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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Na Itália, uma surpresa: sou pós-moderna!

Mamma mia! Che cosa succede? Por que de repente alguma coisa acontece no meu coração, como o de uma adolescente que acaba de fazer sua primeira viagem internacional? Um giro de apenas dez dias na Itália bastou para me deixar apatetada com a riqueza histórica e artística daquele povo mediterrâneo.

Devo dizer que não foi a primeira vez que fui à Itália. Desta vez, confesso, fui a Roma e não vi o papa. Mas em compensação peregrinei feliz da vida por uma infinidade de capelas, igrejas e museus da região da Toscana, que exibem o que há de mais precioso na história da arte universal. Com um entusiasmo semelhante ao que senti em minha primeira viagem ao Velho Mundo, lá fui eu, de olhos bem abertos, determinada a registrar na  memória cada detalhe das maravilhas medievais e renascentistas que desfilavam diante de mim.

Firenze, Arezzo, Cortona... Dio mio, isso aqui está bom demais!


Quantas obras de arte e riquezas históricas deslumbrantes, para quem vem de um país tão novo como o Brasil... Funiculi, funiculá! La vita è bella!


E a marcha da turista deslumbrada continua acelerada: Siena, San Gimignano... Como sei bella, Italia!


 Quantos vilarejos encantadores, dos quais eu nem sabia da existência: Cavriglia, Gaiole in Chianti, Vertine, Radda...


À noite, o caminho de volta é sempre em baixo astral. Não porque eu esteja cansada, mas simplesmente porque, depois que o sol se põe nestas paragens, já não encontro mais portas abertas em lugar algum e o jeito é conformar-me em ir dormir. Aqui não gosto de perder meu precioso tempo dormindo!


No dia seguinte, recomeça a peregrinação: Montepulciano, Chiusi... ufa! Como são curtos os dias...


O fato é que, depois de alguns dias de turismo acelerado por tantas cidades medievais, entrando e saindo de museus, subindo e descendo ladeiras, ouvindo os sinos nos campaniles das igrejas a marcar as horas inescapavelmente fugidias, minha cabeça já não acompanha mais aquela fome louca de ver tantas belezas ao mesmo tempo. As informações se embaralham em minha mente.

Maledizione! Droga! Qual é mesmo o nome daquele artista importantíssimo que pintou aquele quadro memorável daquela igreja extraordinária daquela cidade medieval que visitei ontem? (Ou terá sido anteontem?)

Bem mais rápido do que esperava, o cansaço turva meu olhar e agora vejo o que não conseguia ver no início da viagem:  infiltrações nas paredes dos museus, afrescos desbotados, jóias arquitetônicas recobertas de bolor, ruelas escuras, moradias insalubres, rostos melancólicos dos comerciantes de souvenirs baratos made in China.


De um dia para o outro, o que eu chamava de antigo de repente parece ter virado, simplesmente, velho. Deixo de lado meu deslumbre de turista acidental e tento colocar-me no lugar da gente da terra: manter viva toda essa herança cultural deve ser um fardo pesado para quem vive aqui. Só de imaginar o trabalho insano que isso deve dar, sinto-me exausta.


Nem é preciso fazer contas: está claro que não há dinheiro que chegue para tantos reparos ou para a simples manutenção contra a ação do tempo. Como será a vida nestes vilarejos quando chegar o frio e desaparecerem os turistas?

Foi com estes pensamentos cansados que percorri as infindáveis salas do Palazzo Pubblico de Siena, todas decoradas com afrescos nas paredes e obras de arte valiosíssimas, muitas se desmilinguindo diante dos nossos olhos por causa da umidade do ar. À medida que avançava pelo palácio adentro, sala após sala, sentia-me cada vez mais insignificante diante de tanta riqueza cultural.

Ao meu lado, visitantes de diferentes nacionalidades sussurravam expressões de admiração quase religiosa em diversos sotaques: Ah!... Oh!... Mon Dieu!... Espléndido!... Wunderbar!...  

Uma tristeza inexplicável toma conta de mim.

