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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Cicatrizes, amor e fé: uma batalha pela sobrevivência

Um trágico acidente de helicóptero trouxe consequências inimagináveis para a vida do jovem empresário Luiz Octavio Themudo, então com 26 anos de idade. No dia 6 de novembro de 1971, uma explosão destroçou o helicóptero em que ele sobrevoava a cidade de Santiago do Chile para tirar algumas fotos aéreas de uma feira internacional onde o Brasil tinha um stand montado por sua empresa de eventos. Todos os sete passageiros que estavam a bordo - inclusive o piloto, um diplomata brasileiro, um fotógrafo e técnicos de sua equipe de filmagem - despencaram de uma altura correspondente a um edifício de 33 andares, em queda livre. Todos morreram, menos ele.

Sua sobrevivência foi quase um milagre, contrariando todas as previsões médicas, que o davam como praticamente morto. "Tive queimaduras em 62% da superfície do corpo, que me tornaram irreconhecível, com a face transfigurada. E até perdi a conta da quantidade de ossos que quebrei", disse Themudo. "Meu caso era tão grave, que os médicos que vinham me examinar ficavam me olhando, sem saber por onde começar. Chegaram a afirmar que minhas chances de sobrevivência não passavam de 3,5%."

Caso sobrevivesse, os médicos diziam ainda que ele teria que amputar o braço direito e que ficaria cego de um olho. Os prognósticos não poderiam ser menos animadores. Estava tão fragilizado que hoje não tem dúvidas: para morrer, bastava concordar. Dia após dia, nos 45 dias que se seguiram ao acidente, os médicos garantiam que daquela noite ele não passaria.


"Mas os médicos estavam enganados e aqui estou eu, aos 69 anos de idade, aprendendo a remar nesta nossa Lagoa maravilhosa, com meus dois braços e dois olhos intactos",  relembra Themudo com um sorriso maroto no rosto, ainda marcado pelas cicatrizes do acidente.

Themudo é um dos colegas mais assíduos e animados da escolinha de remo do Botafogo, na Lagoa Rodrigo de Freitas. De manhã cedo, ele sempre traz sua máquina para fotografar cenas do cotidiano dos remadores e pequenas confraternizações da turma, sem deixar de prestigiar também as grandes vitórias do clube - como aconteceu no dia 20 de outubro passado, quando o Botafogo conquistou o título de campeão estadual, depois de um jejum de 49 anos.




Após a queda do helicóptero, era como se Themudo tivesse nascido de novo. Tanto assim que, desde aquele ano, todo mês de novembro ele comemora seu aniversário duas vezes: uma no dia do nascimento e outra no dia do acidente.

O processo de recuperação foi uma batalha longa e dolorosa. Primeiro, Themudo permaneceu três meses hospitalizado no Chile, que naquela época, por sorte, era o único país latinoamericano que possuía um hospital especializado em atendimento a queimados. Quando finalmente pôde ser transportado de volta ao Brasil, ficou mais dez meses internado para uma série interminável de procedimentos cirúrgicos e oito horas de fisioterapia por dia. "Fiz ao todo dezessete cirurgias plásticas - sete com o dr Ivo Pitanguy e dez com o dr Ronaldo Pontes. Até que cheguei a um ponto em que achei que meu rosto já estava suficientemente bonito para seguir a vida e decidi não fazer mais nada para melhorá-lo", diz ele, bem humorado.

Durante todo esse tempo, sempre contou com o apoio da esposa Gilda, sua companheira de todas as horas há 46 anos, por quem tem admiração incontida: "Minha mulher é muito bonita- aliás, sempre foi e continua assim. A gente se conheceu nos tempos de colégio e começou a namorar quando eu tinha só treze anos.  Dez anos depois, no dia em que completei 23 anos de idade, nós nos casamos e estamos juntos até hoje." E completa, orgulhoso: "Temos 46 anos de casados e dois filhos maravilhosos - Luiz Claudio e Veronica". Quando em 1971 Themudo viajou para o Chile para montar o estande brasileiro na feira internacional, Gilda o acompanhou.

Themudo relembra um fato curioso que marcou o dia da tragédia: "Nosso amigo e então secretário da embaixada do Brasil no Chile, Guilherme Leite Ribeiro, deveria ter subido junto comigo naquele helicóptero para acompanhar a tomada de fotografias. Na última hora, ele resolveu não embarcar com a equipe, dizendo em tom de brincadeira que estava com medo do helicóptero cair". Em vez disso, o secretário convidou Gilda e sua própria esposa para dar uma volta de carro ali perto, enquanto a equipe sobrevoava a região.  Foi durante este rápido passeio que eles ouviram a notícia do acidente, anunciada pelo rádio do carro.

