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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Encontros em Jericoacoara (3) - Gente que brilha

É difícil fotografar a beleza de um lugar que a gente visita. Quase sempre as imagens mais belas – aquelas que permanecem na nossa lembrança muitos anos depois - ficam escondidas atrás de sua gente, dos pequenos gestos, da conversinha miúda.
Jericoacoara é desses lugares que deixam a gente meio desorientada numa primeira viagem, sem saber em que concentrar nosso olhar de turista, sempre ávido por novidades:  se na beleza das praias ou na das pessoas em quem esbarramos a cada momento.

Ricardo é um desses habitantes de Jeri que fazem a gente refletir sobre as nossas próprias escolhas de vida. Nascido e criado na cidade de São Paulo, um belo dia se cansou da selva de pedra e resolveu se mudar de mala e cuia para recomeçar a vida no litoral nordestino.  As velhas receitas da avó libanesa inspiram hoje o
cardápio do seu simpático restaurante árabe Káfila,  bem no centro de Jeri, onde a comida é simples, mas satisfaz. Gostoso, mesmo, é conversar com ele sobre a vida que leva ao lado da esposa Susana e do filho do casal, Gabriel, de cinco anos.  Sem pressa e sem pontos de exclamação, ele fala com a serenidade de quem não tem dúvidas sobre a decisão de se mudar para lá.  “Meu filho brinca na rua, todo o mundo conhece ele por aqui, vai a uma escolinha maravilhosa perto da nossa casa e ainda pode ir a praia todos os dias... Em São Paulo eu jamais teria condições financeiras de proporcionar uma vida tão rica quanto essa para ele.”

Além de trabalhar no restaurante, Ricardo também é instrutor de kitesurf – a modalidade de esporte mais popular da região, que atrai gente do mundo inteiro, por causa dos ventos que não param de soprar sobre o belo mar de água morna, especialmente no segundo semestre. Sua maior preocupação como instrutor deste esporte radical é a segurança. O curso básico leva três dias, cada um com três horas de muita teoria e alguma prática, num total de nove horas de instrução. O mais importante, segundo Ricardo, é o aluno não ter pressa para entrar no mar e realizar manobras radicais. Com calma e responsabilidade, cada um aprende a respeitar os proprios limites e a se divertir no mar, qualquer que seja a sua idade. Seu aluno mais idoso tem mais de oitenta anos e o mais jovem, apenas sete. Muito em breve ele irá ganhar um aluno ainda mais novo: seu filho Gabriel, que deve começar as aulas este ano.

                                                        **********
Todos os dias antes do sol nascer, as ajudantes de cozinha Val e Maria saem da pequena cidade litorânea de Preá para chegar à pousada de Jeri onde trabalham. O trajeto de van leva cerca de uma hora. Quando o primeiro hóspede da pousada aparece no restaurante para tomar o café da manhã, elas já assaram três tipos diferentes de bolo, prepararam diversos sucos de frutas,  arrumaram as mesinhas e guarneceram o buffet de quitutes nordestinos.  Quando algum hóspede chega, elas se apressam a lhe trazer o cardápio com as opções do dia, sorridentes e discretas, sempre falando o mínimo necessário. Poucos hóspedes lhes prestam atenção. Eu também me distraio e, para falar a verdade, quase não reparo nelas – são tantas as atrações que nos esperam na mesa e na praia!
Num dia de sol, resolvo sair para almoçar num dos vários restaurantes de Jeri, bem distante da minha pousada. Quando termino de comer, de uma hora para a outra o céu fica negro e uma tempestade assustadora me pega completamente desprevenida.
São raios e trovões para todos os lados. O aguaceiro torrencial me força a buscar refúgio sob um pedaço ridiculamente pequeno de telhado, meus pés já afundados na água barrenta que corre pela rua de terra. Fico imóvel, prisioneira daquele arremedo de telhado. É inútil tentar sair dali.
De repente, do outro lado da rua, vejo dois pares de olhos que me observam atentamente. São Val e Maria, que já estão comodamente abrigadas da chuva, dentro da van que dali a poucos minutos irá levá-las de volta a Preá. As duas cochicham algumas palavras entre si e em seguida uma delas – Maria – de repente salta da van e corre em minha direção para me entregar seu proprio guarda-chuva, com um enorme sorriso no rosto. Reparo que ela ficou com a roupa e o cabelo encharcados. Constrangida, tento lhe dizer que não posso aceitar aquela generosidade que me parece excessiva, mas ela insiste: “Não se preocupe, pode deixar o guarda-chuva na pousada que eu o pego lá amanhã!” E volta correndo para a van debaixo do temporal, para iniciar sua viagem de volta para casa - só que hoje ela irá com a roupa molhada.


Enquanto caminho de volta à pousada, sob a proteção daquele guarda-chuva providencial,  sinto um misto de gratidão e, principalmente, admiração. O poema famoso de Mayakovsky me vem à cabeça:

Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é para brilhar...

No dia seguinte, quando fui tomar meu café da manhã, Maria e Val já estavam lá à minha espera, sorridentes como sempre. Depois do clic da foto, um trecho da música Gente do Caetano me faz cantarolar mentalmente e me acompanha pelo resto do dia:

Gente espelho da vida, doce mistério...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Irineu, o Amigão da Lagoa



Muito antes da calçada à beira da Lagoa virar um dos pontos mais badalados da Zona Sul carioca, Irineu Ferreira já vendia coco junto ao clube de remo do Botafogo, próximo à Curva do Calombo. "Fui o primeiro vendedor de coco que se instalou aqui na Lagoa", diz ele, com orgulho. "Antes era só na praia que havia coco para comprar."  Desde 1963, Irineu trabalhou na manutenção dos barcos e da garagem do clube, atividade que exerceu por 48 anos até se aposentar no ano passado. Naquele tempo, a avenida Epitacio Pessoa era tão sossegada que na hora do almoço Irineu costumava jogar futebol na pista com os colegas.