De repente, quando entro na Sala del Mappamondo para admirar o monumental afresco Maestá, pintado em 1315 pelo artista sienense Simone Martini, uma visão absolutamente inesperada me faz sorrir: um círculo branco imenso divide a sala ao meio, solenemente indecifrável, surpreendendo os visitantes pela sua própria inutilidade. Tenho vontade de abraçar com toda a minha afeição aquele intruso contemporâneo - simples, perfeito, belo. Meus olhos, àquelas alturas já cansados de reverenciar tantas obras primas do passado, agora brincam... de bambolê! Oba!


É libertador poder admirar a arte contemporânea sem medo de parecer insensível à arte dos grandes mestres do passado.

Descubro mais tarde que o grande círculo é obra do artista Francesco Carone, nascido em Siena em 1975. Como é bom sentir-me trazida de volta para o aqui e o agora, pelas mãos de um artista que vive no meu tempo. Tenho a mesma sensação refrescante que se tem depois de um banho de cachoeira num dia de calor opressivo. Sinto-me resgatada, renovada, reinventada.

Nesta sala descobri, dentro de mim, o significado e o poder transformador da arte pós-moderna. Certa ou errada, fico feliz com a constatação de que a pós-modernidade agora me pertence.


Divino círculo, tua simplicidade perfeita é o que há de mais belo no mundo. Tu me pertences, eu te pertenço. Obrigada por me sacudir e me fazer ver a vida com novos olhos!



segunda-feira, 11 de julho de 2011

Meu banquete literário na Flip

Cheguei ontem da Festa Literária Internacional de Paraty com a cabeça fervilhando de ideias e emoções. Estes cinco dias de palestras literárias, encontros com autores daqui e de fora, reencontros com amigos queridos, música, comes e bebes, teatro, dança e cultura popular todos os anos me alimentam o cérebro, fortalecem o espírito e, invariavelmente, amolecem meu coração.

Para mim, a Flip começa muitos meses antes, com a reserva de um lugar para dormir e a leitura de tudo o que sai nos jornais sobre possíveis convidados e o autor homenageado do ano. Por causa da Flip, o desvairado do Oswald de Andrade, que eu não lia desde os tempos do pré-vestibular, voltou às minhas prateleiras e, na honrosa condição de homenageado de 2011, quase me mata de rir com suas tiradas impossivelmente pós-modernas. Delícia antropofágica.

Pessoalmente, vivenciei muitos momentos mágicos nesta Flip, que mais do que compensaram as quatro horas de estrada sacolejante que separam o Rio de Janeiro do centro histórico de Paraty. Quero destacar apenas cinco dos que mais me emocionaram e que saboreei deliciosamente, como se fossem pratos de um grande banquete. Listo-os aqui em ordem caótica, sem qualquer intenção de comparar um a outro, como convém ao ambiente saudavelmente macunaímico deste ano:

Primeiro Prato - A palestra do professor Antonio Cândido, que abriu a Flip na  noite de quarta-feira - O auditório inteiro se levantou para aplaudir de pé o maior crítico literário do Brasil quando, com a autoridade dos seus 92 anos de idade e robustez intelectual, ele entrou no auditório ainda em penumbra, de mansinho, talvez imaginando que a gente não iria se dar conta de sua chegada. Foram aplausos longos, calorosos, irrecusáveis. Que privilégio estar ali, diante daquele cidadão elegante nas palavras e na postura, do tipo de pessoas que já não se fazem mais, que tinha vindo nos contar sobre o homem Oswald de Andrade, que ele havia conhecido na condição de seu grande amigo pessoal. Não há preço de ingresso que pague este banquete.

Segundo Prato - Os shows de música da  Maria Martha - Qualquer um que passasse em frente à janela da casa da Folha de São Paulo durante o show desta cantora e compositora paulista que mora há anos em Paraty, dificilmente deixava de parar para escutá-la. Muitos, como eu, não resistiam e entravam na casa só para ouvi-la um pouquinho mais. E acabavam ficando um tempão, maravilhados com o timbre delicado de sua voz, a simplicidade sofisticada de seu violão e o belo repertório cuidadosamente colhido entre os melhores nomes da música latinoamericana. Beleza pura.

Terceiro Prato - Meu encontro pessoal com o historiador, escritor e editor mexicano Enrique Krauze - Dou pouca importância a ter livro autografado pelo autor, mas desta vez dei uma de tiete e enfrentei a fila dos autógrafos só para apertar a mão do escritor que me alargou os horizontes como poucos. Li seu Historia de México quando vivia naquele país e acho que foi essa leitura que afinal me fez desistir de mudar os mexicanos, aceitá-los como são e amá-los precisamente por serem maravilhosamente diferentes de mim. Que alegria cumprimentar Enrique Krauze em pessoa, depois de ouvi-lo falar com tanta lucidez política e a precisão elegante que caracteriza o seu uso da linguagem. Órale, maestro! Viva México!