"Contra todas as previsões, cismei que não iria morrer", diz. Para sobreviver, conta ter desenvolvido uma técnica especial: "Eu xingava todo o mundo que se aproximasse de mim - médicos, enfermeiros, cuidadores. Quando me levaram à sala de cirurgia para amputar meu braço direito, fiz um escândalo. Gritei que eles só poderiam fazer aquilo com a autorização expressa e formal da minha família." E foi assim, no grito, que Themudo conseguiu salvar o braço, que hoje exibe com orgulho - marcado de cicatrizes profundas, mas inteiramente preservado.

Outra técnica desenvolvida por ele durante o longo processo de recuperação foi, em suas palavras, uma "espécie de delírio": "Eu imaginava que um grupo de soldados romanos da Antiguidade saía do meu coração e seguia marchando para uma determinada parte do meu corpo que necessitava de cuidados especiais. Aí eu visualizava esses soldados perfeitamente uniformizados, com martelos, escudos e espadas, trabalhando com determinação para reconstruir essa parte do meu corpo. Eu passava longos períodos no hospital mentalizando essas cenas."

Mais do que qualquer técnica desenvolvida por ele, talvez o instrumento mais eficaz nesta batalha pela sobrevivência tenha sido seu amor à família. Além da presença e dedicação incansáveis da esposa, o tempo todo ao seu lado, Themudo contava também com a força da lembrança do filho Luiz Claudio, na época um bebê de apenas nove meses, que havia ficado no Brasil. Mandou ampliar uma foto do menino e colocou-a acima do seu leito de hospital. Assim, ele podia olhar para o rosto do filho sempre que quisesse, durante todo o tempo em que estivesse hospitalizado, lutando pela vida. "Enquanto olhava para ele, eu dizia para mim mesmo, inúmeras vezes seguidas: Eu não vou morrer. Vou ficar bom para te educar. Vou cuidar de você."

Outra energia que, segundo ele, contribuiu de forma importante para sua recuperação, foram as muitas correntes de oração de parentes e amigos no Brasil. Quanto à possibilidade de um interesse maior por questões espirituais após a experiência do acidente, Themudo reflete: "Não sei bem como definir o que sinto sobre isso. Quando criança, estudei em colégio religioso e até cheguei a pensar em ser padre. Mas depois a vida me distanciou dessas questões. Hoje, o que posso afirmar é que acredito firmemente no poder da fé e na força do pensamento positivo."

Apesar de todo o apoio recebido da família e amigos e do seu otimismo inato, houve dias em que manter o alto astral lhe parecia missão impossível. Foi o que aconteceu no dia 31 de dezembro de 1971. "Naquela noite, eu estava sozinho no meu quarto de hospital, quando ouvi os fogos de artifício que estouravam ao longe na cidade de Santiago, festejando o ano novo. De repente, uma tristeza imensa tomou conta de mim e caí num choro convulsivo. O enfermeiro de plantão, que estava ali ao meu lado, também começou a chorar. E ficamos os dois ali, chorando feito crianças, enquanto o resto do mundo celebrava o ano novo. Foi o dia mais triste da minha vida."

Mas o ano de 1972 seria de vitórias extraordinárias, tanto no âmbito pessoal, quanto no profissional. Cerca de um mês depois daquela virada de ano no hospital, Themudo finalmente pôde embarcar em um avião da Varig e voltar ao Brasil. Ainda seriam necessários mais dez meses de internação hospitalar, incontáveis procedimentos e cirurgias, mas o fato é que Themudo havia recuperado a alegria de viver e confiança no futuro. "Todo o mundo queria me ajudar", relembra com um sorriso. "Acho que nunca consegui tanto sucesso com minha empresa do que quando estava no hospital. Ainda internado, prometi a mim mesmo que, no final daquele ano, eu voltaria ao Chile para participar da mesma feira internacional de Santiago onde eu havia sofrido o acidente."

Foi o que aconteceu. Um ano após o acidente, Themudo recebeu alta do hospital e saiu dali praticamente direto para o aeroporto, de volta à cidade de Santiago, para retomar o trabalho interrompido pela tragédia. "Costumo dizer que fatos são fatos. Contra eles não se pode fazer nada. Por isso temos que encarar a vida como ela é e seguir em frente."