Apesar de aposentado, o dia começa cedo do mesmo jeito para Irineu: às quatro da manhã já está de pé, varrendo as folhas das árvores que dão sombra ao clube. Ao nascer do sol, Irineu já está orientando os primeiros remadores que chegam para retirar os barcos da garagem, em alto e bom som:

- Vambora, galera! Vocês estão aí parados esperando o quê? Vamos logo, que tem mais gente chegando!

 Todos sabem que o tom é brincalhão, mas a bronca é para valer - e por isso se apressam, obedientes, para dar início logo às atividades do dia.

Irineu nasceu em Araruama, no dia 15 de dezembro de 1928, numa família de catorze irmãos. Depois que o pai morreu e a mãe se casou de novo, a vida do pequeno Irineu sofreu uma reviravolta radical. Inconformado com a chegada do padrasto, resolveu fugir de casa. Tinha apenas onze anos de idade e nenhuma ideia do que fazer para ganhar a vida sozinho. O menino se virou como pôde: trabalhou em colheita de laranja e algodão, cortou cana, tirou leite de vaca, dormiu em banco de praça. "Teve um dia que eu quase morri amassado por um touro, enquanto dormia num curral", relembra, achando graça na história.

Talvez por ter passado tantas dificuldades é que hoje valorize tanto a pequena casa onde mora, construída por ele mesmo dentro do clube. "Tenho um orgulho danado da minha casa e gosto de deixar tudo arrumado, direitinho", diz Irineu. "Sou eu mesmo quem prepara a minha comida, sei cozinhar de tudo: arroz, feijão, frango assado, peixe, empada, espinafre refogado... Também lavo e passo toda a minha roupa. Um homem que vive sozinho tem que aprender a fazer essas coisas todas." Paz de espírito é um dos elementos que mais preza na vida. É devoto de Nossa Senhora de Aparecida, da qual tem três imagens em casa. Não gosta de bebidas alcoólicas: prefere tomar suco de frutas e água de coco. Brincar o Carnaval, nem pensar: só mesmo na televisão.

Irineu cultiva hábitos simples: gosta de pescar, ver televisão e conversar com os amigos que param para conversar na barraca do coco. "Conheci muita gente famosa por aqui, como a Regina Casé, o Tony Ramos, o Ney Latorraca, o Agildo Ribeiro...", conta satisfeito. "Outro dia quem tomou água de coco na minha barraca foi o Eike Batista, que vem sempre correr aqui na Lagoa."

Mas Irineu nem sempre esteve cercado de amigos. A partir do dia em que fugiu de casa, deixando a mãe e os irmãos para trás, teve que enfrentar todo o tipo de adversidades sozinho. Como tinha grande força física, quis ser boxeador e chegou a ganhar "uns trocados" com o esporte. Também tentou a sorte no futebol - esteve no Fluminense para competir por uma vaga de goleiro, mas logo desistiu.  Aos 35 anos de idade, Irineu se cansou da solidão e resolveu procurar de novo a família, que ele não via desde criança.  Foi nesse momento que sua vida deu uma nova guinada radical - só que, desta vez,  foi para melhor. A história deste reencontro é digna de um filme e Irineu a conta com um sorriso largo, carregado de emoção: "Eu não via minha irmã gêmea, Irene, desde que tínhamos onze anos de idade.  Um dia soube onde ela morava e a fiquei seguindo durante três dias - na rua, no ônibus... Por onde ela ia, eu ia atrás. Até que um dia ela veio falar comigo, zangada por estar sendo seguida por um estranho!" Depois que Irineu se identificou, houve uma sucessão de grandes emoções familiares.

Irene levou o irmão para reencontrar-se com a mãe, dona Berenice, que morava em São Pedro da Aldeia. "Minha mãe era vidente, sabia de tudo o que se passava com todos os filhos - coisas certas e erradas", revela o filho, com grande admiração. Em poucos dias, elas planejaram uma festa-surpresa, que reuniria os irmãos, além de grande quantidade de cunhados e sobrinhos de quem Irineu nem sequer suspeitava da existência. "No meio da festa, quando já estavam todos ali reunidos, minha mãe mandou parar o som e anunciou a todos que aquele convidado que ninguém havia reconhecido, ali quieto num canto, era eu! Foi aí que meus irmãos vieram me abraçar e eu não consegui mais parar de chorar naquela noite".

A partir daquele reencontro com a família, Irineu mudou de vida. Foi nessa época que ele começou a trabalhar no Botafogo. A princípio, Irineu pensava que seria remador, mas o clube tinha outros planos. "Eu era muito forte naquele tempo e sem querer acabei quebrando uns remos, que eram de madeira", conta Irineu. "Por causa disso o pessoal do clube achou que, em vez de remar, eu deveria trabalhar na manutenção dos barcos. E deu certo!


Deu tão certo, que hoje é difícil para qualquer pessoa que frequente o Botafogo pensar naquele clube de remo sem a presença constante do Irineu, organizando espaços, distribuindo ordens para todo o mundo. Hoje existem na Lagoa três barcos skiff batizados com o nome de "Irineu": dois no Botafogo e um no Vasco da Gama.

Além disso, acima do portão da garagem onde são guardados os barcos do Botafogo, existe uma placa com o nome do homenageado, "Irineu Ferreira", inaugurada em dia de grande festa no clube.

- Irineu, posso tomar uma água de coco agora e te pagar amanhã? - pergunta Marilia Nutti, aluna da escola de remo do clube.

- Claro que pode, minha filha. Você sabe que mora no meu coração!

