúncio de que aquela noite seria  divertida, mas sem as proporções épicas que eu havia imaginado. 



O "teatro" dos Moustache Brothers fica na garagem de uma casa modesta, num bairro pacato de Mandalay, onde vive parte da família dos comediantes. O ambiente é esteticamente confuso, mas acolhedor em sua simplicidade. O palco é um estrado ao rés do chão, sem cortinas, contra uma parede decorada com marionetes e cheia de placas penduradas, com frases soltas em inglês: "Most Wanted" ("Os Mais Procurados"), "Black List" ("Lista Negra"), "Three Times Arrested" ("Três Vezes Preso"), "Under Surveillance" ("Sob vigilância"), "CIA", "KGB". Essas placas são usadas durante o show pelo apresentador Lu Maw (um dos três Moustache Brothers) para sublinhar a importância de alguma ideia ou piada contada por ele. 




Na entrada da casa, cadeiras de plástico empilhadas umas sobre as outras aguardam a chegada dos turistas, cujo número é sempre imprevisível, pois o grupo não faz reservas nem tem permissão do governo para cobrar ingressos. Antes do início do show, somos convidados a fazer uma pequena doação em dinheiro, com o que todos concordamos de boa vontade. Sabemos que esta é a única fonte de renda daquela família de treze artistas, que foi proibida pelo governo de Myanmar de trabalhar no que fazia há três gerações: o a-nyeint pwe, uma forma tradicional de teatro saltimbanco, em que os comediantes cantam, dançam e fazem rir, viajando pelas pequenas cidades e povoados do interior.





A gota dágua que fez os Moustache Brothers entrarem para a lista negra do governo foi um show que fizeram em 1996 na residência da líder oposicionista e Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, onde não faltaram piadas sobre a ditadura militar. 


"Venham para Myanmar, mas por favor não roubem ninguém aqui", dizia uma dessas piadas. "´É que o governo não gosta de competição." O governo, obviamente, não achou a menor graça e despachou para a prisão o líder do grupo, Par Par Lay, condenado a sete anos de trabalhos forçados. Mais tarde, outro membro do grupo, Lu Zaw, também foi preso. Os protestos da comunidade internacional logo começaram a surgir, mas foi somente em 2002 que os comediantes foram liberados. 




Durante todo esse tempo, coube ao único dos três integrantes do grupo que não havia sido preso, Lu Maw, a dura tarefa de reinventar o trabalho dos Moustache Brothers para garantir o sustento da família. E o show, apesar de todas as dificuldades, continuou com a participação das esposas e outros familiares, com sketches de dança, improviso, comédia e sátira política, podendo ser visto apenas por turistas estrangeiros. Na garagem dos Moustache Brothers, cidadãos de Myanmar não entram, sob pena de perderem seus empregos ou serem enviados à prisão.




Confesso que, em termos de conteúdo, esperava um pouco mais deste show. Falta sutileza no humor, sobram bordões previsíveis. Os personagens são caricatos e seus sorrisos, forçados. Mas, também, pudera: há pelo menos quinze anos, aquele grupo de saltimbancos repete todas as noites os mesmos trejeitos e piadas, em troca de  aplausos incertos, doações magras e um pouco de esperança de que sua luta pela liberdade seja fortalecida pela cumplicidade do mundo lá fora.


Com todo seu cansaço e bigodes tristes, o grupo nos toca profundamente o coração. Não por causa do show em si, mas pelo fato extraordinário desses poucos homens e mulheres representarem a única voz com coragem de se opor à opressão da ditadura militar daquele país, a despeito de todos os riscos e do sofrimento por que já passaram.