segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Cicatrizes, amor e fé: uma batalha pela sobrevivência

Um trágico acidente de helicóptero trouxe consequências inimagináveis para a vida do jovem empresário Luiz Octavio Themudo, então com 26 anos de idade. No dia 6 de novembro de 1971, uma explosão destroçou o helicóptero em que ele sobrevoava a cidade de Santiago do Chile para tirar algumas fotos aéreas de uma feira internacional onde o Brasil tinha um stand montado por sua empresa de eventos. Todos os sete passageiros que estavam a bordo - inclusive o piloto, um diplomata brasileiro, um fotógrafo e técnicos de sua equipe de filmagem - despencaram de uma altura correspondente a um edifício de 33 andares, em queda livre. Todos morreram, menos ele.

Sua sobrevivência foi quase um milagre, contrariando todas as previsões médicas, que o davam como praticamente morto. "Tive queimaduras em 62% da superfície do corpo, que me tornaram irreconhecível, com a face transfigurada. E até perdi a conta da quantidade de ossos que quebrei", disse Themudo. "Meu caso era tão grave, que os médicos que vinham me examinar ficavam me olhando, sem saber por onde começar. Chegaram a afirmar que minhas chances de sobrevivência não passavam de 3,5%."

Caso sobrevivesse, os médicos diziam ainda que ele teria que amputar o braço direito e que ficaria cego de um olho. Os prognósticos não poderiam ser menos animadores. Estava tão fragilizado que hoje não tem dúvidas: para morrer, bastava concordar. Dia após dia, nos 45 dias que se seguiram ao acidente, os médicos garantiam que daquela noite ele não passaria.


"Mas os médicos estavam enganados e aqui estou eu, aos 69 anos de idade, aprendendo a remar nesta nossa Lagoa maravilhosa, com meus dois braços e dois olhos intactos",  relembra Themudo com um sorriso maroto no rosto, ainda marcado pelas cicatrizes do acidente.

Themudo é um dos colegas mais assíduos e animados da escolinha de remo do Botafogo, na Lagoa Rodrigo de Freitas. De manhã cedo, ele sempre traz sua máquina para fotografar cenas do cotidiano dos remadores e pequenas confraternizações da turma, sem deixar de prestigiar também as grandes vitórias do clube - como aconteceu no dia 20 de outubro passado, quando o Botafogo conquistou o título de campeão estadual, depois de um jejum de 49 anos.




Após a queda do helicóptero, era como se Themudo tivesse nascido de novo. Tanto assim que, desde aquele ano, todo mês de novembro ele comemora seu aniversário duas vezes: uma no dia do nascimento e outra no dia do acidente.

O processo de recuperação foi uma batalha longa e dolorosa. Primeiro, Themudo permaneceu três meses hospitalizado no Chile, que naquela época, por sorte, era o único país latinoamericano que possuía um hospital especializado em atendimento a queimados. Quando finalmente pôde ser transportado de volta ao Brasil, ficou mais dez meses internado para uma série interminável de procedimentos cirúrgicos e oito horas de fisioterapia por dia. "Fiz ao todo dezessete cirurgias plásticas - sete com o dr Ivo Pitanguy e dez com o dr Ronaldo Pontes. Até que cheguei a um ponto em que achei que meu rosto já estava suficientemente bonito para seguir a vida e decidi não fazer mais nada para melhorá-lo", diz ele, bem humorado.

Durante todo esse tempo, sempre contou com o apoio da esposa Gilda, sua companheira de todas as horas há 46 anos, por quem tem admiração incontida: "Minha mulher é muito bonita- aliás, sempre foi e continua assim. A gente se conheceu nos tempos de colégio e começou a namorar quando eu tinha só treze anos.  Dez anos depois, no dia em que completei 23 anos de idade, nós nos casamos e estamos juntos até hoje." E completa, orgulhoso: "Temos 46 anos de casados e dois filhos maravilhosos - Luiz Claudio e Veronica". Quando em 1971 Themudo viajou para o Chile para montar o estande brasileiro na feira internacional, Gilda o acompanhou.

Themudo relembra um fato curioso que marcou o dia da tragédia: "Nosso amigo e então secretário da embaixada do Brasil no Chile, Guilherme Leite Ribeiro, deveria ter subido junto comigo naquele helicóptero para acompanhar a tomada de fotografias. Na última hora, ele resolveu não embarcar com a equipe, dizendo em tom de brincadeira que estava com medo do helicóptero cair". Em vez disso, o secretário convidou Gilda e sua própria esposa para dar uma volta de carro ali perto, enquanto a equipe sobrevoava a região.  Foi durante este rápido passeio que eles ouviram a notícia do acidente, anunciada pelo rádio do carro.