Marilia sorri e comenta, enquanto toma o seu coco gelado: "O Irineu é um grande amigo. Aprendi a admirá-lo ainda mais depois que meu filho Victor esteve entre a vida e a morte por causa de uma grave infecção quando tinha poucos meses de vida. O menino foi curado com água de coco, que precisou tomar todos os dias durante mais de seis meses. O Irineu sempre nos ajudou nessa época difícil e, quando eu não podia vir até o clube para comprar o coco, muitas vezes ele se oferecia para levá-lo até a nossa casa. Meu filho, que hoje tem vinte anos, adora o Irineu e desde pequeno o chama de Amigão do Coco."

Além de "Amigão do Coco", Irineu também deveria ser conhecido como o "Amigão da Lagoa", pois além da movimentação dos barcos e remos, está sempre atento à limpeza da água, aos peixes e às aves que vivem ali. Não admite que se jogue lixo em lugar algum, a não ser na lixeira. "A Lagoa está muito melhor hoje do que quando vim para cá, há mais de quarenta anos. Naquele tempo de vez em quando havia mortandade de peixes e um cheiro horrível se espalhava por toda a região. Agora, não: a água está mais limpa, os peixes já não morrem tanto. Quando vejo alguém jogando qualquer coisa na Lagoa, eu dou bronca mesmo: faço a pessoa voltar e catar o lixo que deixou ali. Se todo o mundo fizer isso, a nossa Lagoa vai ficar cada vez melhor e mais bonita."













sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Paulo remador


Antes do sol nascer, Paulo Roberto de Andrade já está lá firme, praticando remo na sede náutica do clube Botafogo, na Lagoa Rodrigo de Freitas.  Aos 48 anos de idade, cabeça grisalha e jeitão descontraído, Paulo se destaca dos jovens atletas que remam neste horário. Mas o que realmente o distingue dos demais é uma alegria contagiante, quase infantil, que ele transmite a cada passada dos remos na água. Remar é uma atividade que obviamente o faz sentir feliz.

"Bom dia!", grita ele de longe, sem parar de remar, assim que reconhece algum amigo olhando em sua direção.

Já no píer, suado e sorridente, Paulo cumprimenta cada um dos remadores que encontra pelo caminho, sempre pronto a ajudá-los a colocar seus barcos na água ou a guardar os remos usados.

Todos no clube sabem do seu entusiasmo por esportes.  Ele participa de quase todas as maratonas e provas de natação promovidas no Rio de Janeiro. Em julho passado, contrariando todas previsões médicas, Paulo completou a maratona da cidade com o auxílio de muletas, quando ainda se recuperava de um acidente.  Não ganhou medalhas, mas em compensação recebeu uma profusão de aplausos, beijos e abraços de um público emocionado.


O que poucos sabem é que, na vida profissional, Paulo se dedica a provas muito mais duras que competições esportivas. Ele é policial militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), força especial de combate ao crime em áreas de alto risco do Rio de Janeiro.  


A ideia de se tornar policial surgiu aos doze anos de idade, quando viu o pai ser assassinado a tiros durante um assalto perto da casa onde moravam, no bairro carioca de Santo Cristo. A morte do pai trouxe mudanças radicais e imediatas na sua vida. O mais velho dos seis filhos, Paulo teve que tomar conta dos irmãos menores, para que a mãe pudesse trabalhar como faxineira. Pouco tempo depois, também ele teve que procurar emprego e, desde então, não parou mais de trabalhar. Já fez um pouco de tudo: foi office-boy, entregador, tratorista, brigadista de paraquedismo da Aeronáutica. "Nunca fiquei desempregado em minha vida", afirma Paulo.  Para garantir maior segurança, resolveu prestar concurso para a Polícia Militar no final dos anos oitenta. Foi assim que Paulo ingressou na Companhia Independente de Operações Especiais (CIOE), órgão precursor do BOPE, que seria criado em 1991.


No âmbito familiar, o destino lhe reservava surpresas extraordinárias, dignas de um romance. A médica oftalmologista Suzana Limmer, que mais tarde viria a ser sua esposa, entrou na vida de Paulo por causa de uma de suas irmãs, que tinha um problema de estrabismo grave. A menina foi levada ao seu consultório pela mãe, mas na época não pôde ser operada por questões financeiras. Foi somente anos mais tarde que a médica voltou a vê-la, desta vez num hospital de Madureira, onde a cirurgia pôde ser finalmente realizada. Suzana, que hoje também rema no Botafogo, relembra o momento em que viu o futuro marido pela primeira vez:  "Eu estava saindo do centro cirúrgico onde tinha acabado de operar a irmã de Paulo. Quando abri a porta e o vi na antessala, ansioso e aflito, aguardando o final da cirurgia, pensei comigo mesma: Que rapaz lindo!"

Naquela época, a ideia de que os dois pudessem vir algum dia a se casar parecia absurda. Suas trajetórias de vida pareciam não ter nada em comum. Suzana era médica, recém-casada, havia sido criada na Zona Sul carioca e a primeira vez que foi a Madureira foi quando começou a trabalhar nesse hospital. Paulo, por sua vez, sempre viveu no subúrbio, teve que enfrentar todos os tipos de dificuldades na vida e não tinha conseguido completar um curso superior. Novas coincidências, entretanto, fizeram com que seus caminhos  voltassem a se cruzar.  Suzana teve um filho, Pedro, mas em seguida se separou do marido. Logo veio a transferência de seu trabalho para  Nilópolis, onde morava a família de Paulo. Quando menos esperavam, Paulo e Suzana se apaixonaram e, em 1992, resolveram se casar.

Alguns anos depois, Pedro ganhou um irmão com o nascimento de Bruno, hoje com dezesseis anos. Foi por causa do Bruno que Paulo começou a remar no Botafogo. "Eu vinha sempre trazê-lo de carro e ficava esperando por ele na beira da Lagoa, observando o pessoal remar", conta Paulo. "Um belo dia, um dos instrutores, o Dragão, me convidou para remar um pouco no tanque e eu gostei da experiência, apesar de não ter tido grande sucesso no começo. Acho até que bati um recorde mundial: eles me fizeram praticar dois meses no tanque antes de me permitirem remar qualquer barco na Lagoa!"

