sábado, 11 de dezembro de 2010

A fartura de Marina

Hoje cedo, quando ajeitava as coisas na minha sala, peguei distraída o livro Passageira em Trânsito da Marina Colasanti e o abri numa página qualquer. Tive vontade de rezar quando meus olhos caíram no pequeno poema Fartura - curto, simples, belo:


Agradeço, Senhor,
as três orquídeas roxas
no jardim
e as mãos do meu amor
nas minhas coxas.



Lembrei-me das flores do meu jardim que estão me esperando para serem regadas. Olhei para minhas coxas saudáveis, neste corpo que dentro de poucas semanas irá fazer sessenta anos. Pensei nas mãos experientes e queridas do meu amor.

Fartura é isso. 

Obrigada, Marina.

sábado, 6 de novembro de 2010

Rir para não chorar

Quando o mundo parece estar desabando sobre a nossa cabeça, não há nada mais revigorante do que uma dose de bom humor, na medida certa. E quando o senso de humor, além de nos fazer rir, ainda nos faz pensar, então... dá vontade da gente aplaudir de pé! Foi o que aconteceu comigo esta semana, quando fui assistir ao excelente "Contos da era dourada", do diretor romeno Cristian Mungiu, vencedor do Palma de Ouro de 2007 pelo filme "4 meses, 3 semanas e 2 dias".

O filme é composto por seis episódios, de seis diretores diferentes, baseados em 'lendas urbanas' da era comunista da Romênia nos anos 80, sob o governo totalitário de Nicolae Ceausescu. Essas lendas, por sua vez,  tem origem no imenso repertório de piadas que circulavam entre as pessoas para criticar o regime e aliviar um pouco a pressão do dia a dia, nas filas para comprar alimentos, no temor pela repressão policial, nas batalhas inglórias contra a burocracia, nas conversas entre amigos para compensar a falta de liberdade de expressão, na indignação contra o puxassaquismo no alto comando governamental. Será que alguma dessas circunstâncias lhe soa familiar?

Pois é, um dos grandes méritos do filme é sua capacidade de transformar dramas locais em histórias perfeitamente universais, apresentando cada um dos simpáticos personagens - pessoas simples ou poderosas, trabalhadores urbanos ou rurais, jovens ou velhos - como simples seres humanos,  com seus defeitos, qualidades e incongruências humanas.    Que nem você, aquele cara ali da esquina e eu.

Uma das cenas mais impactantes é justamente a última, enquanto os créditos do filme vão subindo na tela e quase todo o mundo já está se levantando para deixar o cinema. De repente, sem qualquer aviso prévio, as cenas da comédia dão lugar a imagens reais do próprio Nicolae Ceausescu presidindo uma pomposa cerimônia cívica, em meio a bandeiras coloridas e homenagens da multidão patriótica, inclusive crianças, perfeitamente obedientes e uniformizadas - ingrediente infalível nos megaeventos de governos totalitários. A súbita transição da comédia para o documentário provoca uma sensação surreal e nos faz sair do cinema com um meio sorriso na boca.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Meu vendedor de frutas - Saudades da minha Nova York (4)


Diante da pequena banca de frutas, na esquina da Terceira Avenida com a rua 77, Buhca logo me chamou a atenção pelo sorriso simpático com que recebia os fregueses, quaisquer que fossem as condições climáticas do momento - sol, chuva, vento, neve. Às vezes fazia um frio cruel de manhã cedo, mas, para o sorriso de Buhca, não havia tempo ruim. Seu bom humor era infalível e contagiava a todos os que passavam por ali.

Buhca nasceu no Nepal e veio para os Estados Unidos morar com o pai e a madrasta, em busca de uma vida melhor. A mãe - contou-me certa vez - sofria de uma doença que a havia deixado paralisada e, por esse motivo, não pôde emigrar com a família. "Mas eu tenho mãe, ela não morreu", fez questão que eu soubesse. "Só que ela não pode vir até aqui para ficar comigo."

Era difícil calcular ao certo a idade de Buhca - talvez alguma coisa entre 20 e 30 anos. Por trás do sorriso no rosto jovem, havia uma tristeza suave, indefinível, de quem já havia sofrido mais do que devia.