"Contra todas as previsões, cismei que não iria morrer", diz. Para sobreviver, conta ter desenvolvido uma técnica especial: "Eu xingava todo o mundo que se aproximasse de mim - médicos, enfermeiros, cuidadores. Quando me levaram à sala de cirurgia para amputar meu braço direito, fiz um escândalo. Gritei que eles só poderiam fazer aquilo com a autorização expressa e formal da minha família." E foi assim, no grito, que Themudo conseguiu salvar o braço, que hoje exibe com orgulho - marcado de cicatrizes profundas, mas inteiramente preservado.

Outra técnica desenvolvida por ele durante o longo processo de recuperação foi, em suas palavras, uma "espécie de delírio": "Eu imaginava que um grupo de soldados romanos da Antiguidade saía do meu coração e seguia marchando para uma determinada parte do meu corpo que necessitava de cuidados especiais. Aí eu visualizava esses soldados perfeitamente uniformizados, com martelos, escudos e espadas, trabalhando com determinação para reconstruir essa parte do meu corpo. Eu passava longos períodos no hospital mentalizando essas cenas."

Mais do que qualquer técnica desenvolvida por ele, talvez o instrumento mais eficaz nesta batalha pela sobrevivência tenha sido seu amor à família. Além da presença e dedicação incansáveis da esposa, o tempo todo ao seu lado, Themudo contava também com a força da lembrança do filho Luiz Claudio, na época um bebê de apenas nove meses, que havia ficado no Brasil. Mandou ampliar uma foto do menino e colocou-a acima do seu leito de hospital. Assim, ele podia olhar para o rosto do filho sempre que quisesse, durante todo o tempo em que estivesse hospitalizado, lutando pela vida. "Enquanto olhava para ele, eu dizia para mim mesmo, inúmeras vezes seguidas: Eu não vou morrer. Vou ficar bom para te educar. Vou cuidar de você."

Outra energia que, segundo ele, contribuiu de forma importante para sua recuperação, foram as muitas correntes de oração de parentes e amigos no Brasil. Quanto à possibilidade de um interesse maior por questões espirituais após a experiência do acidente, Themudo reflete: "Não sei bem como definir o que sinto sobre isso. Quando criança, estudei em colégio religioso e até cheguei a pensar em ser padre. Mas depois a vida me distanciou dessas questões. Hoje, o que posso afirmar é que acredito firmemente no poder da fé e na força do pensamento positivo."

Apesar de todo o apoio recebido da família e amigos e do seu otimismo inato, houve dias em que manter o alto astral lhe parecia missão impossível. Foi o que aconteceu no dia 31 de dezembro de 1971. "Naquela noite, eu estava sozinho no meu quarto de hospital, quando ouvi os fogos de artifício que estouravam ao longe na cidade de Santiago, festejando o ano novo. De repente, uma tristeza imensa tomou conta de mim e caí num choro convulsivo. O enfermeiro de plantão, que estava ali ao meu lado, também começou a chorar. E ficamos os dois ali, chorando feito crianças, enquanto o resto do mundo celebrava o ano novo. Foi o dia mais triste da minha vida."

Mas o ano de 1972 seria de vitórias extraordinárias, tanto no âmbito pessoal, quanto no profissional. Cerca de um mês depois daquela virada de ano no hospital, Themudo finalmente pôde embarcar em um avião da Varig e voltar ao Brasil. Ainda seriam necessários mais dez meses de internação hospitalar, incontáveis procedimentos e cirurgias, mas o fato é que Themudo havia recuperado a alegria de viver e confiança no futuro. "Todo o mundo queria me ajudar", relembra com um sorriso. "Acho que nunca consegui tanto sucesso com minha empresa do que quando estava no hospital. Ainda internado, prometi a mim mesmo que, no final daquele ano, eu voltaria ao Chile para participar da mesma feira internacional de Santiago onde eu havia sofrido o acidente."

Foi o que aconteceu. Um ano após o acidente, Themudo recebeu alta do hospital e saiu dali praticamente direto para o aeroporto, de volta à cidade de Santiago, para retomar o trabalho interrompido pela tragédia. "Costumo dizer que fatos são fatos. Contra eles não se pode fazer nada. Por isso temos que encarar a vida como ela é e seguir em frente."

Junto à família, aos poucos a vida voltou ao seu ritmo normal. Luiz Claudio nunca estranhou as marcas do acidente no rosto do pai, pois era muito pequeno quando ocorreu o acidente. "Ele só se deu conta de que eu era diferente dos outros pais muitos anos depois, quando uns amiguinhos com quem brincava comentaram que eu tinha cara de monstro. Até então, aos olhos do meu filho, eu era uma pessoa totalmente normal."

A filha Verônica nasceu em seguida, completando a família, que ele considera sua maior riqueza.