Quarto Prato - Meu abraço num mamulengo de rua - As noites da Flip são tão mágicas como as ilustrações dos contos de histórias infantis. Há poetas declamando pelas esquinas, músicos tocando instrumentos medievais, indígenas vendendo artesanato, procissões religiosas, rodas de maracatu. Quase todos os que participam desses eventos são moradores de Paraty mesmo. E foi assim, rodopiando entre um evento de rua e outro, que caí nos braços de um mamulengo de rua. Upa! Que abraço gostoso!

Quinto Prato - A carta de agradecimento ao Brasil do escritor português valter hugo mãe (escrito assim mesmo, em letras minúsculas) - Antes da Flip, confesso que nunca tinha ouvido falar nesse autor de quarenta anos de idade, que o José Saramago certa vez chamou de "tsunami literário" da língua portuguesa. Nem sequer tinha comprado ingresso para assistir ao debate de sua mesa na Flip, mas na última hora me baixou uma curiosidade repentina de dar uma olhadinha nele. Resolvi, então, me juntar ao pessoal que fica do lado de fora da tenda do telão, pegando "carona" nas palestras sem pagar. Bendita intuição! Foi um dos momentos mais emocionantes de toda a Festa para mim. Junto com quase todos os que estavam ali ao meu lado, chorei  com aquela fala mansa, bonita e singela. Com as lágrimas, me sobrveio também um imenso sentimento de proximidade com Portugal. E com grande ternura, pensei: "valter hugo mãe - meu irmãozinho".





quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Flip me pegou


A Festa Literária Internacional de Paraty já me pegou de jeito. Bastou eu ir dois anos seguidos à Flip - o maior evento literário da América Latina - na charmosa cidadezinha colonial perto do Rio de Janeiro, para reconhecer que sou uma viciada incurável nesse negócio. E sem chance de reabilitação! Nem bem terminaram os últimos debates do quinto dia da festa, no domingo à tarde, e eu já estava sonhando com a volta no ano que vem.

Fecho os olhos e relembro com saudade as caminhadas pelas ruas de pedras desiguais, a música ao vivo saindo pelas janelas dos bares e se misturando a poemas declamados pelas esquinas, risadas de crianças, sotaques estrangeiros, rodas de samba e maracatu. Vejo carrinhos vendendo cocada e pé-de-moleque. Lojas de cachaça de todos os tipos, com garrafas bem arrumadas em prateleiras que cobrem todas as paredes até o teto. Galerias de arte sofisticadas, com uma carteira de exportação de fazer inveja a muita gente graúda no mercado de arte internacional. Peças de artesanato alegres e despretenciosas, dando vida a pedaços de madeira, cerâmica, tecido. Abacaxis de ferro batido enfeitando as sacadas das janelas. Barcos multicoloridos flutuando no cais. Cheiro de peixe recém pescado. Cheiro de moqueca e pimenta malagueta.


E os livros? Ah... os livros! Eles estão por todos os lados - lançados, vendidos, comprados, cobiçados, disputados, esgotados, autografados, folheados, presenteados, prometidos, transformados em filme. Aviso aos navegantes de primeira viagem: a Livraria da Vila instalada na tenda da Flip é uma tentação que deve ser evitada a todo custo pelos espíritos impulsivos, dos que não conseguem se limitar a comprar o que o próprio bolso comporte. Eu bem que tentei, mas acabei saindo de lá com uma sacola carregadinha de livros, irresistíveis, sem os quais não conseguiria mais viver. (Quem foi que falou aí em crise do mercado editorial?)


Mas a coisa que mais me cativa no ambiente da Flip é a consciência de estar no meio de pessoas que gostam de ler e trocar idéias umas com as outras. São pessoas dispostas a desacelerar o ritmo da loucura cotidiana para ouvir o que outras tem a dizer. Isso parece valer também para os palestrantes convidados da Festa. A gente tem a impressão de que eles não estão ali só para exibir vaidosamente seus predicados intelectuais, mas para aprender uns com os outros também. A maior parte deles não discursa: simplesmente conversa com a gente.