A cada dois ou três dias, depois de sair do metrô da linha 6 na Lexington Street, eu passava pela sua banca e comprava dois ou três tipos de frutas a caminho de casa. Maçãs, morangos, bananas e amoras sempre me pareciam apetitosos. Os abacaxis, entretanto, eram invariavelmente caros e azedos. Outubro era o mês dos romãs - imensos, vermelhos, suculentos... irresistíveis.
Desde as primeiras horas do dia até o anoitecer, Buhca estava sempre por lá, pronto para me ajudar na escollha: "Hoje a manga não está muito boa: leve a pera, que é melhor." No final da compra, Buhca invariavelmente colocava  mais duas ou três frutas de "brinde" dentro da minha sacola, longe dos olhos dos outros fregueses. Eu sempre ralhava com ele, em tom de brincadeira: "Chega, Buhca! Desse jeito você nunca vai ficar rico!"  E ele ria, satisfeito com o nosso pequeno ritual.

Às vezes a gente conversava sobre futebol e Copa do Mundo -  uma linguagem quase secreta, que nos aproximava como estrangeiros no país onde ninguém se interessa pelo esporte bretão. Certa vez, depois de uma viagem de férias ao Brasil, eu lhe trouxe de presente uma camiseta da seleção brasileira. Desconfio que, nesse dia, o Brasil ganhou mais um torcedor incondicional para os jogos da Copa.

Com Buhca aprendi a dizer "obrigado" em nepalês: "danibat". Era assim que eu encerrava o nosso diálogo pontual, antes de voltar para casa, carregada de frutas da estação.

Nesta próxima viagem a Nova York, um dos lugares que mais tenho vontade de rever é a pequena banca de frutas do meu amigo Buhca. Será que, depois de todo esse tempo, ele ainda vai estar naquela esquina do Upper East Side, vendendo frutas com sorrisos?

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Sim, lá estava Buhca no lugar de sempre, em sua banca de frutas na esquina da Terceira Avenida com a rua 77, atendendo a todos os fregueses com um sorriso!

Foi muito gostoso rever meu amigo fruteiro nesta viagem a Nova York e ser logo reconhecida por ele em meio a tantos passantes, como se nunca tivesse saído de lá. "Hello! Are you back from Brazil?", perguntou ele entre alegre e surpreso, quando me viu na calçada.

Depois do abraço e da foto tirada por minha amiga Barbara, ele foi logo anunciando: "I have a surprise for you." Tirou do bolso seu telefone celular e em seguida me mostrou a foto de dois jovens abraçados no dia do casamento, sorrindo felizes para a câmera. "I got married!", disse ele, orgulhoso.

Contou que sua jovem esposa era filipina se chamava Rosemarie. Depois me perguntou pela família e pela vida no Brasil.

Por fim, decidi comprar umas uvas para comer mais tarde no hotel. Depois que paguei por elas, Buhca ainda encheu minha sacola de frutas de "brinde", como sempre fazia: duas maçãs, dois kiwis, duas laranjas. Como sempre também, ralhei com ele: "Desse jeito, você jamais vai ficar rico!"

E nos despedimos com um grande sorriso, felizes com o reencontro.




Entre raios e trovões - Saudades da minha Nova York (3)

Saí às pressas do meu apartamento no Upper East Side para chegar a tempo à minha aula de Nia - uma espécie divertida de dança, mistura do vigor da arte marcial com o ballet descalço da Isadora Duncan. De minha casa até a academia havia dez longos quarteirões a percorrer a pé, um trajeto que me em geral me tomava quinze minutos e me deixava pronta para começar a dança com os músculos já convenientemente aquecidos. Na pressa para não chegar atrasada, acabei me esquecendo de consultar a previsão do tempo na Internet e saí à rua despreocupada, naquela manhã de verão novaiorquino, cheia de sol.

A aula, como sempre, me encheu de energia boa. Terminada a dança, tomei uma chuveirada rápida, me arrumei de qualquer maneira e desci os degraus de dois em dois até a porta, para ganhar a rua e cuidar logo da vida, que o dia era curto. Quando cheguei à calçada, imediatamente senti no ar uma coisa estranha. Soprava um vento morno, daqueles que levantam a poeira do chão em redemoinho. Olhei para cima:  nuvens pesadas, cor de grafite, passavam ameaçadoras sobre minha cabeça.