Hoje Paulo rema seu canoe por todos os lados da Lagoa, sem problema.  Com frequência ele é visto praticando largadas curtas junto ao píer, voltando sempre ao mesmo lugar. "Gosto deste exercício, porque sempre tive muita dificuldade para remar em linha reta. Acho que agora já melhorei bastante!"

Persistência parece ser mesmo uma de suas qualidades mais marcantes. Há poucos anos resolveu aprender a nadar para se recuperar de um problema na perna causado por um tiro durante uma operação policial. Além de ter ficado bom da perna, conseguiu também vencer o medo que sentia de nadar em mar aberto e agora participa de quase todas as competições de travessias marítimas no Rio de Janeiro. "Chego a ser chato quando quero alguma coisa que considere realmente importante", diz ele. Já depois de casado, voltou a estudar e formou-se em Fisioterapia. "Agora temos outro doutor na nossa família", brinca Suzana, orgulhosa do marido.

"Sou um homem feliz", diz Paulo. "Tenho saúde, uma esposa maravilhosa, dois filhos ótimos." E resume: "Família é tudo na vida de um homem."






quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Minha cabeça fugiu!

Daqui a quatro dias meu pai faz 90 anos.

De manhã cedo dou uma passada no apartamento dele, só para ver se está tudo em ordem. Entro na sala e encontro meu pai sentado no velho sofá, imóvel. Não há ninguém por perto, mas ele parece confortável no silêncio.

"Bom dia, papai!"

Com certo esforço, ele se vira devagar e sorri quando me vê:  "Oi, minha filha!"

Sento-me a seu lado e puxo a conversa de sempre: "Dormiu bem hoje?" Ele ergue os ombros, como se a banalidade do assunto não justificasse resposta.

"E o jornal? Já leu as notícias?"  O calhamaço de papel continua ali em cima da mesa,  ainda dobrado do jeito como foi entregue à porta. Os olhos de meu pai passeiam indiferentes pelas manchetes do dia.  Mais silêncio.

Tento alegrá-lo: "Está todo o mundo animado para vir à sua festa de aniversário!" Sei que me ouve e o assunto lhe interessa, mas continua calado. Resolvo então repetir a grande notícia familiar, já tantas vezes anunciada: "Todos os seus quatro netos vão estar aqui para festejar o grande dia com você!"

De repente algo estranho acontece no olhar do meu pai. Percebo nele uma faísca de vitalidade nervosa, como se quisesse me contar um segredo importante. Chego mais perto para não perder a chance de compartilhar este raro momento de intimidade. Meu pai me olha fixo nos olhos e confidencia:

"Minha cabeça fugiu!"

Junto com a cabeça, fugiram também lembranças de alguns dos momentos mais preciosos dos 90 anos de existência daquele homem que, nascido em Belém do Pará, mudou-se aos 17 anos para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.  Tento avaliar o que restou impresso na memória de tantas coisas vividas - o casamento com minha mãe, o nascimento das duas filhas, o trabalho no hospital, a chegada dos netos. Quando se aposentou, resolveu se dedicar ao estudo da mitologia grega, apenas pelo prazer de ler histórias e desvendar as ramificações absurdas da imensa árvore genealógica das divindades do Olimpo, muitas das quais ele conhecia de cor.

Agora,  às vésperas de completar 90 anos, meu pai não consegue visualizar as ramificações de uma  árvore genealógica bem menos complicada que a dos deuses gregos: a que ele próprio plantou, aqui na terra dos homens.

Um fato recente o deixa perplexo:  de repente, sem qualquer aviso prévio, os nomes dos quatro netos desapareceram de sua memória. Puf! Simplesmente sumiram. Por mais que se esforce, não consegue se lembrar do nome de nenhum deles.

Vou buscar fotos antigas em portarrretratos que estão espalhados pelo apartamento e as coloco sobre a mesa à sua frente. Quatro rostinhos, captados em diversas épocas e lugares por câmeras fotográficas da era pré-digital, sorriem para ele. Aos poucos, os nomes dos quatro netos recobram o lugar que lhes é de direito, na cabeça "fujona" do avô: Flavio, Isabel, Michael, Alice.

A velhice é um  mundo estranho.

Vai ser bom celebrar os 90 anos do meu pai, com a família reunida.

domingo, 15 de agosto de 2010

Boa remada, Dragão!

Quando você estiver lendo este posting,  Bruno e Olga provavelmente já terão tido tempo para matar as saudades, se abraçar e se beijar bastante, felizes com o reencontro depois de quatro meses de separação forçada - ele no Rio de Janeiro, dando aulas de remo no clube Botafogo da Lagoa, e ela na cidade de Trier, Alemanha, cursando faculdade de Direito. Daqui a duas semanas os dois estarão enfim casados e  morando na Alemanha, concretizando um sonho de amor que começou há dois anos no Rio, por um capricho do destino. Um sonho que, para muita gente, parecia impossível.

Muitos só conhecem o Bruno pelo apelido, Dragão, por causa da tatuagem gravada no braço direito. Ele é um dos instrutores que me ensinam a remar na Lagoa, a quem encontro quase todos os dias ao nascer do sol  naquele cenário de cartão postal, sob os braços abertos do Cristo Redentor.

Bruno Nagele tem 30 anos de idade e nasceu em Caxias, RJ, onde passou toda a infância. Os pais se separaram quando ele tinha doze anos de idade e a mãe criou os dois filhos trabalhando em casa de família. Logo Bruno começou a trabalhar como boy de serviços de rua num escritório de advocacia no centro da cidade. Foi nessa época, por mero acaso, que o remo entrou na sua vida. "Um dos sócios da empresa era vice-presidente do clube Botafogo", conta Bruno. "Um dia, quando eu estava para sair de férias, pedi à secretária que falasse com ele, para que me deixasse remar na Lagoa. Quase nem acreditei quando ele disse que eu poderia ir!"