No meio de tantas estrelas do meio literário e acadêmico - como Isabel Allende, Salman Rushdie, Ferreira Gullar, Moacyr Scliar, Azar Nafisi - fica difícil falar de um ou de outro sem cometer omissões incômodas. Mas não vou esconder aqui minha preferência deslavada por um palestrante relativamente pouco conhecido do grande público - o bibliotecário, professor e escritor Edson Nery da Fonseca, que participou da mesa que abriu os debates sobre a obra de Gilberto Freyre, o homenageado do ano.
Aos 88 anos de idade, ele se locomove com dificuldade e precisa se amparar em outras pessoas para subir ao palco. Mas, quando começa a falar, o brilho nos olhos desse pernambucano arretado empolga qualquer platéia, refletindo o intelecto vigoroso e entusiasmado que muitos jovens gostariam de ter. No ano passado, ele já me havia emocionado com a interpretação inspirada de uns quantos poemas do Manoel Bandeira, de quem foi contemporâneo e amigo, e cuja obra literária ele conhece como poucos. Este ano, Nery repetiu o show, recitando de cor um poema delicioso de Gilberto Freyre (de quem, aliás, ele também foi amigo),  chamado "Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados". Foram seis minutos de puro deleite. Quando ele finalmente se calou, a platéia toda o aplaudiu de pé.

A Flip frequentemente nos surpreende com momentos mágicos como esse, nem sempre registrados pela grande imprensa. Food for thought, diriam os ingleses. No banquete literário de Paraty, os pratos do cardápio são internacionais, mas o tempero - não tenho dúvida - é bem brasileiro. Ainda bem.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Mafalda em bom Português

Acabo de ler no jornal uma notícia boa: esta semana vai ser lançado no Brasil o livro "10 anos com Mafalda", da editora Martins Fontes. Já era mais do que tempo, pois vejo que a primeira edição argentina é de 1991. Para quem ainda não tem sua Mafalda na mesa de cabeceira, aqui vai a sugestão: é hora de colocar a mão no bolso e investir rapidinho na compra de um exemplar. É satisfação garantida, prometo.

A Mafalda tem me acompanhado diariamente. Todas as manhãs, quando viro a folhinha do calendário que me dei de presente na última viagem que fiz a Buenos Aires, leio uma tira criada pelo cartunista argentino Quino. Pois é, meus dias tem começado assim: com uma cutucada no espírito e um sorriso no coração.

Conheço poucas  fontes de reflexão tão relevantes e prazerosas quanto as tiras da Mafalda - essa menina politicamente engajada e contestadora, cujo sonho é viver num mundo melhor. Mafalda foi criada nos anos 60, quando a Argentina vivia uma época de grande instabilidade política e conflitos sociais. As tiras logo alcançaram enorme sucesso, sendo traduzidas para dezenas de idiomas. Durante dez anos Mafalda cresceu, apareceu, sonhou, brigou, refletiu e esbravejou o mais que pôde. Mas nem a Argentina nem o resto do mundo davam indícios de que iriam mudar de alguma forma. Até que chegou uma hora em que seu criador decidiu jogar a toalha. Em 1973, Quino decretou o final das tiras da Mafalda e disse que jamais a desenharia outra vez. Para a tristeza de todos nós, atentos seguidores da turma da Mafalda, o cartunista tem cumprido o prometido.

O nome verdadeiro de Quino é Joaquin Salvador Lavado. Filho de pais espanhóis, nasceu em 1932 na cidade de Mendoza, terra dos bons vinhos argentinos. Surpreendentemente, ao contrário da Mafalda, Quino confessa que gosta de tomar sopa.  Aos 77 anos, continua o mesmo homem tímido que sempre foi, um tanto descrente da humanidade, com aquele ar de pessimismo atávico que parece fazer parte do caráter dos argentinos. "Repare que de Adão e Eva saiu um filho assassino", disse ele numa entrevista. "Ou seja, das quatro pessoas que havia no começo do mundo, um quarto era delinquente. Parece que não mudamos nada de lá para cá."  Piadinha sem graça. Mas Quino observa que, quando vai à Espanha, ele se sente "mais festivo", talvez por causa de suas raízes.

