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sábado, 22 de setembro de 2012

Para não dizer que não falei de flores


As surpresas mais inesperadas - e também as mais gostosas - são as que estão bem embaixo do nosso nariz. Hoje, por exemplo, quando fui à varanda de casa só para observar se lá fora houve alguma mudança visível neste primeiro dia da primavera, meus olhos "encontraram" as buganvílias em flor. Faz tempo que elas estão floridas ali, bem debaixo do meu nariz.  Mas hoje, de repente, eu as vi de outro jeito e fiquei encantada com a intensidade de sua cor vermelho-maravilha, escandalosamente belas.

Uma navegada rápida pela Internet me trouxe outra informação surpreendente: as buganvílias são flores nativas do Brasil. Talvez este dado seja óbvio para muita gente, mas confesso que não sabia da origem dessa flor que enfeita generosamente o meu cotidiano. Fico só imaginando o frisson que o almirante francês Louis Antoine de Bougainville deve ter sentido quando viu estas flores pela primeira vez, em 1768. 

Bougainville passou por aqui quando estava no comando da primeira viagem de circunavegação realizada sob a bandeira da França - missão, aliás, que ele cumpriu com notável sucesso em três anos. Ganhou muito dinheiro, escapou da guilhotina e continuou amigo dos poderosos que sucederam a Revolução Francesa. Olho atentamente para o retrato deste homem de peruca, tão temido e respeitado em seu tempo, e acho graça na ironia da história: hoje Bougainville é provavelmente mais conhecido no mundo por causa da bela flor brasileira que enfeita minha varanda do que por todas as suas extraordinárias conquistas diplomáticas e militares.

Mas não era sobre nada disso que eu queria falar hoje. Na verdade, neste primeiro dia da primavera, o que eu queria mesmo compartilhar com o mundo todo é algo muito mais pessoal do que a história do nobre almirante francês.

Quero anunciar aos quatro ventos que vou ser avó.

Sim, é isso mesmo: o mistério da renovação da natureza, tão previsível quanto surpreendente, chegou à minha varanda. Flavio e Rachel vão nos dar um(a) neto(a) em março.

Para não dizer que não falei de flores, relembro divertida a canção de protesto que embalou minha adolescência e que agora inexplicavelmente cantarolo com uma doçura que eu não sabia possível, modificando, como mágica, a intenção original do Vandré:

Os amores na mente

As flores no chão

A certeza na frente

A história na mão

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Aprendendo e ensinando

Uma nova lição