E assim começou a praticar este esporte, que muito o entusiasmou e logo transformaria sua vida. Três meses depois de iniciar a prática do remo, no ano de 2000, conheceu Victor Jahara, professor da escola de remo do Botafogo. Foi o início de uma grande amizade. A dupla competiu diversas vezes em barco double, tendo conquistado três campeonatos cariocas e um brasileiro. Em 2007, os dois remadores resolveram se afastar um pouco do clube para se dedicar à prática de outra modalidade do esporte - canoa havaiana, na Praia Vermelha, Urca. "Mesmo praticando remo longe do clube, a gente sempre vinha ao Botafogo para rever o pessoal e tomar uma água de coco de graça na barraca do Irineu", conta Bruno, bem humorado.

Enquanto isso, do outro lado do oceano Atlântico, a alemã Olga Sempf se dedicava aos estudos na faculdade de Direito na pequena cidade de Trier, a mais antiga da Alemanha, na região do rio Mosela, próximo à fronteira de Luxemburgo. Com 2 mil anos de história, Trier possui inúmeras ruínas romanas, que atraem turistas do mundo todo. Ali nasceu Karl Marx em 1818.

Filha de imigrantes russos, Olga fala vários idiomas e sempre gostou de viajar e conhecer países e culturas diferentes. Depois de ter morado um ano nos Estados Unidos como au pair - isto é, trabalhando na casa de uma família americana em troca de hospedagem - Olga resolveu se aventurar por outros costados e obteve uma bolsa de estudos num programa de intercâmbio acadêmico Brasil-Alemanha (DAAD). E foi assim que ela foi morar em Recife. Aprendeu a falar Português e trabalhou como estagiária na área de Direito.

Como de praxe, o DAAD organizou uma reunião de todos os estudantes alemães que estavam no Brasil num hotel do Leme, no Rio de Janeiro. A reunião teria a duração de apenas três dias. Como Olga nunca tinha visitado a Cidade Maravilhosa, resolveu esticar um pouco a viagem para conhecer melhor os pontos turísticos. Só que lhe faltava um pormenor importante: dinheiro suficiente para se hospedar em hotel.

E foi justamente aí que o destino armou das suas e acabou reunindo a vida do remador carioca à da estudante alemã. Desde 2004 a família de Bruno hospedava estudantes de diversos países no seu apartamento de Copacabana, através do Hospitality Club, uma organização voluntária com associados no mundo todo. Um belo dia, Bruno recebe um e-mail de Olga, perguntando se haveria disponibilidade de hospedagem para ela durante um período de quatro dias. "Naquela época eu estava trabalhando muito, num projeto gráfico de livros infantis", relembra Bruno, que havia concluído um curso de um ano de webdesign. "Por isso eu mal pude dar atenção à solicitação dela e acabamos acertando as datas da hospedagem muito rapidamente."

Foi com grande encantamento que ele viu aquela "menina bonitinha", que falava um Português arretado com sotaque alemão-pernambucano, chegar à sua casa no dia marcado. "Era bem na hora do almoço e eu estava preparando minha comida - massa com molho de camarão", diz Bruno. "Aí eu a convidei para almoçar e, para minha surpresa, ela aceitou e comeu tudinho!" O resto da história é uma sucessão de longas caminhadas pelas praias e pontos turísticos do Rio de Janeiro, que rapidamente conduziram os dois jovens a um clima de enamoramento. Mas Bruno lembra que a conquista foi muito difícil, pois Olga achava que não tinha sentido começar um namoro, já que dali a poucos dias teria que viajar de volta ao Recife. "Tive que insistir muito para conseguir convencê-la de que o nosso namoro iria dar certo", disse ele.

Olga retornou ao seu estágio. Apenas três semanas depois, lá estava o Bruno a bordo de um avião, voando para reencontrar a namorada. O amor foi mais forte do que todas as dificuldades geográficas e os dois continuaram a se encontrar. Olga veio morar no Rio e aprendeu a remar na Lagoa. O pai de Bruno, com quem ele sempre manteve uma relação afetuosa, adoeceu gravemente neste período. O casal acompanhou de perto seus últimos meses de vida, viajando de duas a três vezes por semana do Rio para Petrópolis para visitá-lo. "Meu pai adorou conhecer a Olguinha e dizia que eu tinha muita sorte de ter encontrado aquele anjo", disse Bruno.

No dia 1º de setembro do ano passado, Bruno e Olga ficaram noivos. Em dezembro, dois dias depois de Bruno terminar a faculdade de Informática, seu pai faleceu. No dia seguinte, depois do enterro, Bruno foi trabalhar, mas não contou nada do ocorrido a ninguém. "E eu ainda levei bronca do Irineu por ter chegado atrasado naquele dia", relembra, com um sorriso triste. "Mas depois, quando ele soube do motivo, me abraçou muito."

Logo em seguida, Bruno embarcou para a Alemanha, em sua primeira viagem  fora do Brasil. Conheceu os futuros sogros, ("Os primeiros minutos foram aterrorisantes para mim! Eu não conseguia falar uma palavra que eles entendessem", diz ele), viu neve pela primeira vez e passou o Natal com a família Sempf que, afinal, o recebeu muito bem. Quando voltou ao Brasil, Bruno começou a estudar Alemão no Instituto Goethe e já completou o nível 1. Por exigência do governo, ele precisa estudar seiscentas horas (ao custo de 1 euro por hora) e passar no nível 4 para poder trabalhar lá. A motivação é tanta, que ninguém duvida que Bruno conseguirá atingir este objetivo rapidinho.

No próximo dia 3 de setembro Bruno e Olga se casam no civil e, no dia 9 de outubro, no religioso. Felicidades ao casal! A turma do remo vai sentir muitas saudades do Bruno e do seu jeito sempre amável de dizer para a gente, na hora de sair com o barco na lagoa: "Boa remada!"