Para fazer cada tira da Mafalda, Quino diz que costumava passar um dia inteiro trabalhando, das 9 da manhã às 5 da tarde. Era um tal de desenhar e apagar com a borracha que não acabava mais. O sofrimento era constante, porque ele nunca sabia se iria conseguir inspiração para a tira do dia seguinte.

O fato é que, mesmo depois de 37 anos sem novas tiras, Mafalda continua muito viva e atual. Em agosto do ano passado, foi inaugurada uma escultura adorável da Mafalda sentada num banco de praça, em frente a um prédio onde Quino viveu, no bairro de San Telmo em Buenos Aires.

Gente do mundo inteiro, como eu, reencontra na Mafalda aquele fio de esperança na humanindade que se acreditava perdida. Amanhã cedo, quando virar mais uma folhinha naquele calendário que tenho ao lado do  computador, novamente vou sorrir e sonhar com um mundo um pouco melhor para todos nós.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cabelos vermelhos

Que susto estranho levei agora há pouco, com a notícia da morte da artista francesa Jeanne-Claude, a extravagante parceira de vida e de estripulias artísticas por esse mundo afora de outro artista não menos extravagante, o búlgaro Christo. O casal não usava sobrenome e assinava suas obras de arte a dois, assim mesmo, só com seus primeiros nomes: Christo e Jeanne-Claude. Curiosamente os dois nasceram exatamente no mesmo dia, mês e ano, como que predestinados um para o outro: 13 de junho de 1935. Eles ficaram famosos por suas instalações monumentais - todas adoravelmente estapafúrdias - em locais públicos, inesperados. O "empacotamento" do prédio do Parlamento alemão em Berlim, do Pont Neuf de Paris e a "envoltura" de algumas ilhas da Flórida são alguns exemplos da arte deste casal, que ainda hoje provoca tantas controvérsias.  


Minha surpresa com a notícia da morte de Jeanne-Claude vem junto com uma sensação esquisita de perda atrasada, porque ela ocorreu há mais de seis meses, no dia 18 novembro do ano passado... Meu Deus, como pode ela ter desaparecido do meu mapa, sem eu perceber? (Só fiquei sabendo da notícia triste quando li há poucos minutos o blog de Marcio Fonseca, dedicado à divulgação de artes plásticas - ando meio desatualizada, certamente!) 


Mas quando penso na figura ousada e marcante, por quem tive a sorte de passar perto algumas vezes no Central Park e no Metropolitan Museum de Nova York, durante o período da instalação do The Gates em fevereiro de 2005, me dá vontade de rir. Na época eu morava a poucas quadras dali e pude acompanhar com um entusiasmo quase infantil todas as etapas daquela instalação ao longo de inúmeras semanas que me pareceram intermináveis. Sob qualquer pretexto, eu arrumava um jeitinho de passar pelo meio do parque e dar uma espiada no progresso das obras, desde as primeiras marcas de giz no asfalto, indicando onde cada poste seria cuidadosamente fixado (sem necessidade de perfurar o solo, para não deixar qualquer marca no meio ambiente quando a instalação terminasse), até o oba-oba do tão esperado dia da inauguração oficial, com o desamarrar de cada "gate" cor de laranja, num belo contraste com as cores do inverno novaiorquino. Esta foi com certeza a instalação artística mais ousada e empolgante que eu tive a chance de ver. 


Tão fascinante quanto os próprios "gates" era observar os rostos das pessoas que circulavam por baixo daquelas estruturas: quanta alegria... quantos sorrisos contagiantes, de todas as idades, etnias, procedências, níveis culturais! A gente caminhava (ou será que dançava?) por baixo daquelas estruturas metálicas e "bandeiras" ao vento com o coração leve como o das crianças. A sensação era de que a gente estava flutuando dentro de um sonho. Absolutamente surreal.


Depois de inaugurada, a instalação permaneceu mais duas semanas no Central Park, alegrando todo o mundo que por ali passava, a qualquer hora do dia ou da noite. A cada momento aqueles imensos estandartes cor de laranja assumiam uma personalidade diferente, de acordo com as condições do tempo: alegres quando coloridos pelo sol, ensimesmados quando molhados de chuva, leves como a neve que caía, melancólicos como a neve derretida, novamente alegres em contraste com o azul vibrante do céu...