Hoje, passados 42 anos, Themudo fala com naturalidade das dificuldades que encarou nesta batalha pela sobrevivência, sem tentar esconder as cicatrizes do acidente. Cheio de energia e entusiasmo pela vida, no ano passado resolveu aprender a remar. "O remo é realmente um esporte maravilhoso", declara com um sorriso. "Que outro esporte permitiria que eu começasse a praticar aos 68 anos de idade e, ainda por cima, desfrutar de toda essa beleza natural ao ar livre?" E acrescenta, risonho: "Agora, meu grande objetivo na vida é aprender a remar direito."



Além de praticar o remo pelas manhãs, ele começa a desenvolver um trabalho junto à federação de remo para a maior valorização do esporte, já pensando nas Olimpíadas de 2016. "Precisamos atrair mais torcedores para apoiar nossos atletas nas regatas", diz animado.

É com este espírito sempre inquieto e bem humorado, que Themudo resume sua maneira de viver: "A vida é uma corrida de obstáculos. Cabe a cada um de nós vencê-los, um a um. Só isso."












sábado, 2 de novembro de 2013

Com alegria é melhor


Sempre que vou a São Paulo alguma coisa acontece no meu coração. Fico ansiosa por ver alguma nova exposição de arte, conhecer um restaurante diferente, rever amigos.  Sabendo disso, uma amiga de longa data me propôs um encontro num café charmoso e ainda pouco conhecido dos paulistanos, dentro da Biblioteca Brasiliana, no campus da Universidade de São Paulo. Inaugurada em março passado, a biblioteca abriga a maior e mais importante coleção particular de livros do país - a do empresário José Mindlin, com 40 mil volumes, dentre eles alguns livros raros de valor inestimável.  "Você vai adorar aquilo lá", garantiu-me a amiga.

Conforme o combinado,  às 7h45 da manhã em ponto lá estava eu sob o imponente vão arquitetônico da nova biblioteca. Sabia que aquela era a única brecha de horário possível na agenda atribulada da minha amiga, por isso fiz questão de não me atrasar nenhum minuto.

Àquela hora da manhã, o local estava praticamente deserto. Olhei para os lados, procurando minha amiga que certamente não tardaria a chegar, para tomarmos juntas o café da manhã. Logo estaríamos conversando felizes com o reencontro, rindo muito das nossas histórias de vida, sempre compartilhadas com afeto e bom humor.

Como não havia ninguém à vista, entrei rapidamente na biblioteca só para perguntar onde ficava o café e fui prontamente atendida por três recepcionistas amáveis e bem treinados.

- Café? Não, sinto muito, a senhora está enganada. Aqui é a Biblioteca Brasiliana.
- Eu sei, mas a biblioteca não tem um lugar onde se pode tomar um café?
- Não, por enquanto só existe um projeto para a construção de um refeitório, mas ainda nem tem data para ser inaugurado.

Percebendo a expressão de incredulidade no meu rosto, um rapaz da recepção ainda me forneceu uma pequena informação extra, tão amável quanto inútil, apontando na direção oposta:

- Vai ser ali do outro lado do prédio, ó...

Olhei desanimada para aquela imensa distância que nos separava da área indicada, completamente deserta. Por não saber bem o que fazer, resolvi caminhar até lá só para conferir. Sob aquele outro imenso, belo e desocupado vão arquitetônico, uma faxineira confirmou a informação que me havia sido dada pelo recepcionista: sim, dizem que o café será construído ali no segundo andar, mas ninguém ainda sabe quando.

Eu me senti a própria carioca despistada, presa na rede da megalópole paulistana. Meio constrangida, busquei um cantinho discreto para telefonar para a minha amiga, longe dos olhares penalizados dos funcionários locais. Quando ela atendeu, fui logo perguntando, de olho no relógio e no pouco tempo de que dispúnhamos para o nosso café da manhã:

- Você teria algum plano B para o local do nosso encontro? É que já cheguei aqui na Usp e me disseram que aquele café que você queria me mostrar ainda nem foi construído!
- O quê? Nossa! Mas o que é que você está fazendo aí na Usp agora?
- Como assim? Nós não marcamos um café da manhã aqui?
- Sim, marcamos. O lugar era esse, mas o dia do encontro não era hoje e, sim, AMANHÃ!

Perplexa, tento entender o absurdo daquele momento: minha amiga havia marcado nosso encontro num local inexistente, para o qual eu tinha ido em data trocada!

Nós duas rimos daquela situação surreal e, teimosas que somos, remarcamos nosso encontro para o dia seguinte, em local menos charmoso, mas pelo menos com existência garantida.