Junto à família, aos poucos a vida voltou ao seu ritmo normal. Luiz Claudio nunca estranhou as marcas do acidente no rosto do pai, pois era muito pequeno quando ocorreu o acidente. "Ele só se deu conta de que eu era diferente dos outros pais muitos anos depois, quando uns amiguinhos com quem brincava comentaram que eu tinha cara de monstro. Até então, aos olhos do meu filho, eu era uma pessoa totalmente normal."

A filha Verônica nasceu em seguida, completando a família, que ele considera sua maior riqueza.



Hoje, passados 42 anos, Themudo fala com naturalidade das dificuldades que encarou nesta batalha pela sobrevivência, sem tentar esconder as cicatrizes do acidente. Cheio de energia e entusiasmo pela vida, no ano passado resolveu aprender a remar. "O remo é realmente um esporte maravilhoso", declara com um sorriso. "Que outro esporte permitiria que eu começasse a praticar aos 68 anos de idade e, ainda por cima, desfrutar de toda essa beleza natural ao ar livre?" E acrescenta, risonho: "Agora, meu grande objetivo na vida é aprender a remar direito."



Além de praticar o remo pelas manhãs, ele começa a desenvolver um trabalho junto à federação de remo para a maior valorização do esporte, já pensando nas Olimpíadas de 2016. "Precisamos atrair mais torcedores para apoiar nossos atletas nas regatas", diz animado.

É com este espírito sempre inquieto e bem humorado, que Themudo resume sua maneira de viver: "A vida é uma corrida de obstáculos. Cabe a cada um de nós vencê-los, um a um. Só isso."












segunda-feira, 30 de julho de 2012

Já ganhou!

Se dependesse da minha decisão, o remador Isaac Ribeiro, um dos atletas brasileiros que aguardam ansiosamente o momento de competir nos Jogos Parolímpicos de Londres dentro de alguns dias, nem precisava participar da prova: para mim, ele já ganhou a medalha de ouro na dura competição da vida.

Aos 27 anos de idade, Isaac é a prova de que, com força de vontade e determinação, o ser humano é capaz de superar os obstáculos mais difíceis. Quando nasceu, os médicos disseram que ele jamais seria capaz de caminhar, por causa de uma deficiência congênita que lhe deformou as pernas. A família já tinha experiência neste tipo de problema, pois um dos quatro irmãos de Isaac também havia nascido com deficiência semelhante. O caçula seria criado num ambiente familiar em que as dificuldades eram encaradas com naturalidade, no pequeno município de Virginia, sul de Minas Gerais, enquanto o pai trabalhava na ordenha do leite e a mãe nas lides de casa.

Depois de três cirurgias, contra todas as previsões médicas, Isaac aprendeu a andar com as próprias pernas, ainda que bastante curvadas. "Mas o que me salvou mesmo foi o esporte", garante ele. O remo só apareceu há relativamente pouco tempo em sua vida. Sua primeira grande paixão foi o futebol. "Fui o melhor goleiro do time de fut-sal de pessoas normais do Virginia Futebol Clube", afirma ele sorrindo, sem qualquer traço de falsa modéstia.  Desta época, traz as melhores recordações, além de muitas marcas no corpo provocadas por quedas no solo duro das quadras.

Foi o amor pelo esporte que o fez deixar a família em Virginia e vir sozinho para o Rio de Janeiro em 2004, de carona num caminhão, para tentar a sorte na vida. Inicialmente se instalou em Niterói, onde se dedicou à prática da natação na Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos. Foi uma época de grandes dificuldades financeiras e muitas saudades da família. Para poder se manter e se dedicar aos treinos, Isaac trabalhou na área de lanternagem de uma oficina de carros.

No final de 2006, durante uma competição de futebol no Instituto Benjamin Constant, Isaac conheceu Rafael Ceccon, que dava aulas de educação física para cegos e era também técnico de remo no Botafogo. "Ele me convidou para visitar o clube e aquela foi a primeira vez que eu vi um barco a remo na minha vida", lembra Isaac. "Fiquei encantado com o visual da Lagoa e em pouco tempo me entusiasmei com aquele novo esporte. Resolvi então pegar firme no remo."

Isaac e Rafael Ceccon no clube Botafogo da Lagoa
Com muita disciplina e dedicação, Isaac treinava todos os dias, participando de todas as competições que podia. Sempre alegre e prestativo, logo conquistou a simpatia de todos no clube.

Os bons resultados não tardaram a surgir. Mas em 2007 Isaac teve a maior decepção na sua carreira de atleta: por apenas três segundos, perdeu a prova seletiva para os Jogos Parolímpicos de Pequim. "Fiquei muito triste, mas ao mesmo tempo acho que saí fortalecido dessa derrota. Desde 2009 não perdi mais nenhuma prova seletiva", afirma ele, com justificado orgulho.