Naquele período de pouco mais de uma hora, o tempo havia mudado por completo. O céu estava para desabar. Ai, meu Deus, eu não tinha levado meu guardachuva... e ainda me faltavam dez quarteirões pela frente, até chegar em casa! O jeito era apressar o passo e torcer para que o temporal não começasse logo.

Eu não havia percorrido sequer dois quarteirões, quando o que eu mais temia aconteceu. Uma tempestade violenta, digna de verões cariocas, se abateu de repente sobre a ilha de Manhattan, sem dó nem piedade. A Second Avenue estava completamente deserta: nenhuma pessoa normal se arriscaria a sair à rua com um tempo daqueles. As marquises da avenida eram, além de poucas, estreitas demais para oferecer qualquer abrigo relevante a um pedestre tão desprevenido como eu.

Entre raios e trovões, pensei comigo mesma: "Não adianta fugir. Meu cabelo já está molhado, minha roupa é de briga, minha sandália impermeável. Azar. Agora vou curtir essa experiência de caminhar na chuva até chegar em casa, já que não vou encontrar nenhum conhecido por aqui mesmo." E lá fui eu, sem apressar o passo, deixando a água escorrer pelos cabelos sem tentar me proteger da chuva, arrastando os pés em ritmo cadenciado: choc... choc... choc...

De repente, no meio daquela cortina de água, distingo um vulto igualmente encharcado, caminhando em minha direção. Quando chegamos perto um do outro, percebo que se trata de um homeless, um morador de rua, maltrapilho - este triste personagem com que nos deparamos com frequência nas ruas da cidade mais rica do planeta. Instintivamente desvio os olhos e tento me afastar um pouco do seu caminho. Mas aquele homem sem eira nem beira me olha bem dentro dos olhos, abre um enorme sorriso e me diz em alto e bom som, como se finalmente tivesse identificado uma pessoa que o entendesse naquela cidade:

"It feels good, doesn't it?"

Tive que rir junto com ele. Sim, a sensação de caminhar pelas ruas de Nova York naquela chuva torrencial de verão era realmente deliciosa! Nossos olhares se encontraram por alguns segundos e demos uma boa gargalhada juntos.

Dali seguimos nossos caminhos em direções opostas, rindo felizes, pelo puro prazer de viver, entre raios e trovões.

domingo, 5 de setembro de 2010

Mais saudades da minha Nova York (2)

Por mais de três meses depois da tragédia de 11 de setembro de 2001, fiquei sem coragem de descer ao subsolo de Nova York e pegar o metrô, como eu sempre tinha feito até então. A agressividade do esquema de policiamento ostensivo e os olhares ansiosos dos pedestres à minha volta me intimidavam de tal forma que eu preferia enfrentar a lentidão exasperante do serviço de ônibus a me enfiar naquelas galerias subterrâneas e escuras.  "Se eu for vítima de uma bomba terrorista, que seja num lugar aberto e bem iluminado: quero enxergar direitinho o lugar onde vou morrer", costumava brincar com meus amigos.

Os turistas desapareceram da noite para o dia. Assim que as pontes e túneis foram reabertos ao tráfego, quem morava fora da ilha, mais do que depressa, deu no pé. Aqueles que já tinham comprado passagens e feito reservas de hotel cancelaram a viagem. Em Manhattan só sobramos nós, pobres moradores sem uma segunda casa onde pudéssemos nos refugiar por uns tempos, até a poeira do medo baixar.

Os teatros estavam às moscas. Artistas da Broadway fizeram uma espécie de passeata nas ruas da região do Times Square, convidando a todos para que fôssemos ao teatro pela metade do preço - please! Operários da indústria do turismo, aqueles homens e mulheres precisavam urgentemente de seu ganha-pão, enquanto que nós, moradores da ilha atacada, necessitávamos alimentar o espírito com alguns momentos de alegria.