Para ser sincera, confesso que não estava achando muita graça naquilo tudo, não. Afinal de contas, tinha acordado mais cedo do que precisava e percorrido meia cidade de táxi... para fazer nada. Emburrada, saí do edifício da biblioteca e fui direto ao ponto de táxi que havia ali perto para regressar pelo mesmo trajeto que havia feito minutos antes. Sentia-me como uma intrusa na urbes, frustrada por não ter conseguido realizar o que havia planejado e, ainda por cima, sem ter tomado meu café da manhã. Estava com fome e irritada. Droga de dia!

Já sentada no banco do táxi, resolvi dar uma rápida olhada final naquele belo e moderno edifício do campus universitário. Foi então que aconteceu um fato mágico que mudou completamente meu estado de espírito naquele dia. Nas janelas do andar térreo do prédio da biblioteca, pude ler, em letras garrafais, uma mensagem que parecia gritar só para mim:

"Não faço nada sem alegria" 

Quem teria escrito aquilo ali? Achei graça na frase inesperada. Olhei para o céu e vi que o sol estava querendo sair entre as nuvens. Naquele momento, decidi que, mesmo que nada do que tivesse planejado desse certo, eu teria mais um dia alegre e feliz em São Paulo.



PS: Depois de uma rápida pesquisa pela Internet, descobri que aquela mensagem "mágica" nas janelas da Biblioteca Brasiliana da Usp na verdade se referia à exposição "Não faço nada sem alegria - a biblioteca indisciplinada de Guita e José Mindlin" - mostra permanente de 110 livros escolhidos da coleção do casal Mindlin. Agora preciso voltar lá para ver a exposição!

sábado, 24 de novembro de 2012

Tijolo a tijolo



Hoje foi um dia marcante em minha vida. Daqueles que fazem a gente mexer e remexer nas gavetas da memória afetiva, sem saber direito o que estamos procurando. Pois hoje foi um dia assim, denso de lembranças. É que acabamos de vender nosso pequeno apartamento à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro - o primeiro da nossa vida de casados, para onde nos mudamos em 1970, com o coração apaixonado e a cabeça repleta de planos para o futuro.

Sinto-me confusa com a assinatura desse papel. Estou ao mesmo tempo angustiada e feliz. É como se eu estivesse num daqueles filmes surreais do Woody Allen, em que alguém da platéia de repente pula para dentro da tela do cinema e passa a fazer parte da trama.  Vejo-me como outra pessoa, assistindo a um filme estrelado por mim mesma. Percebo que minha vida prossegue veloz, só que agora no sentido inverso do tempo. Olho para trás e vejo que meu futuro se confunde com a história do meu passado.

Onde era mesmo que eu estava há poucos minutos atrás?

Ah, sim...  Eu estava ali na sala da casa dos meus pais, cabisbaixa, com o coração aos pulos. Éramos tão jovens, meu futuro marido e eu, que meu pai disse "não" ao primeiro pedido de casamento. Apesar da dura resposta negativa, teve ao menos a gentileza de oferecer alguma esperança ao pretendente: para consentir com o nosso casamento, ele exigia que o noivo tivesse um lugar onde morar. Bem, se esta era a condição essencial para a gente se casar, aquele jovem recém-saído da adolescência iria dar um jeito de resolver a questão rapidinho!

De fato, em pouco tempo ele fechou a compra de um pequeno apartamento ainda na planta, financiado a perder de vista pelo Banco Nacional de Habitação.

Naquela época, a Lagoa pouco tinha a ver com o bairro absurdamente valorizado de hoje. Era um recanto sonolento da cidade, composto quase que exclusivamente de casas, com uma grande favela na orla. O túnel Rebouças acabava de ser inaugurado, ligando a Zona Norte à Zona Sul, com um fluxo suave de trânsito. Transporte público, além de precário, era uma verdadeira raridade no bairro. Para os moradores da beira da Lagoa, o que mais incomodava eram os episódios de mortandade de peixes, que periodicamente empesteavam a região.

A compra do apartamento foi um verdadeiro ato de coragem daquele jovem apaixonado. Ele ainda era estudante de engenharia e ganhava dinheiro dando aulas nos então chamados cursinhos de pré-vestibular. Como ainda era menor de idade, só pôde assinar o compromisso de compra do imóvel depois de obter sua emancipação.

Dali para a frente, acompanhamos atentamente cada etapa da construção do edifício, desde o bate-estaca das fundações, tijolo a tijolo, até a entrega das chaves. Após a festa do casório,  finalmente nos mudamos para o apartamento. Com o passar do tempo, a vida nos carregou para outras cidades, outros países. Entre muitas mudanças, nascimento de filhos, idas e vindas, o apartamento parecia estar sempre esperando pacientemente pelo nosso retorno, mesmo quando ocupado por outras pessoas.