Josiane Dias e Isaac Ribeiro: dupla vencedora

Em dupla com a atleta Josiane Dias, em 2010 Isaac obteve o quarto lugar no campeonato mundial de remo da Nova Zelândia. Em maio deste ano, a mesma dupla ganhou medalha de bronze na Regata Internacional de Gavirate, na Itália. E em junho passado eles conquistaram a medalha de prata na Copa do Mundo de Belgrado, na Sérvia, o que os qualificou para os Jogos Parolímpicos de Londres. "Estamos entre os seis melhores competidores do mundo na nossa classe esportiva", diz Isaac. "Nosso objetivo agora é a medalha de ouro. O esporte me ensinou que nada é impossível na vida, se a gente persistir e se dedicar com verdade à conquista dos nossos objetivos."

Os Jogos Parolímpicos, este ano em sua 14a edição, começam pouco depois do encerramento dos Jogos Olímpicos. A abertura vai ser no dia 29 de agosto, em cerimônia especial que contará com a presença da rainha da Inglaterra. Vai ser fácil identificar o Isaac entre os 25 atletas da delegação brasileira na cerimônia de abertura: ele vai ser o único atleta a desfilar pedalando uma bicicleta (os outros usarão cadeiras de rodas). Vamos ficar de olho nesses exemplos de superação e torcer muito por todos eles.


Mas, com ou sem medalhas, para mim meu amigo Isaac já ganhou.






domingo, 29 de janeiro de 2012

Irineu, o Amigão da Lagoa



Muito antes da calçada à beira da Lagoa virar um dos pontos mais badalados da Zona Sul carioca, Irineu Ferreira já vendia coco junto ao clube de remo do Botafogo, próximo à Curva do Calombo. "Fui o primeiro vendedor de coco que se instalou aqui na Lagoa", diz ele, com orgulho. "Antes era só na praia que havia coco para comprar."  Desde 1963, Irineu trabalhou na manutenção dos barcos e da garagem do clube, atividade que exerceu por 48 anos até se aposentar no ano passado. Naquele tempo, a avenida Epitacio Pessoa era tão sossegada que na hora do almoço Irineu costumava jogar futebol na pista com os colegas.


Apesar de aposentado, o dia começa cedo do mesmo jeito para Irineu: às quatro da manhã já está de pé, varrendo as folhas das árvores que dão sombra ao clube. Ao nascer do sol, Irineu já está orientando os primeiros remadores que chegam para retirar os barcos da garagem, em alto e bom som:

- Vambora, galera! Vocês estão aí parados esperando o quê? Vamos logo, que tem mais gente chegando!

 Todos sabem que o tom é brincalhão, mas a bronca é para valer - e por isso se apressam, obedientes, para dar início logo às atividades do dia.

Irineu nasceu em Araruama, no dia 15 de dezembro de 1928, numa família de catorze irmãos. Depois que o pai morreu e a mãe se casou de novo, a vida do pequeno Irineu sofreu uma reviravolta radical. Inconformado com a chegada do padrasto, resolveu fugir de casa. Tinha apenas onze anos de idade e nenhuma ideia do que fazer para ganhar a vida sozinho. O menino se virou como pôde: trabalhou em colheita de laranja e algodão, cortou cana, tirou leite de vaca, dormiu em banco de praça. "Teve um dia que eu quase morri amassado por um touro, enquanto dormia num curral", relembra, achando graça na história.

Talvez por ter passado tantas dificuldades é que hoje valorize tanto a pequena casa onde mora, construída por ele mesmo dentro do clube. "Tenho um orgulho danado da minha casa e gosto de deixar tudo arrumado, direitinho", diz Irineu. "Sou eu mesmo quem prepara a minha comida, sei cozinhar de tudo: arroz, feijão, frango assado, peixe, empada, espinafre refogado... Também lavo e passo toda a minha roupa. Um homem que vive sozinho tem que aprender a fazer essas coisas todas." Paz de espírito é um dos elementos que mais preza na vida. É devoto de Nossa Senhora de Aparecida, da qual tem três imagens em casa. Não gosta de bebidas alcoólicas: prefere tomar suco de frutas e água de coco. Brincar o Carnaval, nem pensar: só mesmo na televisão.

Irineu cultiva hábitos simples: gosta de pescar, ver televisão e conversar com os amigos que param para conversar na barraca do coco. "Conheci muita gente famosa por aqui, como a Regina Casé, o Tony Ramos, o Ney Latorraca, o Agildo Ribeiro...", conta satisfeito. "Outro dia quem tomou água de coco na minha barraca foi o Eike Batista, que vem sempre correr aqui na Lagoa."

