sexta-feira, 11 de junho de 2010

Na rua do Jogo da Bola, sem pressa de Copa do Mundo

Poucas ruas no mundo tem um nome tão simpático: rua do Jogo da Bola. E também são poucos os cariocas que são capazes de dizer onde fica essa rua, que é dos tempos do Brasil colonial.

É uma rua pequena e estreita, encravada no Morro da Conceição, a poucos passos da Praça Mauá, no centro histórico do Rio de Janeiro. Ali os portugueses costumavam praticar o antigo jogo de "bocha" (bola) num campo de terra batida. Este jogo, que até hoje é praticado em vários países, utiliza bolas pequenas e pesadas. E não tem nada a ver com o futebol.

O nome da rua pegou. O calçamento se modernizou (agora é de paralelepípedos), mas a rua continua tranquila e residencial como sempre foi: de tão estreita, só permite a passagem de um carro de cada vez. Quem tiver pressa, que procure outra freguesia, pois o ritmo da rua do Jogo da Bola nem de longe se compara ao de uma Copa do Mundo. Ali os vizinhos se conhecem pelo nome, o padeiro entrega o pão na porta das casas e as crianças brincam de pular corda, bola de gude e soltar pipa até a mãe chamar para dentro. E tem mais: todos os dias, às 6 horas da tarde, a igreja Nossa Senhora da Conceição toca a Ave Maria.

Tem gente aí duvidando? Ora, pois pois... Meninos, eu vi!

Estive lá essa semana, num passeio a pé pelo centro histórico do Rio de Janeiro, que me deixou ao mesmo tempo encantada e perplexa. Como é que eu, nascida e criada aqui, nunca havia subido aquele morro, onde se escreveram as primeiras histórias da minha cidade? Depois de revisitar o belo Mosteiro de São Bento, atravessei a avenida Rio Branco, subi os degraus de uma escadaria de concreto, desinteressante e escura e, de repente... me vi transportada para uma pequena cidade do interior, num passado indefinido.

No instante em que cheguei ao último degrau da escadaria, as imagens que surgiram à minha frente me pareceram tão incongruentes com as do centro do Rio, que senti vontade de rir:  de uma hora para a outra, mudaram as cores, os barulhos, as pessoas, a paisagem, o ritmo de vida. Vi um gato dormindo enrodilhado na capota de um carro, indiferente à presença dos seres humanos, e me senti a própria Alice no País das Maravilhas depois de ter caído naquele poço e saído pelo lado mágico.

Nas placas de rua do Morro da Conceição vi também outros nomes simpáticos, como Ladeira do Escorrega e Travessa do Sereno. E como foi bom ver a garotada brincando despreocupada nas ruas do Rio de Janeiro... Foi divertido ficar ali sem pressa, enquanto as crianças do bairro brincavam de escorregar pela Pedra do Sal abaixo, felizes e indiferentes à trabalheira que as mães com certeza teriam mais tarde para lavar aqueles fundilhos desgraçadamente encardidos!

12 comentários:

Anônimo disse...

Uau! Adorei esta sua descoberta no centro do Rio.

Monipin disse...

Pois é... e eu não contei nem metade desse passeio de grandes descobertas pelo centro do Rio... como as ruínas da antiga muralha que rodeava toda a cidade no século 18 (que quase ninguém conhece!), a simpática visita ao ateliê-residência do artista plástico Paulo Dallier e os tours pela Fortaleza Conceição, o observatório de Valongo da UFRJ e os estúdios da Rádio Nacional... Nossa cidade tem uma história riquíssima, que nós, cariocas, ainda desconhecemos. Está na hora de sair de casa e explorar as nossas ruas, gente!!!

Michele disse...

Olá, Monipin!

Você nem imagina o quanto foi bom para mim rever este lindo lugar em que passei a minha infância (1979 a 1989). Cresci aí e tenho imensas saudades! Hoje, moro em Brasília e, por aqui, uma criança nem de longe tem a oportunidade de uma infância querida como essa. Esbaldei-me por estas terras, viu? rs
Obrigada por compartilhar a sua sensibilidade e espírito grandioso e aventureiro.

Um abração e muita sorte na vida!
Michele.

Monipin disse...

Michele,
Que bom que este artigo lhe trouxe lembranças boas da sua infância no Morro da Conceição! Realmente tive a impressão de que as crianças que moram ali tem uma vida privilegiada, pois podem brincar saudavelmente na rua, sempre rodeadas e protegidas por pessoas amigas, bem no coração histórico do nosso Rio de Janeiro. Gostei muito da expressão que você usou... "esbaldei-me por essas terras"! É sinal de que aquela criança que um dia você foi ainda deve "reinar" por aí, brincando entre as recordações felizes da meninice! ;-)
Um abração para você também!

Fatima Oliveira disse...

Pois é, eu tb estou muito feliz em participar deste blog, fui moradora da Rua Jogo da bola por muito tempo, hoje moro em Fortaleza, confesso que sinto muitas saudades de toda essa região, sempre que vou ao Rio faço uma visita a parentes e amigas. Parabéns pela iniciativa

tathianna disse...

Adorei seus comentários sobre o morro da conceição e suas vizinhanças... há meses venho ensaiando um tour por esse rio que tanto me fascina, mas que só conheço dos livros que leio sobre o rio antigo...semana passada estive numa roda de samba na pedra do sal e fiquei louca para subir morro acima... mas estava de noite e queria apreciar com mais calma. agora é definitivo: semana que vem farei o passeio!!! um grande abraço! tathianna

Monipin disse...

Ola', Tathianna! Que bom que voce se animou a visitar este cantinho do Rio, de uma beleza ao mesmo tempo simples e fascinante. Depois me conta como foi o seu passeio!

Bordados Gel disse...

Eu morei na Travessa do Sereno, escorreguei muito na Pedra do Sal e Estudei da Escola Padre Dr. Francisco da Motta. A vista do Morro da Conceição é simplesmente espetacular , também tenho muitas saudades desse cantinho do Rio

Charles Lewis Stone disse...

Andei por lá onte, Apreciei a calma da rua do Jogo da Bola e seus moradores no Morro da Conceição.

Manuel Teixeira disse...

Bateu saudade quando li essa reportagem, vivi na rua jogo da bola, muito tempo, de 1953 a 1966, nessa época sim, era maravilhoso ser criança, tínhamos toda a rua pra brincar, e como brincávamos, meninos e meninas, todos juntos, e sem maldade, bola de gude, amarelinha, chicote queimado, etc. Dia 8 de dezembro, era uma festa, dia de Nossa Senhora da Conceição, fogos, bandeirinhas, tudo que tinha direito, sem contar nas fogueiras do dia de São João. Hoje moro em Miami, bem longe, mas de vez em quando, passo por la. Obrigado pela lembrança.

kariny disse...

Nao acredito que posso ter encotrado aqui uma amiga de infância. Michele! Eu me chamo Janaina e tbm vivi miha infância aqui e mi ha família até hoje vive neste mesmo lugar. Boas lembranças tenho e muita saudades.

Monipin disse...

Oi, Kariny! Fico contente em saber que você possa ter encontrado sua amiga de infância através deste blog. Se você e a Michele conseguirem realmente se reencontrar, por favor me avise! A vida é mesmo uma caixa de surpresas! Beijos.