Mas a vida nada mais é que uma interminável sequência de mudanças. Com leveza no coração, desejamos que os novos proprietários sejam muito felizes neste cantinho que já não nos pertence, mas que encerra tantas histórias das nossas vidas.

Quanto a nós, em breve iremos nos mudar para outro apartamento logo ali, no andar de cima. Vamos começar a escrever um novo capítulo da nossa longa história, no mesmo prédio que ajudamos a construir enquanto sonhávamos com nosso futuro.




sábado, 22 de setembro de 2012

Para não dizer que não falei de flores


As surpresas mais inesperadas - e também as mais gostosas - são as que estão bem embaixo do nosso nariz. Hoje, por exemplo, quando fui à varanda de casa só para observar se lá fora houve alguma mudança visível neste primeiro dia da primavera, meus olhos "encontraram" as buganvílias em flor. Faz tempo que elas estão floridas ali, bem debaixo do meu nariz.  Mas hoje, de repente, eu as vi de outro jeito e fiquei encantada com a intensidade de sua cor vermelho-maravilha, escandalosamente belas.

Uma navegada rápida pela Internet me trouxe outra informação surpreendente: as buganvílias são flores nativas do Brasil. Talvez este dado seja óbvio para muita gente, mas confesso que não sabia da origem dessa flor que enfeita generosamente o meu cotidiano. Fico só imaginando o frisson que o almirante francês Louis Antoine de Bougainville deve ter sentido quando viu estas flores pela primeira vez, em 1768. 

Bougainville passou por aqui quando estava no comando da primeira viagem de circunavegação realizada sob a bandeira da França - missão, aliás, que ele cumpriu com notável sucesso em três anos. Ganhou muito dinheiro, escapou da guilhotina e continuou amigo dos poderosos que sucederam a Revolução Francesa. Olho atentamente para o retrato deste homem de peruca, tão temido e respeitado em seu tempo, e acho graça na ironia da história: hoje Bougainville é provavelmente mais conhecido no mundo por causa da bela flor brasileira que enfeita minha varanda do que por todas as suas extraordinárias conquistas diplomáticas e militares.

Mas não era sobre nada disso que eu queria falar hoje. Na verdade, neste primeiro dia da primavera, o que eu queria mesmo compartilhar com o mundo todo é algo muito mais pessoal do que a história do nobre almirante francês.

Quero anunciar aos quatro ventos que vou ser avó.

Sim, é isso mesmo: o mistério da renovação da natureza, tão previsível quanto surpreendente, chegou à minha varanda. Flavio e Rachel vão nos dar um(a) neto(a) em março.

Para não dizer que não falei de flores, relembro divertida a canção de protesto que embalou minha adolescência e que agora inexplicavelmente cantarolo com uma doçura que eu não sabia possível, modificando, como mágica, a intenção original do Vandré:

Os amores na mente

As flores no chão

A certeza na frente

A história na mão

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Aprendendo e ensinando

Uma nova lição




sábado, 1 de setembro de 2012

Per favore, signor! Traga depressa um cafezinho para esta mulher madura!

Já perdi a noção do tempo, mas com certeza faz muitos anos que meu marido e eu nos emocionamos com a leitura do belo texto A Mulher Madura, do escritor Affonso Romano de Sant'Anna, na voz do grande Paulo Autran. Com cativante delicadeza, mas em tom provocadoramente sedutor, o texto celebra a beleza da mulher madura com a segurança elegante do homem que sabe flertar.

Pois bem, este texto me ganhou. Depois de ouvir a gravação, resolvi comprar o livro para deliciar-me com cada palavra de louvor à madurez feminina:

A mulher madura é assim - descreve o texto, sedutoramente -, tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira... Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs... 

Ah, que maravilha! O texto é pura música para meus ouvidos maduros. Conta mais!

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe... 

Adoro! O que mais?

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história...

Sim, sim!

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Meus olhos buscam ansiosos o parágrafo seguinte, deixando transparecer a mais inquieta imaturidade. E o texto continua, tranquilo e fluido, como se estivesse ditando o óbvio:

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena...

O quê? Neste momento, abandono a leitura, indignada. Como assim, "merece"? Eu sou uma mulher madura e, no entanto, nunca estive em Siena!

Largo o livro ali mesmo e vou cobrar do meu marido a mais urgente viagem à Itália para eu tomar aquele cafezinho na praça de Siena. Afinal, eu me-re-ço! O assunto virou uma espécie de piada entre nós. Por mais  que tentássemos incluir a bela cidade toscana no roteiro de uma de nossas viagens, nunca conseguíamos sequer chegar perto daquela região. Siena, definitivamente, parecia estar fora do nosso alcance.

