domingo, 6 de junho de 2010

Cantarolando Verdi no Rio de Janeiro

Nas escadarias do Theatro Municipal do Rio de Janeiro espero ansiosa a abertura dos portões para assistir à ópera Il Trovatore de Verdi. Estou no meio de centenas de homens e mulheres que, como eu, tiraram do fundo do armário casacos e écharpes para enfrentar o friozinho inusitado desta noite de outono carioca. Ali na rua, enquanto aguardo, aproveito para admirar os detalhes da arquitetura imponente, os vitrais novamente translúcidos e coloridos, o ouro dos adornos centenários. Estou de boca aberta, olhando para o alto, esquecida de tudo.

O grito do vendedor de balas me tira do devaneio: "Olhaí, gente! São TRÊS horas de ópera! Para aguentar esse tempo todo é melhor vocês levarem umas balinhas, porque lá dentro vocês não vão encontrar nada disso não!" O tom é de quem-avisa-amigo-é, como se quisesse nos salvar a todos de uma desgraça inevitável. Resisto ao aviso do baleiro e continuo firme no propósito de "enfrentar" as três horas de canto lírico, com ou sem balas de hortelã para me manter acordada.

Na verdade, estou encantada com esta oportunidade rara de assistir na minha cidade a uma ópera, um gênero artístico que aprendi a apreciar nos anos que vivi em Nova York. Justo uma ópera de Verdi - meu compositor favorito! E ainda por cima com cenografia da Bia Lessa, essa talentosa recriadora de palcos do nosso país! Estou tão feliz, que começo a cantarolar mentalmente o famoso coral das bigornas de Il Trovatore e já nem penso mais na verdadeira guerra que tive que enfrentar para conseguir ingressos para esta última noite da temporada. Para chegar até aqui, há dias tive que suportar filas imensamente desorganizadas tanto no guichê do teatro quanto no site da Internet. Bem, deixa para lá. O importante é que agora estou aqui na porta do teatro, a poucos minutos da música de Verdi.

Os portões finalmente se abrem e, quando me vejo diante do foyer magnífico, restaurado em todo o esplendor do Rio de Janeiro de Pereira Passos do início do século XX, logo me esqueço daquelas balinhas de hortelã que pensava em comprar.

As três horas de ópera previstas pelo baleiro simplesmente voaram. Meus olhos e ouvidos buscavam ávidos cada detalhe da noite, tentando armazenar na memória as emoções que poucas formas artísticas podem produzir com tanto vigor. Tenho que confessar que os figurinos e a cenografia me comoveram pelo esforço heróico de se combinar parcimônia de recursos com grandiloquência de gestos. É missão quase impossível, já que ópera e minimalismo definitivamente não combinam. Mas há momentos de uma beleza incomum, como aqueles em que figurantes permanecem suspensos no ar, formando um cenário humano entre luzes e sombras competentes.

O libretto da ópera, eu sei, é de um ridículo atroz. Ele nos fala de ciganos com poderes mágicos, bruxa queimada em fogueira, bebês trocados, suicídio por amor impossível. É difícil imaginar uma história pior. Entretanto ela nos revela a alma romântica de uma época que se derramou no tempo, mas que na verdade, como a bruxaria dos seus enredos mágicos, nunca desapareceu por completo. Em compensação, a música de Verdi... ah, que luxo para os nossos sentidos! Essa, sim, é indiscutivelmente atemporal, universal e sublime.

Acordei hoje cedo cantarolando novamente o coral das bigornas. Penso como foi apropriada a escolha dessa ópera específica para reabrir o Theatro Municipal e acho graça na idéia que me vem à cabeça. Bigornas e martelos tem tudo a ver com aquilo. Afinal de contas, a reforma do teatro reflete o esforço de centenas de trabalhadores anônimos, que ficaram martelando aquela estrutura centenária durante dois anos, para que enfim a gente pudesse usufruir do nosso teatro, com a mesma grandiosidade que tinha quando foi inaugurado em 1909.

Bravo!


Quem quiser relembrar o famoso coral das bigornas de  O Trovador pode clicar aqui e assistir à montagem apresentada no Metropolitan de Nova York que encontrei no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=-1YsHzTv7mg.

2 comentários:

Isabel disse...

Bravo!
Lindo, mae! Tambem gostei do video da restauracao ao som do Tchaikovsky. Fiquei com vontade de ver um balletzinho no municipal na minha proxima visita... sera que terei a sorte e a honra? :)

Monipin disse...

Está tudo certo então: assim que o Theatro Municipal anunciar a temporada de ballet, a gente compra o seu ingresso e em seguida você marca sua viagem ao Brasil! Combinado? ;-)