Passado um mês da deliciosa esbórnia cultural, a pergunta de minha amiga agora me faz parar, olhar para trás e refletir sobre o que ficou marcado em mim desta última Flip. Decido não ler minhas anotações e vou direto ao coração vasculhar as lembranças daqueles quatro dias de julho que primeiro vem à minha mente.
1) Lembro-me divertida da viagem de ônibus do Rio de Janeiro para Paraty. Quase todos os passageiros se dirigiam à Flip e o clima era de uma inusitada confraria cultural, em que todos nos entreolhávamos com meios sorrisos, como se já nos conhecêssemos há tempos. Sentou-se ao meu lado um homem de cerca de sessenta anos, que logo puxou assunto e não parou mais de falar durante a viagem. Era a primeira vez que ia à Flip e estava visivelmente ansioso. "Eu sempre tive vontade de ir à Flip, mas nunca tive coragem antes", revelou-me, incompreensivelmente sério. Quando percebeu que eu não entendia o que ele queria dizer, explicou: é que aquele evento literário era "burguês" demais para alguém tão comprometido com a esquerda como ele, filho de ex-guerrilheira dos tempos da ditadura, exilado político (morou mais de dez anos no Senegal) e militante do PT. "O que meus companheiros iriam pensar de mim se me vissem na Flip, aplaudindo esses autores de direita?", angustiava-se. Ainda bem que ele não parecia interessado em ouvir minha opinião sobre o tema. Antes que eu pudesse abrir a boca para emitir qualquer opinião, o ex-guerrilheiro disparou a contar sua vida inteirinha durante a viagem, recheada de eventos mirabolantes, dignas de um filme de ação. No final ele resolveu soltar o verbo, talvez encorajado por minha atenção silenciosa, citando nomes, locais e datas da vida underground da década de 70. (Mais tarde, por curiosidade, fui verificar na Internet: eram mesmo informações factuais.) De todos os autores convidados da Flip deste ano, aquele que meu companheiro de viagem mais queria ver era Luís Fernando Veríssimo, por uma razão bem pouco literária. "É que o Veríssimo apoia o Movimento dos Sem Terra", confidenciou compungido, como quem justifica uma atitude eticamente reprovável.
3) Como quase sempre acontece, as melhores experiências da Flip são as mais inesperadas. Foi o caso, para mim, da palestra Quadrinhos para Maiores, com os cartunistas Angeli e Laerte.
Para falar a verdade, eu achava que iria assistir a uma sequência de piadas estilo cuca fresca, pontuada por risadas adolescentes na plateia. Confesso que o que mais me motivava neste evento era ver de perto o Laerte vestido de mulher, nessa forma de expressão curiosamente contraventora que é o crossdressing. Quando o Laerte entrou no palco com aquele esvoaçante vestido longo estampado, lábios carmim, unhas esmaltadas, bijuterias delicadas, trejeitos de tia e voz grossa de homem, pensei: vai começar a comédia. Mas o papo dos dois velhos amigos foi surpreendentemente sério e bom. Eles falaram com lucidez e transparência sobre temas difíceis, como as limitações impostas pelo envelhecimento e os bloqueios de inspiração no processo criativo que os assaltam de vez em quando. Um debate provocador e por vezes emocionante - sempre salpicados de boas risadas, é claro. São surpresas como esta que me fazem voltar à Flip, ano após ano, com entusiasmo renovado.
4) Ao contrário do que aconteceu no ano passado, desta vez São Pedro resolveu colaborar com a Flip. Com aquele céu imaculadamente azul e temperatura amena, quem não conseguiu despregar os olhos dos livros para dar uma voltinha de barco pelas ilhas daquele litoral abençoado... perdeu!
Tanta beleza à nossa volta fez meu amigo Fernando declamar gloriosamente em voz alta, os braços abertos para o céu, do alto do pequeno barco em que navegávamos, a célebre frase do coveiro de Inhaúma: "Quem beijou... beijou! Quem não beijou... não beija mais: agora nós vamos fechar o caixão!"
É isso aí: para quem não foi à Flip, nossos sentimentos. O jeito agora é esperar pela festa do ano que vem.