Foram dias surreais, aqueles. Dentro do meu armário eu mantinha um kit de sobrevivência em caso de hecatombe: pequena reserva de água potável, biscoitos, lanterna, caixa de fósforos, cadernetinha de telefone, passaporte. Se aquilo fazia sentido, não sei. Mas pelo menos me dava a sensação de ter feito alguma coisa útil.

Para manter o equilíbrio emocional, busquei refúgio no relacionamento com amigos e vizinhos. Aproveitei longas horas de solidão para arrumar gavetas e organizar as fotos antigas de família. Consegui fazer uma coisa que vinha planejando há anos, mas para a qual nunca encontrava tempo suficiente: digitalizei no computador boa parte das fotos dos meus filhos pequenos, que já estavam perdendo a cor original. Foi uma atividade que me trouxe muitos momentos de paz e satisfação interior.

No domingo seguinte ao ataque, tive dificuldade para entrar na igreja de St Ignatius na Park Avenue, tão lotada estava. Mais difícil ainda foi conter as lágrimas, quando um pequeno grupo de bombeiros da nossa vizinhança, uniformizados e solenes, atravessaram toda a igreja carregando o pão e o vinho da comunhão até o altar, chorando convulsivamente como crianças.

Minha busca pela paz interior teve formas variadas: certa vez fiquei uma hora inteirinha sentada em silêncio num templo budista quase vazio; ouvi música clássica à exaustão; perambulei horas a fio pelo Central Park. Mas nenhuma dessas experiências se comparou à sensação de bem estar espiritual que tomou conta de mim quando estive de manhã cedo no Metropolitan Museum of Art.

Naqueles dias sem turistas e muito poucos visitantes, o Museu decidiu excepcionalmente abrir suas portas aos associados uma hora antes do início da visitação. Na Galeria de Arte Medieval foi montado um pequeno palco com algumas cadeiras em volta, onde funcionários e amigos do Museu podiam tocar algum instrumento, contribuindo para a harmonia do ambiente. Sem dizer palavra, de vez em quando aparecia alguém para tocar um solo de violino, uma peça de cello ou uma flauta. Pessoas iam e vinham suavemente e em silêncio, como numa dança sem coreografia, mas orquestrada à perfeição.

Terminada a hora musical, percorria com calma outras galerias de arte, muitas delas de culturas já desaparecidas no tempo. Poder estar ali, sem ninguém à minha volta, na proximidade quase íntima daquelas obras de arte concebidas e criadas por pessoas que um dia nasceram, depois cresceram e por fim morreram em terras que nunca pisei, falando idiomas que nunca ouvi... de repente, tudo aquilo me acalmou por dentro. Pude, finalmente, entender a pequenez dos meus medos e aceitá-los como são: pequenos.

Foi numa dessas manhãs no museu quase vazio que decidi: era ali que eu iria trabalhar. Tinha encontrado o meu refúgio dentro de Nova York.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Saudades da minha Nova York (1)

A poucos dias de viajar do Brasil para o Canadá, com passadas por Nova York na ida e na volta, faço uma parada para pensar no que mais gostaria de fazer por lá - além, é claro, de ver minha filha que mora em Toronto, motivo principal dessa viagem.

Nova York há muito deixou de ser para mim uma cidade "turística". Não gosto nem desgosto da cidade. Conheço bem suas virtudes e defeitos, o glamour de suas festas e a dureza do cotidiano. Se tenho a oportunidade de voltar lá, vou com gosto. Caso contrário, não vou e pronto. Minha Nova York mora dentro de mim e a visito com frequência no meu mundo imaginário, sem grandes cerimônias, como quem vai à casa de um velho e querido amigo.

Da mesma forma que qualquer morador "normal" da ilha (percentual altamente duvidoso, temo), fujo da região do Times Square como o diabo da cruz. Pegar um barco cheio de turistas até a Estátua da Liberdade... subir de elevador no Empire State Building... Ui, tô fora! Passear de charrete pelo Central Park, então... oh my God, horror dos horrores! Vai que um conhecido meu resolve cruzar o parque justo naquela hora e me reconhece ali dentro da charrete... Não pago esse mico de jeito nenhum!

O que mais me emociona em Nova York são fragmentos do mosaico da cidade - recantos, rostos, cheiros, sons - que me trazem lembranças da minha experiência pessoal na Grande Maçã, onde vivi por sete anos. São lembranças de todos os tipos - engraçadas, assustadoras, enriquecedoras, alegres, chocantes, tristes, estimulantes.