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Quem quiser ver imagens da cidade de Trier (ou Téveris),
onde Bruno e Olga irão morar, pode clicar aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=NuMbd6WEp5s

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A música do segundo andar


No começo eu me assustava com o volume alto da guitarra que entrava sem avisar pela janela do nosso apartamento no Rio de Janeiro. Só me faltava essa! Parava o que estava fazendo e aguçava o ouvido. Quem seria aquele vizinho folgado, com coragem de ligar o aparelho de som nesse volume, a essas horas da noite? - eu me perguntava, num misto de indignação e curiosidade. Mas logo a melodia esperta e suave que vinha do segundo andar me imobilizava.

Era fácil reconhecer alguns dos compositores brasileiros, sempre da melhor qualidade: Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim, Caetano Veloso... O difícil era identificar de onde vinham aqueles acordes diferentes, que brotavam inesperados como num tango argentino. Cada nota extraída daquela guitarra me soava como uma carícia na noite, insidiosa e elegante.

"Esse guitarrista é bom demais, deve ser algum músico profissional", comento, encantada, com meu marido. "E como é que você sabe que é um homem que está tocando essa música -  e não uma mulher?" Pelo tom desafiante da pergunta percebo, mal contendo o riso, que ele está com ciúmes do vizinho invisível. "Eu sei, simplesmente, e pronto. Acho que a gente deveria dar graças a Deus de ter um vizinho assim, que gosta deste tipo de música, tão bonita e sofisticada... Já pensou se fosse um pagodeiro?"

Meu marido é obrigado a concordar: "É... pensando bem..."  E, a despeito dele próprio, também interrompe o que está fazendo para curtir a música celestial que invade a nossa casa. Mas logo abandona o devaneio, inquieto. "Acho que não tem músico nenhum lá em cima, não. Deve ser algum CD que o vizinho está tocando alto...", pondera o maridão, louco para encerrar de vez a minha tietagem.   Bem neste momento, a guitarra interrompe a bela melodia que está tocando para recomeçá-la em seguida. Agora não há dúvidas. Fica óbvio que não estamos ouvindo um CD, mas o trabalho cuidadoso de um músico em busca da interpretação perfeita.

As "canjas" do vizinho do segundo andar agora fazem parte do nosso ambiente doméstico. E nós as saboreamos com gosto, qualquer que seja a hora. Em geral duram pouco, não mais que cinco ou dez minutos. Houve uma vez em que o guitarrista  nos despertou do mais profundo sono no meio da noite, mas sinceramente nem liguei: além da melodia ser divina, o concerto da madrugada foi de curtíssima duração, não teve mais do que alguns poucos acordes. Quando a guitarra enfim se calou, voltei imediatamente, feliz e embalada, aos braços de Morfeu.

Minha curiosidade para identificar o guitarrista do segundo andar foi maior que a atitude blasée que eu vinha tentando manter há meses no meu prédio. Há poucos dias não me contive e perguntei ao porteiro, torcendo para ninguém mais me ouvir: "Aquele vizinho do segundo andar é um músico profissional... não é?" Foi aí que fiquei sabendo: meu vizinho é o grande Victor Biglione, um dos maiores guitarristas e violonistas da atualidade, arranjador de peso que, entre outros prêmios, conquistou o Grammy Latino ao lado de Milton Nascimento. Nasceu em Buenos Aires, mas veio para o Brasil quando tinha apenas seis anos de idade. Apaixonou-se pela música brasileira e já tocou com mais de trezentos nomes da MPB,  mas felizmente nunca permitiu que o tango o deixasse. Que mistura boa ganhamos todos aqui no Brasil!

Gracias por la buena musica, vecino!

domingo, 18 de julho de 2010

Amor no CTI

Há cinco dias não tenho feito outra coisa senão entrar e sair de hospital.  É que meu pai levou um tombo em casa e foi atendido no setor de emergência de uma clínica. Devido à idade avançada, foi internado no Centro de Tratamento Intensivo, sob observação médica nas primeiras 24 horas.

Ambiente de CTI é quase sempre surreal, com aquele exército de enfermeiros, médicos e faxineiros marchando resolutos para baixo e para cima por entre os leitos,  enquanto pacientes e acompanhantes buscam, humildes e ansiosos, um sinal qualquer que lhes devolva um pouco da sensação de normalidade.

Pois esta semana eu estava eu ali dentro do CTI pensando nessas coisas, lastimando minha falta de sorte, quando uma visão inesperada me atraiu como um raio de luz: indiferente à movimentação na área, ali à frente estava um casal de cabelos grisalhos, namorando-se ternamente com os olhos, sem dizer palavra.

Quantos anos poderiam ter aqueles dois? Sessenta e cinco? Setenta? Ele estava deitado na beirada do leito, o corpo totalmente voltado para o lado de sua companheira, quase escorregando para fora dos lençóis. Ela, sentada na beirada de uma cadeira, olhava atenta e tranquila o rosto do velho companheiro, com uma expressão sorridente. Poucos centímetros separavam um do outro. Os dois olhares se encontravam e isso lhes bastava.

A impressão que eu tinha era de que os dois atuavam na cena de um filme, com música romântica ao fundo. De repente, aqueles monitores estressantes, com seu emaranhado de fios e alarmes, me pareciam equipamentos estilosos de filmagem hollywoodiana. Havia luz, câmera e ação no meu mundo imaginário - e muito amor na vida real.

Parei de imaginar coisas e resolvi deixar o casal em paz, para voltar aos meus afazeres.

No final do horário permitido às visitas, já esquecida do casal romântico, eu me dirigi à saída junto com os outros acompanhantes, todos com a mesma aparência cansada. Hora de ir para casa e relaxar um pouco, enfim. Inesperadamente, uma voz feminina, clara e firme se ouviu à porta do elevador: "Até amanhã para todos!" A leveza da voz surpreendeu o grupo circunspecto, deixando-nos alguns momentos sem reação. Por fim, dois ou três responderam com resmungos rápidos e tímidos: "Hummm... até..."

