Já perdi a noção do tempo, mas com certeza faz muitos anos que meu marido e eu nos emocionamos com a leitura do belo texto A Mulher Madura, do escritor Affonso Romano de Sant'Anna, na voz do grande Paulo Autran. Com cativante delicadeza, mas em tom provocadoramente sedutor, o texto celebra a beleza da mulher madura com a segurança elegante do homem que sabe flertar.
Pois bem, este texto me ganhou. Depois de ouvir a gravação, resolvi comprar o livro para deliciar-me com cada palavra de louvor à madurez feminina:
A mulher madura é assim - descreve o texto, sedutoramente -, tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira... Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs...
Ah, que maravilha! O texto é pura música para meus ouvidos maduros. Conta mais!
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe...
Adoro! O que mais?
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história...
Sim, sim!
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Meus olhos buscam ansiosos o parágrafo seguinte, deixando transparecer a mais inquieta imaturidade. E o texto continua, tranquilo e fluido, como se estivesse ditando o óbvio:
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena...
O quê? Neste momento, abandono a leitura, indignada. Como assim, "merece"? Eu sou uma mulher madura e, no entanto, nunca estive em Siena!
Largo o livro ali mesmo e vou cobrar do meu marido a mais urgente viagem à Itália para eu tomar aquele cafezinho na praça de Siena. Afinal, eu me-re-ço! O assunto virou uma espécie de piada entre nós. Por mais que tentássemos incluir a bela cidade toscana no roteiro de uma de nossas viagens, nunca conseguíamos sequer chegar perto daquela região. Siena, definitivamente, parecia estar fora do nosso alcance.
A história era tão antiga, que eu já estava mesmo conformada com a ideia de jamais conseguir saborear aquele cafezinho tão sonhado. Nem por isso ficava chateada, pois acredito que alguns sonhos na vida são bonitos assim do jeito que são - simples sonhos, nada mais. Não precisam se tornar realidade para a gente gostar mais deles.
Um belo dia, o destino nos colocou cara a cara com o casal Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti, num evento literário no Rio de Janeiro. Trocamos algumas palavras com os dois e o tal do cafezinho da praça de Siena, inevitavelmente, veio à baila. Depois de ouvir nossa historinha, o autor de A Mulher Madura dirigiu-se ao meu marido com um sorriso provocador:
- E o que é que você ainda está esperando para levar essa moça para conhecer Siena, rapaz?
O desafio surtiu efeito: dali a poucos meses, embarcávamos para a Itália com o tal do cafezinho em Siena no topo da lista das nossas prioridades turísticas.
Mal pude acreditar quando, há poucas semanas, atravessamos o portal de entrada daquela jóia de cidade medieval, classificada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade: eu finalmente adentrava a cidade do cafezinho mais cobiçado do mundo! Sem olhar para os lados, rumamos como um raio para a monumental Piazza del Campo em forma de meia lua, onde se realiza a tradicional corrida de Palio, emoldurada pelo célebre Palazzo Pubblico, a torre do campanile e a Fonte Gaia, com suas magníficas esculturas de mármore.
Que me perdoem os historiadores, os estudiosos e apreciadores da arte: agora vou tomar meu cafezinho com calma! Siena terá que me esperar um pouco mais.
O garçon nos olhou com aquele ar blasé de quem vê turistas deslumbrados todos os dias. Com indiferença e pressa, trouxe-nos as duas lindas xícaras de cappuccino, que sorvemos encantados, o mais lentamente que podíamos. Nosso garçon jamais saberá que aquele cappuccino que ele nos serviu era, na verdade, o mais puro néctar dos deuses do Olimpo.
Terminado nosso momento mágico-mitológico, pudemos enfim conhecer e visitar as riquezas de Siena, como qualquer mortal.
O melhor dessa história veio depois, passados alguns dias da nossa volta ao Brasil. Revendo as fotos da viagem, um dia fiquei com vontade de reler o texto da Mulher Madura. No meio do texto, a inexistência de uma simples palavra me deixou nada menos do que estupefata:
Epa, cadê o cafezinho?
Incrédula, tive que ler e reler o texto várias vezes para me certificar de que, em nenhum momento, o autor menciona aquele cafezinho da praça de Siena! Como pode uma coisa dessas? Ali não consta o menor vestígio de cafezinho, nem de cappuccino, nem de chocolate, nem mesmo de um simples chá. Aquele trecho do texto, que tanto alimentou nossos sonhos esses anos todos, na verdade diz:
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde, acompanhando com o complacente olhar o voo das andorinhas e as crianças a brincar.
A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia.
Huuummm... Sabe que esta releitura acaba de me dar uma boa ideia?
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sábado, 1 de setembro de 2012
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Na Itália, uma surpresa: sou pós-moderna!