Recuo nove anos na memória e penso na deslumbrante manhã de sol do dia 11 de setembro de 2001, quando eu caminhava despreocupada em direção à minha academia de ginástica na rua 85 do lado leste de Manhattan, os olhos fixos no céu. Estava maravilhada com a beleza daquele azul intenso, sem nuvens, com um tipo de luminosidade que só se vê no outono. De repente, a notícia do ataque ao World Trade Center escureceu tudo. Lembro dos olhares incrédulos à minha volta e da imobilidade geral. Registros da tragédia reaparecem na minha mente como num filme em câmera lenta. O mais estranho de tudo foi o silêncio que se abateu sobre a cidade, ao norte do Financial Center. Ninguém gritava, ninguém chorava. O silêncio tomou conta das ruas.

De uma hora para a outra, todos os túneis e pontes de acesso a Manhattan foram interditados. Ninguém mais entrava nem saía da ilha. O metrô parou. Os aviões deixaram de sobrevoar nossas cabeças. Os ônibus e automóveis deixaram de circular. Não havia para onde fugir. Filas intermináveis de homens e mulheres, muitos cobertos de uma espessa poeira branca da cabeça aos pés, com expressão de enorme cansaço, se deslocavam em silêncio em direção ao norte da ilha - isto é, para longe do inferno. A maioria morava fora de Manhattan e não tinha para onde ir. As linhas telefônicas emudeceram. Os celulares deixaram de funcionar por excesso de tráfego. Os serviços da Internet foram interrompidos. Só consegui me comunicar com o Brasil para tranquilizar  minha família  e meus amigos dois dias depois da tragédia. Apenas a televisão nos ligava uns aos outros. E todos os canais transmitiam as mesmas imagens e notícias daquele acontecimento terrível, até então inimaginável.

Foi através do noticiário de TV que fiquei sabendo, estarrecida,  que os estoques de botes infláveis haviam se esgotado rapidamente em Nova York. Como assim? Estão todos comprando botes infláveis agora? Eu nunca havia percebido com tanta lucidez o sentido terrível da palavra "ilhado".

Hoje todos sabemos que os ataques se limitaram ao dia 11 de setembro. Mas para nós, prisioneiros da ilha, ainda viveríamos muitos dias mais na expectativa angustiante de novos ataques. Mais investidas aéreas, guerrilhas químicas, hecatombe nuclear, envenenamento do abastecimento de água da cidade, bomba no metrô, descarrilamento de trens... Nada disso nos parecia impossível depois daquele 11 de setembro. Na nossa imaginação de ilhéus confinados, não havia limites para novas catástrofes em Nova York.

Finalmente, passadas algumas semanas, os túneis e pontes de acesso a Manhattan começaram a ser reabertos aos poucos, sob forte esquema de segurança.  Mas caminhar pelas ruas de Nova York nunca mais voltou a ser o que era antes daquele dia trágico.

Poucos dias depois recebemos o telefonema de nossos dois filhos, Flavio e Isabel, que então moravam e estudavam na cidade de Boston. Eles queriam nos contar que tinham comprado passagens de trem para passar o fim de semana conosco em Nova York. Nossa primeira reação foi - oba!- de uma imensa alegria. Mas logo depois a alegria cedeu lugar à enorme preocupação com a segurança deles. Só que aqueles dois lindos jovens adultos nem ligaram para nossos medos - talvez pela leveza própria da idade, talvez pelo amor solidário que tanto nos une em momentos difíceis como aqueles que estávamos vivendo.

Nossos filhos chegaram sãos e salvos e nos proporcionaram um dos fins de semana mais maravilhosos que tivemos em todos aqueles sete anos vividos na glamorosa Nova York - dentro do nosso pequeno apartamento, jogando conversa fora, saboreando comidinha caseira, curtindo momentos preciosos de paz familiar.

Agora, enquanto relembro com saudade e doçura aqueles momentos vividos com nossos filhos, surge uma dúvida. Não sei se consegui transmitir a eles como me senti grata e orgulhosa por terem vindo nos ver naquele fim de semana - para mim, uma emocionante demonstração de amor e coragem.