Mas Irineu nem sempre esteve cercado de amigos. A partir do dia em que fugiu de casa, deixando a mãe e os irmãos para trás, teve que enfrentar todo o tipo de adversidades sozinho. Como tinha grande força física, quis ser boxeador e chegou a ganhar "uns trocados" com o esporte. Também tentou a sorte no futebol - esteve no Fluminense para competir por uma vaga de goleiro, mas logo desistiu.  Aos 35 anos de idade, Irineu se cansou da solidão e resolveu procurar de novo a família, que ele não via desde criança.  Foi nesse momento que sua vida deu uma nova guinada radical - só que, desta vez,  foi para melhor. A história deste reencontro é digna de um filme e Irineu a conta com um sorriso largo, carregado de emoção: "Eu não via minha irmã gêmea, Irene, desde que tínhamos onze anos de idade.  Um dia soube onde ela morava e a fiquei seguindo durante três dias - na rua, no ônibus... Por onde ela ia, eu ia atrás. Até que um dia ela veio falar comigo, zangada por estar sendo seguida por um estranho!" Depois que Irineu se identificou, houve uma sucessão de grandes emoções familiares.

Irene levou o irmão para reencontrar-se com a mãe, dona Berenice, que morava em São Pedro da Aldeia. "Minha mãe era vidente, sabia de tudo o que se passava com todos os filhos - coisas certas e erradas", revela o filho, com grande admiração. Em poucos dias, elas planejaram uma festa-surpresa, que reuniria os irmãos, além de grande quantidade de cunhados e sobrinhos de quem Irineu nem sequer suspeitava da existência. "No meio da festa, quando já estavam todos ali reunidos, minha mãe mandou parar o som e anunciou a todos que aquele convidado que ninguém havia reconhecido, ali quieto num canto, era eu! Foi aí que meus irmãos vieram me abraçar e eu não consegui mais parar de chorar naquela noite".

A partir daquele reencontro com a família, Irineu mudou de vida. Foi nessa época que ele começou a trabalhar no Botafogo. A princípio, Irineu pensava que seria remador, mas o clube tinha outros planos. "Eu era muito forte naquele tempo e sem querer acabei quebrando uns remos, que eram de madeira", conta Irineu. "Por causa disso o pessoal do clube achou que, em vez de remar, eu deveria trabalhar na manutenção dos barcos. E deu certo!


Deu tão certo, que hoje é difícil para qualquer pessoa que frequente o Botafogo pensar naquele clube de remo sem a presença constante do Irineu, organizando espaços, distribuindo ordens para todo o mundo. Hoje existem na Lagoa três barcos skiff batizados com o nome de "Irineu": dois no Botafogo e um no Vasco da Gama.

Além disso, acima do portão da garagem onde são guardados os barcos do Botafogo, existe uma placa com o nome do homenageado, "Irineu Ferreira", inaugurada em dia de grande festa no clube.

- Irineu, posso tomar uma água de coco agora e te pagar amanhã? - pergunta Marilia Nutti, aluna da escola de remo do clube.

- Claro que pode, minha filha. Você sabe que mora no meu coração!

Marilia sorri e comenta, enquanto toma o seu coco gelado: "O Irineu é um grande amigo. Aprendi a admirá-lo ainda mais depois que meu filho Victor esteve entre a vida e a morte por causa de uma grave infecção quando tinha poucos meses de vida. O menino foi curado com água de coco, que precisou tomar todos os dias durante mais de seis meses. O Irineu sempre nos ajudou nessa época difícil e, quando eu não podia vir até o clube para comprar o coco, muitas vezes ele se oferecia para levá-lo até a nossa casa. Meu filho, que hoje tem vinte anos, adora o Irineu e desde pequeno o chama de Amigão do Coco."

Além de "Amigão do Coco", Irineu também deveria ser conhecido como o "Amigão da Lagoa", pois além da movimentação dos barcos e remos, está sempre atento à limpeza da água, aos peixes e às aves que vivem ali. Não admite que se jogue lixo em lugar algum, a não ser na lixeira. "A Lagoa está muito melhor hoje do que quando vim para cá, há mais de quarenta anos. Naquele tempo de vez em quando havia mortandade de peixes e um cheiro horrível se espalhava por toda a região. Agora, não: a água está mais limpa, os peixes já não morrem tanto. Quando vejo alguém jogando qualquer coisa na Lagoa, eu dou bronca mesmo: faço a pessoa voltar e catar o lixo que deixou ali. Se todo o mundo fizer isso, a nossa Lagoa vai ficar cada vez melhor e mais bonita."













sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Paulo remador


Antes do sol nascer, Paulo Roberto de Andrade já está lá firme, praticando remo na sede náutica do clube Botafogo, na Lagoa Rodrigo de Freitas.  Aos 48 anos de idade, cabeça grisalha e jeitão descontraído, Paulo se destaca dos jovens atletas que remam neste horário. Mas o que realmente o distingue dos demais é uma alegria contagiante, quase infantil, que ele transmite a cada passada dos remos na água. Remar é uma atividade que obviamente o faz sentir feliz.