A história era tão antiga, que eu já estava mesmo conformada com a ideia de jamais conseguir saborear aquele cafezinho tão sonhado. Nem por isso ficava chateada, pois acredito que alguns sonhos na vida são bonitos assim do jeito que são - simples sonhos, nada mais. Não precisam se tornar realidade para a gente gostar mais deles.

Um belo dia, o destino nos colocou cara a cara com o casal Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti, num evento literário no Rio de Janeiro. Trocamos algumas palavras com os dois e o tal do cafezinho da praça de Siena, inevitavelmente, veio à baila.  Depois de ouvir nossa historinha, o autor de A Mulher Madura dirigiu-se ao meu marido com um sorriso provocador:

- E o que é que você ainda está esperando para levar essa moça para conhecer Siena, rapaz? 

O desafio surtiu efeito: dali a poucos meses, embarcávamos para a Itália com o tal do cafezinho em Siena no topo da lista das nossas prioridades turísticas.

Mal pude acreditar quando, há poucas semanas, atravessamos o portal de entrada daquela jóia de cidade medieval, classificada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade: eu finalmente adentrava a cidade do cafezinho mais cobiçado do mundo! Sem olhar para os lados, rumamos como um raio para a monumental Piazza del Campo em forma de meia lua, onde se realiza a tradicional corrida de Palio, emoldurada pelo célebre Palazzo Pubblico, a torre do campanile e a Fonte Gaia, com suas magníficas esculturas de mármore.


Que me perdoem os historiadores, os estudiosos e apreciadores da arte: agora vou tomar meu cafezinho com calma! Siena terá que me esperar um pouco mais.

O garçon nos olhou com aquele ar blasé de quem vê turistas deslumbrados todos os dias. Com indiferença e pressa, trouxe-nos as duas lindas xícaras de cappuccino, que sorvemos encantados, o mais lentamente que podíamos. Nosso garçon jamais saberá que aquele cappuccino que ele nos serviu era, na verdade, o mais puro néctar dos deuses do Olimpo.


Terminado nosso momento mágico-mitológico, pudemos enfim conhecer e visitar as riquezas de Siena, como qualquer mortal.

O melhor dessa história veio depois, passados alguns dias da nossa volta ao Brasil. Revendo as fotos da viagem, um dia fiquei com vontade de reler o texto da Mulher Madura. No meio do texto, a inexistência de uma simples palavra me deixou nada menos do que estupefata:

Epa, cadê o cafezinho?

Incrédula, tive que ler e reler o texto várias vezes para me certificar de que, em nenhum momento, o autor menciona aquele cafezinho da praça de Siena! Como pode uma coisa dessas? Ali não consta o menor vestígio de cafezinho, nem de cappuccino, nem de chocolate, nem mesmo de um simples chá.  Aquele trecho do texto, que tanto alimentou nossos sonhos esses anos todos, na verdade diz:

A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde, acompanhando com o complacente olhar o voo das andorinhas e as crianças a brincar.
A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia.

Huuummm... Sabe que esta releitura acaba de me dar uma boa ideia?



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Na Itália, uma surpresa: sou pós-moderna!

Mamma mia! Che cosa succede? Por que de repente alguma coisa acontece no meu coração, como o de uma adolescente que acaba de fazer sua primeira viagem internacional? Um giro de apenas dez dias na Itália bastou para me deixar apatetada com a riqueza histórica e artística daquele povo mediterrâneo.

Devo dizer que não foi a primeira vez que fui à Itália. Desta vez, confesso, fui a Roma e não vi o papa. Mas em compensação peregrinei feliz da vida por uma infinidade de capelas, igrejas e museus da região da Toscana, que exibem o que há de mais precioso na história da arte universal. Com um entusiasmo semelhante ao que senti em minha primeira viagem ao Velho Mundo, lá fui eu, de olhos bem abertos, determinada a registrar na  memória cada detalhe das maravilhas medievais e renascentistas que desfilavam diante de mim.

Firenze, Arezzo, Cortona... Dio mio, isso aqui está bom demais!


Quantas obras de arte e riquezas históricas deslumbrantes, para quem vem de um país tão novo como o Brasil... Funiculi, funiculá! La vita è bella!


E a marcha da turista deslumbrada continua acelerada: Siena, San Gimignano... Como sei bella, Italia!


 Quantos vilarejos encantadores, dos quais eu nem sabia da existência: Cavriglia, Gaiole in Chianti, Vertine, Radda...


À noite, o caminho de volta é sempre em baixo astral. Não porque eu esteja cansada, mas simplesmente porque, depois que o sol se põe nestas paragens, já não encontro mais portas abertas em lugar algum e o jeito é conformar-me em ir dormir. Aqui não gosto de perder meu precioso tempo dormindo!