E lá se foi a senhora dos cabelos grisalhos, lépida e cheia de energia boa, cuidar da vida lá fora.

Quem a vir caminhando pela calçada nem vai desconfiar que metade de seu coração estará batendo longe dela, num box de CTI.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Vamos brincar?

Domingo fiz um programa divertido, sem sair de casa nem gastar um tostão: brinquei no quintal com um grupo de amigos. Quando digo "brinquei", é no sentido mais simples e literal da palavra. O que nós fizemos foi o que qualquer grupo de crianças costuma fazer com naturalidade quando se encontra ao ar livre, num dia de sol. A gente correu, pulou, gritou e cantou em voz alta, rindo às gargalhadas, até perder o fôlego. Nem me lembro mais quando foi a última vez que fiz isso - talvez aos 10 ou 12 anos de idade, no recreio do colégio. Na brincadeira de domingo passado, éramos seis adultos bem maduros e vividos, dois dos quais inclusive já são avós.

A brincadeira aconteceu sem ninguém esperar, quando uma amiga de repente começou a dar pulos de alegria, celebrando aquela manhã de sol... e simplesmente não parou mais. No começo,  tenho que confessar que aquela demonstração espontânea de entusiasmo me pareceu meio esquisita para um grupo de seis adultos normais. Mas o contágio da alegria foi mais rápido que fogo no palheiro e, em questão de segundos, todos os seis abandonamos nossas posturas respeitáveis e viramos crianças novamente.

Foram só cinco minutos de brincadeiras e risadas destrambelhadas... mas como nos divertimos!

Cansados mas felizes, voltamos aos poucos à normalidade e passamos a nos dedicar a atividades menos aeróbicas. Quando a manhã enfim terminou e o grupo se preparava para ir embora, no lugar das despedidas convencionais eu me vi dizendo aos amigos: "Adorei brincar com vocês hoje!"

Acho mesmo que, na próxima vez que eu quiser combinar algum programa com eles, vou acabar perguntando:  "E aí, vamos brincar?"

quinta-feira, 20 de maio de 2010

João jangadeiro

Ele se chama João e tem 71 anos de idade. Todos os dias do ano trabalha sob o sol escaldante do litoral pernambucano, transportando em sua jangada turistas que vem de todos os lados para ver os peixes multicoloridos nas piscinas naturais da praia de Porto de Galinhas, ao sul de Recife.

Enquanto eu me deixava transportar na jangada do sr João, deslumbrada com tanta beleza natural à minha volta, de vez em quando o espiava pelo rabo do olho. Quantas vezes terá aquele homem percorrido esse trajeto na maré baixa, levando turistas que, como eu, não param de fotografar o cenário paradisíaco entre a praia e os arrecifes de sua terra natal?

Sr João conduz a jangada com firmeza, sem dizer palavra nem esboçar sorriso. Não parece cansado, mas também não esbanja energia. Apenas faz seu trabalho, calado e hábil, como em todos os dias do ano, no meio de dezenas de outras velas coloridas.

Quando desço da jangada para continuar a pé o percurso até as piscinas naturais, observo que a água morna do mar cobre meus tornozelos, o que significa que a maré já recomeça a subir. Olho com atenção a vela da nossa jangada para me certificar de que, na volta do passeio, vou conseguir identificar qual delas é a nossa. A vela é de cor amarela, alegre como o sol, com um característica que me é especialmente agradável: ao contrário das outras velas que estão ali no mar, a do sr João não traz nada escrito, nenhuma logomarca, nenhuma propaganda. Nada. É só um imenso pano amarelo.

"A sua jangada é a mais bonita de todas", faço questão de dizer ao sr João, na mais completa sinceridade. Pela primeira vez no passeio, vejo um sorriso no rosto do velho jangadeiro, que me explica: "É a Julia". Só então enxergo o nome pintado com capricho em letras vermelhas, na parte lateral da jangada.

"Quem é Julia?", arrisco a pergunta. Foi como acionar o botão de um rádio, até então desligado. O sr João não parou mais de falar, agora com um brilho nos olhos: "É a minha bisneta, que eu e minha mulher estamos criando. É o meu xodó, a alegria da minha vida. Quando volto para casa depois do trabalho, até esqueço meu cansaço quando a Julia vem me abraçar."

Fico sabendo que Julia tem 14 anos, mas "não é igual à gente, assim que nem nós". Custo um pouco para entender o que o sr João quer dizer com essa frase, mas ele logo começa a descrever a bisneta, sem conseguir disfarçar o grande orgulho que sente por ela: "A Julia nasceu com um problema no ouvido e muita gente dizia que ela não iria aprender a fazer nada na vida. Ninguém queria cuidar dela, então minha mulher e eu pegamos a menina para criar e fizemos tudo por ela.  Nós a levamos ao médico e conseguimos um aparelhinho para ela usar na orelha. Aí então ela aprendeu a falar uma porção de coisas e hoje até me chama direitinho de pai! E é só eu que ela chama assim, mais ninguém..."

Nesse momento percebo que a voz de sr João fica um pouco emocionada, mas em seguida ele continua a falar com entusiasmo da bisneta: "Agora a Julia - a senhora precisava ver! - já é até capaz de escrever o nome dela sozinha!"  Sr João conta que o "aparelhinho" do ouvido ficou pequeno para a adolescente, mas que ele já providenciou outro maior, através dos serviços de atendimento médico do governo. "O novo aparelhinho já deve estar chegando, aí vai ficar tudo beleza".