"Bom dia!", grita ele de longe, sem parar de remar, assim que reconhece algum amigo olhando em sua direção.

Já no píer, suado e sorridente, Paulo cumprimenta cada um dos remadores que encontra pelo caminho, sempre pronto a ajudá-los a colocar seus barcos na água ou a guardar os remos usados.

Todos no clube sabem do seu entusiasmo por esportes.  Ele participa de quase todas as maratonas e provas de natação promovidas no Rio de Janeiro. Em julho passado, contrariando todas previsões médicas, Paulo completou a maratona da cidade com o auxílio de muletas, quando ainda se recuperava de um acidente.  Não ganhou medalhas, mas em compensação recebeu uma profusão de aplausos, beijos e abraços de um público emocionado.


O que poucos sabem é que, na vida profissional, Paulo se dedica a provas muito mais duras que competições esportivas. Ele é policial militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), força especial de combate ao crime em áreas de alto risco do Rio de Janeiro.  


A ideia de se tornar policial surgiu aos doze anos de idade, quando viu o pai ser assassinado a tiros durante um assalto perto da casa onde moravam, no bairro carioca de Santo Cristo. A morte do pai trouxe mudanças radicais e imediatas na sua vida. O mais velho dos seis filhos, Paulo teve que tomar conta dos irmãos menores, para que a mãe pudesse trabalhar como faxineira. Pouco tempo depois, também ele teve que procurar emprego e, desde então, não parou mais de trabalhar. Já fez um pouco de tudo: foi office-boy, entregador, tratorista, brigadista de paraquedismo da Aeronáutica. "Nunca fiquei desempregado em minha vida", afirma Paulo.  Para garantir maior segurança, resolveu prestar concurso para a Polícia Militar no final dos anos oitenta. Foi assim que Paulo ingressou na Companhia Independente de Operações Especiais (CIOE), órgão precursor do BOPE, que seria criado em 1991.


No âmbito familiar, o destino lhe reservava surpresas extraordinárias, dignas de um romance. A médica oftalmologista Suzana Limmer, que mais tarde viria a ser sua esposa, entrou na vida de Paulo por causa de uma de suas irmãs, que tinha um problema de estrabismo grave. A menina foi levada ao seu consultório pela mãe, mas na época não pôde ser operada por questões financeiras. Foi somente anos mais tarde que a médica voltou a vê-la, desta vez num hospital de Madureira, onde a cirurgia pôde ser finalmente realizada. Suzana, que hoje também rema no Botafogo, relembra o momento em que viu o futuro marido pela primeira vez:  "Eu estava saindo do centro cirúrgico onde tinha acabado de operar a irmã de Paulo. Quando abri a porta e o vi na antessala, ansioso e aflito, aguardando o final da cirurgia, pensei comigo mesma: Que rapaz lindo!"

Naquela época, a ideia de que os dois pudessem vir algum dia a se casar parecia absurda. Suas trajetórias de vida pareciam não ter nada em comum. Suzana era médica, recém-casada, havia sido criada na Zona Sul carioca e a primeira vez que foi a Madureira foi quando começou a trabalhar nesse hospital. Paulo, por sua vez, sempre viveu no subúrbio, teve que enfrentar todos os tipos de dificuldades na vida e não tinha conseguido completar um curso superior. Novas coincidências, entretanto, fizeram com que seus caminhos  voltassem a se cruzar.  Suzana teve um filho, Pedro, mas em seguida se separou do marido. Logo veio a transferência de seu trabalho para  Nilópolis, onde morava a família de Paulo. Quando menos esperavam, Paulo e Suzana se apaixonaram e, em 1992, resolveram se casar.