É impossível pensar nos "gates" sem me lembrar dos cabelos vermelhos da Jeanne-Claude, tão divertidos e esvoaçantes quanto. Desconfio mesmo que ela se foi deste mundo colhida de surpresa por um pé de vento, num voo mágico em direção ao céu. Imagino-a voando e rindo às gargalhadas com aqueles cabelos vermelhos ao vento, encantada com aquela que deve ter sido a mais magnífica de todas as suas instalações.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Mestre Vitalino e Nelson Leirner


Esta semana fui a duas exposições de arte aparentemente desconexas, que me fizeram sorrir e acrescentaram um tempero bom na minha sopa de idéias.



A primeira foi no Museu do Folclore, que fica bem ao lado do Palácio do Catete: "Mestre Vitalino e artistas pernambucanos". O título da mostra é singelo como o artista homenageado, o escultor das figurinhas de cerâmica Vitalino Pereira dos Santos, que se estivesse vivo estaria completando 100 anos de idade. Tive a sorte de percorrer a galeria da exposição ao lado da minha amiga Guacira Waldeck, que organizou a mostra e é uma expert apaixonada pela arte popular brasileira. Foi ela quem me chamou a atenção para uma escultura de madeira de um artista contemporâneo do Vitalino, também pernambucano, chamado Benedito José dos Santos.

A escultura mostra duas figuras humanas carregando uma rede, com desenhos geométricos, numa concepção estilizada e moderna, quase urbana-chique. De onde terá este homem tirado idéias estéticas tão avançadas? Ali ao lado, um depoimento do próprio Benedito, colhido em 1980, parece responder à minha pergunta: " Passo o dia na madeira: aí de noite vem o sonho. Quando acordo, chega a imaginação. Então tenho uma felicidade estranha."

"Uma felicidade estranha"... Que maneira simples e direta de descrever aquilo que se sente quando a inspiração bate e se cria o belo.

A outra exposição que fui ver esta semana tem um nome complicado: "Stripencores". É uma mostra individual do Nelson Leirner, artista polêmico com meio século de criação e experimentação em happenings, instalações, cinema, técnicas mistas. Leirner já está perto dos 80 anos, mas parece ainda não ter saído da adolescência. É inquieto e gosta de provocações.

Desconfio que se o Mestre Vitalino e o Benedito José dos Santos pudessem voltar à Terra e dar uma passadinha no novo casarão sofistiqué da galeria Silvia Cintra + Box 4, no Baixo Gávea, iriam ficar encantados com a obra de Leirner - principalmente com as obras feitas com figurinhas e brinquedos baratos que a gente encontra no comércio popular.

Leirner constrói uma arte colorida e ousada, que nos faz sorrir... 
...exatamente como as peças dos artistas pernambucanos no Museu do Folclore. 




terça-feira, 23 de março de 2010

Arte no Parque Lage

Comecei a fazer um curso na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Fazia tempo que não mexia em tintas e pincéis e senti que meu lado artístico estava ficando meio enferrujado. Escolhi o curso por causa do horário (segunda-feira à tarde), um dos poucos  disponíveis para mim. Dei uma rápida olhada no programa e decidi me matricular em um curso cujo título me pareceu simpático:  "Em torno da pintura".

Pronto: lá fui eu para a primeira aula, armada com minha velha caixa  de pintura, manchada de tintas de muitas cores passadas, cheia de pincéis endurecidos e paninhos esfarrapados.

Surpresa! O meu curso de "pintura"... não tem absolutamente nada a ver com tubos de tinta nem pincéis! Na verdade, a proposta de "Em torno da pintura" é estimular cada aluno a explorar sua própria criatividade através de técnicas de - ai, meu Deus! - ... gravura.

E agora? Como é que eu poderia imaginar? Justamente gravura, talvez a única linguagem artística que nunca consegui apreciar direito! Xilografia, serigrafia, monotipia, relevo seco... tudo isso sempre me pareceu tão distante dos meus interesses, tão estrangeiro à minha sensibilidade...


Bem, se o acaso de conduziu até lá deve ter sido por um bom motivo. Então vamos lá!
Mãos à obra!


Ontem tive a terceira aula e - nova surpresa! - estou adorando, apesar da inevitável sujeira das tintas de impressão. Saí de lá com as unhas pretas e a cabeça pontilhada de idéias coloridas.