No dia seguinte, recomeça a peregrinação: Montepulciano, Chiusi... ufa! Como são curtos os dias...


O fato é que, depois de alguns dias de turismo acelerado por tantas cidades medievais, entrando e saindo de museus, subindo e descendo ladeiras, ouvindo os sinos nos campaniles das igrejas a marcar as horas inescapavelmente fugidias, minha cabeça já não acompanha mais aquela fome louca de ver tantas belezas ao mesmo tempo. As informações se embaralham em minha mente.

Maledizione! Droga! Qual é mesmo o nome daquele artista importantíssimo que pintou aquele quadro memorável daquela igreja extraordinária daquela cidade medieval que visitei ontem? (Ou terá sido anteontem?)

Bem mais rápido do que esperava, o cansaço turva meu olhar e agora vejo o que não conseguia ver no início da viagem:  infiltrações nas paredes dos museus, afrescos desbotados, jóias arquitetônicas recobertas de bolor, ruelas escuras, moradias insalubres, rostos melancólicos dos comerciantes de souvenirs baratos made in China.


De um dia para o outro, o que eu chamava de antigo de repente parece ter virado, simplesmente, velho. Deixo de lado meu deslumbre de turista acidental e tento colocar-me no lugar da gente da terra: manter viva toda essa herança cultural deve ser um fardo pesado para quem vive aqui. Só de imaginar o trabalho insano que isso deve dar, sinto-me exausta.


Nem é preciso fazer contas: está claro que não há dinheiro que chegue para tantos reparos ou para a simples manutenção contra a ação do tempo. Como será a vida nestes vilarejos quando chegar o frio e desaparecerem os turistas?

Foi com estes pensamentos cansados que percorri as infindáveis salas do Palazzo Pubblico de Siena, todas decoradas com afrescos nas paredes e obras de arte valiosíssimas, muitas se desmilinguindo diante dos nossos olhos por causa da umidade do ar. À medida que avançava pelo palácio adentro, sala após sala, sentia-me cada vez mais insignificante diante de tanta riqueza cultural.

Ao meu lado, visitantes de diferentes nacionalidades sussurravam expressões de admiração quase religiosa em diversos sotaques: Ah!... Oh!... Mon Dieu!... Espléndido!... Wunderbar!...  

Uma tristeza inexplicável toma conta de mim.

De repente, quando entro na Sala del Mappamondo para admirar o monumental afresco Maestá, pintado em 1315 pelo artista sienense Simone Martini, uma visão absolutamente inesperada me faz sorrir: um círculo branco imenso divide a sala ao meio, solenemente indecifrável, surpreendendo os visitantes pela sua própria inutilidade. Tenho vontade de abraçar com toda a minha afeição aquele intruso contemporâneo - simples, perfeito, belo. Meus olhos, àquelas alturas já cansados de reverenciar tantas obras primas do passado, agora brincam... de bambolê! Oba!


É libertador poder admirar a arte contemporânea sem medo de parecer insensível à arte dos grandes mestres do passado.

Descubro mais tarde que o grande círculo é obra do artista Francesco Carone, nascido em Siena em 1975. Como é bom sentir-me trazida de volta para o aqui e o agora, pelas mãos de um artista que vive no meu tempo. Tenho a mesma sensação refrescante que se tem depois de um banho de cachoeira num dia de calor opressivo. Sinto-me resgatada, renovada, reinventada.

Nesta sala descobri, dentro de mim, o significado e o poder transformador da arte pós-moderna. Certa ou errada, fico feliz com a constatação de que a pós-modernidade agora me pertence.


Divino círculo, tua simplicidade perfeita é o que há de mais belo no mundo. Tu me pertences, eu te pertenço. Obrigada por me sacudir e me fazer ver a vida com novos olhos!



terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quem beijou... beijou!

Ué? Você não vai escrever nada no seu blog sobre a Flip deste ano? - me perguntou uma amiga que mora em Nova York. Fiquei meio desconcertada, porque já faz um mês que a Festa Literária Internacional de Paraty sacudiu a charmosa e antiga cidade do litoral do Rio de Janeiro. Como sempre, a Flip, que este ano comemorou sua décima edição com uma bela homenagem a Carlos Drummond de Andrade, realimentou meu espírito leitor e aguçou minha fome de novidades culturais. Depois dos quatro dias de intensa programação de palestras, shows, debates, reencontros com amigos, saborosas experiências gastronômicas e caminhadas pelas ruas de pedras pé de moleque, voltei para casa saltitante, cheia de ideias novas, curiosa e feliz.

O que mais posso acrescentar a tudo o que já foi dito e cantado aos quatro ventos sobre esta festa?