Alguns anos depois, Pedro ganhou um irmão com o nascimento de Bruno, hoje com dezesseis anos. Foi por causa do Bruno que Paulo começou a remar no Botafogo. "Eu vinha sempre trazê-lo de carro e ficava esperando por ele na beira da Lagoa, observando o pessoal remar", conta Paulo. "Um belo dia, um dos instrutores, o Dragão, me convidou para remar um pouco no tanque e eu gostei da experiência, apesar de não ter tido grande sucesso no começo. Acho até que bati um recorde mundial: eles me fizeram praticar dois meses no tanque antes de me permitirem remar qualquer barco na Lagoa!"

Hoje Paulo rema seu canoe por todos os lados da Lagoa, sem problema.  Com frequência ele é visto praticando largadas curtas junto ao píer, voltando sempre ao mesmo lugar. "Gosto deste exercício, porque sempre tive muita dificuldade para remar em linha reta. Acho que agora já melhorei bastante!"

Persistência parece ser mesmo uma de suas qualidades mais marcantes. Há poucos anos resolveu aprender a nadar para se recuperar de um problema na perna causado por um tiro durante uma operação policial. Além de ter ficado bom da perna, conseguiu também vencer o medo que sentia de nadar em mar aberto e agora participa de quase todas as competições de travessias marítimas no Rio de Janeiro. "Chego a ser chato quando quero alguma coisa que considere realmente importante", diz ele. Já depois de casado, voltou a estudar e formou-se em Fisioterapia. "Agora temos outro doutor na nossa família", brinca Suzana, orgulhosa do marido.

"Sou um homem feliz", diz Paulo. "Tenho saúde, uma esposa maravilhosa, dois filhos ótimos." E resume: "Família é tudo na vida de um homem."






domingo, 15 de agosto de 2010

Boa remada, Dragão!

Quando você estiver lendo este posting,  Bruno e Olga provavelmente já terão tido tempo para matar as saudades, se abraçar e se beijar bastante, felizes com o reencontro depois de quatro meses de separação forçada - ele no Rio de Janeiro, dando aulas de remo no clube Botafogo da Lagoa, e ela na cidade de Trier, Alemanha, cursando faculdade de Direito. Daqui a duas semanas os dois estarão enfim casados e  morando na Alemanha, concretizando um sonho de amor que começou há dois anos no Rio, por um capricho do destino. Um sonho que, para muita gente, parecia impossível.

Muitos só conhecem o Bruno pelo apelido, Dragão, por causa da tatuagem gravada no braço direito. Ele é um dos instrutores que me ensinam a remar na Lagoa, a quem encontro quase todos os dias ao nascer do sol  naquele cenário de cartão postal, sob os braços abertos do Cristo Redentor.

Bruno Nagele tem 30 anos de idade e nasceu em Caxias, RJ, onde passou toda a infância. Os pais se separaram quando ele tinha doze anos de idade e a mãe criou os dois filhos trabalhando em casa de família. Logo Bruno começou a trabalhar como boy de serviços de rua num escritório de advocacia no centro da cidade. Foi nessa época, por mero acaso, que o remo entrou na sua vida. "Um dos sócios da empresa era vice-presidente do clube Botafogo", conta Bruno. "Um dia, quando eu estava para sair de férias, pedi à secretária que falasse com ele, para que me deixasse remar na Lagoa. Quase nem acreditei quando ele disse que eu poderia ir!"

E assim começou a praticar este esporte, que muito o entusiasmou e logo transformaria sua vida. Três meses depois de iniciar a prática do remo, no ano de 2000, conheceu Victor Jahara, professor da escola de remo do Botafogo. Foi o início de uma grande amizade. A dupla competiu diversas vezes em barco double, tendo conquistado três campeonatos cariocas e um brasileiro. Em 2007, os dois remadores resolveram se afastar um pouco do clube para se dedicar à prática de outra modalidade do esporte - canoa havaiana, na Praia Vermelha, Urca. "Mesmo praticando remo longe do clube, a gente sempre vinha ao Botafogo para rever o pessoal e tomar uma água de coco de graça na barraca do Irineu", conta Bruno, bem humorado.

Enquanto isso, do outro lado do oceano Atlântico, a alemã Olga Sempf se dedicava aos estudos na faculdade de Direito na pequena cidade de Trier, a mais antiga da Alemanha, na região do rio Mosela, próximo à fronteira de Luxemburgo. Com 2 mil anos de história, Trier possui inúmeras ruínas romanas, que atraem turistas do mundo todo. Ali nasceu Karl Marx em 1818.

Filha de imigrantes russos, Olga fala vários idiomas e sempre gostou de viajar e conhecer países e culturas diferentes. Depois de ter morado um ano nos Estados Unidos como au pair - isto é, trabalhando na casa de uma família americana em troca de hospedagem - Olga resolveu se aventurar por outros costados e obteve uma bolsa de estudos num programa de intercâmbio acadêmico Brasil-Alemanha (DAAD). E foi assim que ela foi morar em Recife. Aprendeu a falar Português e trabalhou como estagiária na área de Direito.