Devo dizer que não foi a primeira vez que fui à Itália. Desta vez, confesso, fui a Roma e não vi o papa. Mas em compensação peregrinei feliz da vida por uma infinidade de capelas, igrejas e museus da região da Toscana, que exibem o que há de mais precioso na história da arte universal. Com um entusiasmo semelhante ao que senti em minha primeira viagem ao Velho Mundo, lá fui eu, de olhos bem abertos, determinada a registrar na memória cada detalhe das maravilhas medievais e renascentistas que desfilavam diante de mim.
Firenze, Arezzo, Cortona... Dio mio, isso aqui está bom demais!
Quantas obras de arte e riquezas históricas deslumbrantes, para quem vem de um país tão novo como o Brasil... Funiculi, funiculá! La vita è bella!
E a marcha da turista deslumbrada continua acelerada: Siena, San Gimignano... Como sei bella, Italia!
Quantos vilarejos encantadores, dos quais eu nem sabia da existência: Cavriglia, Gaiole in Chianti, Vertine, Radda...
No dia seguinte, recomeça a peregrinação: Montepulciano, Chiusi... ufa! Como são curtos os dias...
O fato é que, depois de alguns dias de turismo acelerado por tantas cidades medievais, entrando e saindo de museus, subindo e descendo ladeiras, ouvindo os sinos nos campaniles das igrejas a marcar as horas inescapavelmente fugidias, minha cabeça já não acompanha mais aquela fome louca de ver tantas belezas ao mesmo tempo. As informações se embaralham em minha mente.
Maledizione! Droga! Qual é mesmo o nome daquele artista importantíssimo que pintou aquele quadro memorável daquela igreja extraordinária daquela cidade medieval que visitei ontem? (Ou terá sido anteontem?)
Bem mais rápido do que esperava, o cansaço turva meu olhar e agora vejo o que não conseguia ver no início da viagem: infiltrações nas paredes dos museus, afrescos desbotados, jóias arquitetônicas recobertas de bolor, ruelas escuras, moradias insalubres, rostos melancólicos dos comerciantes de souvenirs baratos made in China.
De um dia para o outro, o que eu chamava de antigo de repente parece ter virado, simplesmente, velho. Deixo de lado meu deslumbre de turista acidental e tento colocar-me no lugar da gente da terra: manter viva toda essa herança cultural deve ser um fardo pesado para quem vive aqui. Só de imaginar o trabalho insano que isso deve dar, sinto-me exausta.
Nem é preciso fazer contas: está claro que não há dinheiro que chegue para tantos reparos ou para a simples manutenção contra a ação do tempo. Como será a vida nestes vilarejos quando chegar o frio e desaparecerem os turistas?
Foi com estes pensamentos cansados que percorri as infindáveis salas do Palazzo Pubblico de Siena, todas decoradas com afrescos nas paredes e obras de arte valiosíssimas, muitas se desmilinguindo diante dos nossos olhos por causa da umidade do ar. À medida que avançava pelo palácio adentro, sala após sala, sentia-me cada vez mais insignificante diante de tanta riqueza cultural.
Ao meu lado, visitantes de diferentes nacionalidades sussurravam expressões de admiração quase religiosa em diversos sotaques: Ah!... Oh!... Mon Dieu!... Espléndido!... Wunderbar!...
Uma tristeza inexplicável toma conta de mim.
De repente, quando entro na Sala del Mappamondo para admirar o monumental afresco Maestá, pintado em 1315 pelo artista sienense Simone Martini, uma visão absolutamente inesperada me faz sorrir: um círculo branco imenso divide a sala ao meio, solenemente indecifrável, surpreendendo os visitantes pela sua própria inutilidade. Tenho vontade de abraçar com toda a minha afeição aquele intruso contemporâneo - simples, perfeito, belo. Meus olhos, àquelas alturas já cansados de reverenciar tantas obras primas do passado, agora brincam... de bambolê! Oba!
É libertador poder admirar a arte contemporânea sem medo de parecer insensível à arte dos grandes mestres do passado.
Descubro mais tarde que o grande círculo é obra do artista Francesco Carone, nascido em Siena em 1975. Como é bom sentir-me trazida de volta para o aqui e o agora, pelas mãos de um artista que vive no meu tempo. Tenho a mesma sensação refrescante que se tem depois de um banho de cachoeira num dia de calor opressivo. Sinto-me resgatada, renovada, reinventada.
Nesta sala descobri, dentro de mim, o significado e o poder transformador da arte pós-moderna. Certa ou errada, fico feliz com a constatação de que a pós-modernidade agora me pertence.
Divino círculo, tua simplicidade perfeita é o que há de mais belo no mundo. Tu me pertences, eu te pertenço. Obrigada por me sacudir e me fazer ver a vida com novos olhos!
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