Passado um mês da deliciosa esbórnia cultural, a pergunta de minha amiga agora me faz parar, olhar para trás e refletir sobre o que ficou marcado em mim desta última Flip. Decido não ler minhas anotações e vou direto ao coração vasculhar as lembranças daqueles quatro dias de julho que primeiro vem à minha mente.

1) Lembro-me divertida da viagem de ônibus do Rio de Janeiro para Paraty. Quase todos os passageiros se dirigiam à Flip e o clima era de uma inusitada confraria cultural, em que todos nos entreolhávamos com meios sorrisos, como se já nos conhecêssemos há tempos. Sentou-se ao meu lado um homem de cerca de sessenta anos, que logo puxou assunto e não parou mais de falar durante a viagem. Era a primeira vez que ia à Flip e estava visivelmente ansioso. "Eu sempre tive vontade de ir à Flip, mas nunca tive coragem antes", revelou-me, incompreensivelmente sério. Quando percebeu que eu não entendia o que ele queria dizer, explicou:  é que aquele evento literário era "burguês" demais para alguém tão comprometido com a esquerda como ele, filho de ex-guerrilheira dos tempos da ditadura, exilado político (morou mais de dez anos no Senegal) e militante do PT. "O que  meus companheiros iriam pensar de mim se me vissem na Flip, aplaudindo esses autores de direita?", angustiava-se. Ainda bem que ele não parecia interessado em ouvir minha opinião sobre o tema. Antes que eu pudesse abrir a boca para emitir qualquer opinião, o ex-guerrilheiro disparou a contar sua vida inteirinha durante a viagem, recheada de eventos mirabolantes, dignas de um filme de ação. No final ele resolveu soltar o verbo, talvez encorajado por minha atenção silenciosa, citando nomes, locais e datas da vida underground da década de 70. (Mais tarde, por curiosidade, fui verificar na Internet: eram mesmo informações factuais.) De todos os autores convidados da Flip deste ano, aquele que meu companheiro de viagem mais queria ver era Luís Fernando Veríssimo,  por uma razão bem pouco literária. "É que o Veríssimo apoia o Movimento dos Sem Terra", confidenciou compungido, como quem justifica uma atitude eticamente reprovável.

2) Na manhã do primeiro dia da Flip, a brilhante palestra sobre Carlos Drummond de Andrade dada pelos professores Alcides Villaça (Usp) e Antonio Carlos Secchin (UFRJ) - valeu minha ida a Paraty. O óbvio prazer e respeito mútuo que aqueles dois sentiam em dialogar um com o outro, o tom quase religioso com que recitavam os versos do poeta,  a profundidade de suas análises e a adorável simplicidade da forma com que expressavam suas próprias ideias cativaram meu coração. Eu - ingênua que sou! - imaginava conhecer razoavelmente bem a obra de Drummond só por tê-lo estudado na escola e, de repente, me senti gauche na vida. Ainda tenho muito o que aprender.

3) Como quase sempre acontece, as melhores experiências da Flip são as mais inesperadas. Foi o caso, para mim, da palestra Quadrinhos para Maiores, com os cartunistas Angeli e Laerte.


Para falar a verdade, eu achava que iria assistir a uma sequência de piadas estilo cuca fresca, pontuada por  risadas adolescentes na plateia. Confesso que o que mais me motivava neste evento era ver de perto o Laerte vestido de mulher, nessa forma de expressão curiosamente contraventora que é o crossdressing. Quando o Laerte entrou no palco com aquele esvoaçante vestido longo estampado, lábios carmim, unhas esmaltadas, bijuterias delicadas, trejeitos de tia e voz grossa de homem, pensei: vai começar a comédia. Mas o papo dos dois velhos amigos foi surpreendentemente sério e bom. Eles falaram com lucidez e transparência sobre temas difíceis, como as limitações impostas pelo envelhecimento e os bloqueios de inspiração no processo criativo que os assaltam de vez em quando. Um debate provocador e por vezes emocionante - sempre salpicados de boas risadas, é claro. São surpresas como esta que me fazem voltar à Flip, ano após ano, com entusiasmo renovado.

4) Ao contrário do que aconteceu no ano passado, desta vez São Pedro resolveu colaborar com a Flip. Com aquele céu imaculadamente azul e temperatura amena, quem não conseguiu despregar os olhos dos livros para dar uma voltinha de barco pelas ilhas daquele litoral abençoado... perdeu!


Tanta beleza à nossa volta fez meu amigo Fernando declamar gloriosamente em voz alta, os braços abertos para o céu, do alto do pequeno barco em que navegávamos, a célebre frase do coveiro de Inhaúma: "Quem beijou... beijou! Quem não beijou... não beija mais: agora nós vamos fechar o caixão!"

É isso aí: para quem não foi à Flip, nossos sentimentos. O jeito agora é esperar pela festa do ano que vem.