Como de praxe, o DAAD organizou uma reunião de todos os estudantes alemães que estavam no Brasil num hotel do Leme, no Rio de Janeiro. A reunião teria a duração de apenas três dias. Como Olga nunca tinha visitado a Cidade Maravilhosa, resolveu esticar um pouco a viagem para conhecer melhor os pontos turísticos. Só que lhe faltava um pormenor importante: dinheiro suficiente para se hospedar em hotel.

E foi justamente aí que o destino armou das suas e acabou reunindo a vida do remador carioca à da estudante alemã. Desde 2004 a família de Bruno hospedava estudantes de diversos países no seu apartamento de Copacabana, através do Hospitality Club, uma organização voluntária com associados no mundo todo. Um belo dia, Bruno recebe um e-mail de Olga, perguntando se haveria disponibilidade de hospedagem para ela durante um período de quatro dias. "Naquela época eu estava trabalhando muito, num projeto gráfico de livros infantis", relembra Bruno, que havia concluído um curso de um ano de webdesign. "Por isso eu mal pude dar atenção à solicitação dela e acabamos acertando as datas da hospedagem muito rapidamente."

Foi com grande encantamento que ele viu aquela "menina bonitinha", que falava um Português arretado com sotaque alemão-pernambucano, chegar à sua casa no dia marcado. "Era bem na hora do almoço e eu estava preparando minha comida - massa com molho de camarão", diz Bruno. "Aí eu a convidei para almoçar e, para minha surpresa, ela aceitou e comeu tudinho!" O resto da história é uma sucessão de longas caminhadas pelas praias e pontos turísticos do Rio de Janeiro, que rapidamente conduziram os dois jovens a um clima de enamoramento. Mas Bruno lembra que a conquista foi muito difícil, pois Olga achava que não tinha sentido começar um namoro, já que dali a poucos dias teria que viajar de volta ao Recife. "Tive que insistir muito para conseguir convencê-la de que o nosso namoro iria dar certo", disse ele.

Olga retornou ao seu estágio. Apenas três semanas depois, lá estava o Bruno a bordo de um avião, voando para reencontrar a namorada. O amor foi mais forte do que todas as dificuldades geográficas e os dois continuaram a se encontrar. Olga veio morar no Rio e aprendeu a remar na Lagoa. O pai de Bruno, com quem ele sempre manteve uma relação afetuosa, adoeceu gravemente neste período. O casal acompanhou de perto seus últimos meses de vida, viajando de duas a três vezes por semana do Rio para Petrópolis para visitá-lo. "Meu pai adorou conhecer a Olguinha e dizia que eu tinha muita sorte de ter encontrado aquele anjo", disse Bruno.

No dia 1º de setembro do ano passado, Bruno e Olga ficaram noivos. Em dezembro, dois dias depois de Bruno terminar a faculdade de Informática, seu pai faleceu. No dia seguinte, depois do enterro, Bruno foi trabalhar, mas não contou nada do ocorrido a ninguém. "E eu ainda levei bronca do Irineu por ter chegado atrasado naquele dia", relembra, com um sorriso triste. "Mas depois, quando ele soube do motivo, me abraçou muito."

Logo em seguida, Bruno embarcou para a Alemanha, em sua primeira viagem  fora do Brasil. Conheceu os futuros sogros, ("Os primeiros minutos foram aterrorisantes para mim! Eu não conseguia falar uma palavra que eles entendessem", diz ele), viu neve pela primeira vez e passou o Natal com a família Sempf que, afinal, o recebeu muito bem. Quando voltou ao Brasil, Bruno começou a estudar Alemão no Instituto Goethe e já completou o nível 1. Por exigência do governo, ele precisa estudar seiscentas horas (ao custo de 1 euro por hora) e passar no nível 4 para poder trabalhar lá. A motivação é tanta, que ninguém duvida que Bruno conseguirá atingir este objetivo rapidinho.

No próximo dia 3 de setembro Bruno e Olga se casam no civil e, no dia 9 de outubro, no religioso. Felicidades ao casal! A turma do remo vai sentir muitas saudades do Bruno e do seu jeito sempre amável de dizer para a gente, na hora de sair com o barco na lagoa: "Boa remada!"



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Quem quiser ver imagens da cidade de Trier (ou Téveris),
onde Bruno e Olga irão morar, pode clicar aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=NuMbd6WEp5s