Há cinco dias não tenho feito outra coisa senão entrar e sair de hospital. É que meu pai levou um tombo em casa e foi atendido no setor de emergência de uma clínica. Devido à idade avançada, foi internado no Centro de Tratamento Intensivo, sob observação médica nas primeiras 24 horas.
Ambiente de CTI é quase sempre surreal, com aquele exército de enfermeiros, médicos e faxineiros marchando resolutos para baixo e para cima por entre os leitos, enquanto pacientes e acompanhantes buscam, humildes e ansiosos, um sinal qualquer que lhes devolva um pouco da sensação de normalidade.
Pois esta semana eu estava eu ali dentro do CTI pensando nessas coisas, lastimando minha falta de sorte, quando uma visão inesperada me atraiu como um raio de luz: indiferente à movimentação na área, ali à frente estava um casal de cabelos grisalhos, namorando-se ternamente com os olhos, sem dizer palavra.
Quantos anos poderiam ter aqueles dois? Sessenta e cinco? Setenta? Ele estava deitado na beirada do leito, o corpo totalmente voltado para o lado de sua companheira, quase escorregando para fora dos lençóis. Ela, sentada na beirada de uma cadeira, olhava atenta e tranquila o rosto do velho companheiro, com uma expressão sorridente. Poucos centímetros separavam um do outro. Os dois olhares se encontravam e isso lhes bastava.
A impressão que eu tinha era de que os dois atuavam na cena de um filme, com música romântica ao fundo. De repente, aqueles monitores estressantes, com seu emaranhado de fios e alarmes, me pareciam equipamentos estilosos de filmagem hollywoodiana. Havia luz, câmera e ação no meu mundo imaginário - e muito amor na vida real.
Parei de imaginar coisas e resolvi deixar o casal em paz, para voltar aos meus afazeres.
No final do horário permitido às visitas, já esquecida do casal romântico, eu me dirigi à saída junto com os outros acompanhantes, todos com a mesma aparência cansada. Hora de ir para casa e relaxar um pouco, enfim. Inesperadamente, uma voz feminina, clara e firme se ouviu à porta do elevador: "Até amanhã para todos!" A leveza da voz surpreendeu o grupo circunspecto, deixando-nos alguns momentos sem reação. Por fim, dois ou três responderam com resmungos rápidos e tímidos: "Hummm... até..."
E lá se foi a senhora dos cabelos grisalhos, lépida e cheia de energia boa, cuidar da vida lá fora.
Quem a vir caminhando pela calçada nem vai desconfiar que metade de seu coração estará batendo longe dela, num box de CTI.