No paraíso tropical de Porto de Galinhas, descobri que há outras belezas além dos peixes, algumas invisíveis à grande parte dos turistas e bem mais difíceis da gente fotografar.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Luxo tropical


Saí cedo de casa para fazer minhas compras de Páscoa no hortomercado aqui perto:  frutas, cogumelos, ovos caipiras e verduras frescas. De quebra, uma pequena orquídea cultivada na região. Um verdadeiro luxo tropical.

Toda sexta-feira de manhã vou até lá reabastecer a casa e alimentar meu coração brasileiro. Adoro ir ao hortomercado. Tem jeito de Brasil bom, cheiro de terra e gosto de comida feita em casa.

A conversa ao redor das bancas fartas, com tantos produtos frescos e coloridos, me dão a sensação de que o nosso planeta azul (incrível!) despertou em paz:



"Bom dia! Hoje as batatas baroas estão bem bonitas!" 

"A senhora não quer provar um gominho dessa tangerina? Está uma delícia!" 


"Vai querer pastel de quê? Só um minutinho, que já está saindo um bem quentinho..."




"Hoje os caquis estão ainda mais doces do que na semana passada!"

"Se não tiver dinheiro trocado, não tem importância: a senhora me paga na semana que vem."


Gente boa e trabalhadora, que nunca aparece nas manchetes dos jornais, mas que faz parte do meu cotidiano e do Brasil mais concreto e bonito que eu conheço.

quarta-feira, 31 de março de 2010

A vida é feita de amigos

Tenho uma amiga que está passando por uma fase complicada na vida: problemas familiares, afetivos, financeiros. Nada que seja por si só arrasador, mas a somatória desses problemas é que tem sido ultimamente uma carga pesada para ela. Como nos conhecemos desde crianças, não precisamos de preâmbulos nem de "entretantos" para iniciar uma conversa: vamos direto aos "finalmentes". Gosto dessa economia de códigos convencionais - coisa que em geral só é possível entre amigos de longa data.

Esta semana fomos juntas a uma reunião de trabalho, logo de manhã cedo. Ela se ofereceu para me dar uma carona e, assim que entrei no carro, percebi pela expressão do seu rosto que ela já estava preocupada com mil e uma coisas naquele começo de dia. Percebi também que ela vestia uma blusa nova, de um tecido estampado de cores alegres, que me agradou muito.  "Você está bonita hoje, com esta blusa toda florida!", disse eu, tentando desanuviar o ambiente. Ela captou na hora a intenção do elogio e embarcou na conversa, abrindo um sorriso cúmplice: "Pois é, eu escolhi essa blusa para enfrentar a reunião de hoje com mais alegria mesmo... e sabe que está dando certo? Já estou doida para chegar lá e encontrar todas aquelas pessoas diferentes, superinteressantes..."

E foi aí, sem mais nem menos, que nós duas desatamos a rir dentro do carro, como duas crianças bobas. O trânsito na boca do túnel Rebouças estava lento, quase parado. E ali estavam dentro do carro duas velhas amigas, rindo às gargalhadas, recarregando as energias para enfrentar um novo dia com leveza e alegria, como se o melhor lugar do mundo fosse bem ali, naquele monstruoso engarrafamento matinal.

Quanto tempo tempo terá durado aquele riso destemperado? Um minuto? Dois? Sei lá. Só sei que, quando finalmente voltamos à nossa pose de senhoras responsáveis, eu me sentia como se tivesse acabado de remar uma hora inteira na lagoa. Uma boa risada ao lado de uma boa amiga faz um bem danado para a gente!


E a propósito desse tema - a importância de se ter amigos -, aqui segue uma tira do Quino, o genial cartunista argentino, que me acompanha diariamente e me faz sorrir um pouco todas as manhãs. (Clique na imagem para ampliá-la.)

terça-feira, 9 de março de 2010

A galope, no Dia da Mulher

Ontem comemorei o Dia Internacional da Mulher de um jeito bem carioca: jogando conversa fora com um grupo de amigas, em volta da mesa de um bar ao ar livre. Éramos onze mulheres, todas amigas desde os primeiros tempos de colégio. Nossa mesa era um verdadeiro luxo tropical, debruçada sobre a pista de corrida de cavalos do Jockey Club. Neste final de verão, sob um imenso céu sem nuvens, a temperatura ambiente não poderia estar melhor.

Do alto do Corcovado, o Redentor dava as costas para nós, espiando o outro lado da cidade. Menos mal, assim a gente pôde ficar mais à vontade.

Ali bebericamos drinks de frutas coloridas,  comemos pizza sem medo de engordar, ouvimos e contamos as histórias de sempre, rindo de todas como se fossem inéditas. E, como sempre, celebramos a alegria de estarmos novamente reunidas, reinventando a vida.

Uma chegou cedo, outra atrasada.
Uma cortou o cabelo bem curtinho, outra deixou crescer.
Uma conseguiu convencer o maridão a fazer aquela viagem tantas vezes adiada, outra continua procurando marido novo.
Uma acendeu um cigarro, outra protestou contra a fumaça do vício maldito e se mudou de lugar.
Uma assistiu à entrega dos Oscar até altas horas da madrugada, outra nem sequer sabia quais os filmes que haviam levado a estatueta na noite anterior.
Uma falava animada, movimentando braços, pernas e cotovelos, enquanto outra só ouvia tudo, calada.
Uma quis saber  por que outra havia faltado ao encontro de ontem.
E todas nos lembramos daquela outra ausente, que se foi para sempre do nosso convívio,
mas continua muito presente entre nós. 

A vida é um galope. 


Bem ali diante da nossa mesa, de vez em quando era dada a largada de uma nova corrida na pista do Jockey. Noto que os cavalos ficam inquietos antes de serem soltos para disparar. É bonito vê-los ansiosos, na antecipação da corrida.

Qual deles vai chegar na frente?

Pensando bem, percebo que esta pergunta não faz sentido algum. Tanto faz quem cruzar alinha de chegada na frente. O importante é galopar com vontade, sem pressa de chegar.