Preciso dizer isso aos dois.

domingo, 15 de agosto de 2010

Boa remada, Dragão!

Quando você estiver lendo este posting,  Bruno e Olga provavelmente já terão tido tempo para matar as saudades, se abraçar e se beijar bastante, felizes com o reencontro depois de quatro meses de separação forçada - ele no Rio de Janeiro, dando aulas de remo no clube Botafogo da Lagoa, e ela na cidade de Trier, Alemanha, cursando faculdade de Direito. Daqui a duas semanas os dois estarão enfim casados e  morando na Alemanha, concretizando um sonho de amor que começou há dois anos no Rio, por um capricho do destino. Um sonho que, para muita gente, parecia impossível.

Muitos só conhecem o Bruno pelo apelido, Dragão, por causa da tatuagem gravada no braço direito. Ele é um dos instrutores que me ensinam a remar na Lagoa, a quem encontro quase todos os dias ao nascer do sol  naquele cenário de cartão postal, sob os braços abertos do Cristo Redentor.

Bruno Nagele tem 30 anos de idade e nasceu em Caxias, RJ, onde passou toda a infância. Os pais se separaram quando ele tinha doze anos de idade e a mãe criou os dois filhos trabalhando em casa de família. Logo Bruno começou a trabalhar como boy de serviços de rua num escritório de advocacia no centro da cidade. Foi nessa época, por mero acaso, que o remo entrou na sua vida. "Um dos sócios da empresa era vice-presidente do clube Botafogo", conta Bruno. "Um dia, quando eu estava para sair de férias, pedi à secretária que falasse com ele, para que me deixasse remar na Lagoa. Quase nem acreditei quando ele disse que eu poderia ir!"

E assim começou a praticar este esporte, que muito o entusiasmou e logo transformaria sua vida. Três meses depois de iniciar a prática do remo, no ano de 2000, conheceu Victor Jahara, professor da escola de remo do Botafogo. Foi o início de uma grande amizade. A dupla competiu diversas vezes em barco double, tendo conquistado três campeonatos cariocas e um brasileiro. Em 2007, os dois remadores resolveram se afastar um pouco do clube para se dedicar à prática de outra modalidade do esporte - canoa havaiana, na Praia Vermelha, Urca. "Mesmo praticando remo longe do clube, a gente sempre vinha ao Botafogo para rever o pessoal e tomar uma água de coco de graça na barraca do Irineu", conta Bruno, bem humorado.

Enquanto isso, do outro lado do oceano Atlântico, a alemã Olga Sempf se dedicava aos estudos na faculdade de Direito na pequena cidade de Trier, a mais antiga da Alemanha, na região do rio Mosela, próximo à fronteira de Luxemburgo. Com 2 mil anos de história, Trier possui inúmeras ruínas romanas, que atraem turistas do mundo todo. Ali nasceu Karl Marx em 1818.

Filha de imigrantes russos, Olga fala vários idiomas e sempre gostou de viajar e conhecer países e culturas diferentes. Depois de ter morado um ano nos Estados Unidos como au pair - isto é, trabalhando na casa de uma família americana em troca de hospedagem - Olga resolveu se aventurar por outros costados e obteve uma bolsa de estudos num programa de intercâmbio acadêmico Brasil-Alemanha (DAAD). E foi assim que ela foi morar em Recife. Aprendeu a falar Português e trabalhou como estagiária na área de Direito.

Como de praxe, o DAAD organizou uma reunião de todos os estudantes alemães que estavam no Brasil num hotel do Leme, no Rio de Janeiro. A reunião teria a duração de apenas três dias. Como Olga nunca tinha visitado a Cidade Maravilhosa, resolveu esticar um pouco a viagem para conhecer melhor os pontos turísticos. Só que lhe faltava um pormenor importante: dinheiro suficiente para se hospedar em hotel.

E foi justamente aí que o destino armou das suas e acabou reunindo a vida do remador carioca à da estudante alemã. Desde 2004 a família de Bruno hospedava estudantes de diversos países no seu apartamento de Copacabana, através do Hospitality Club, uma organização voluntária com associados no mundo todo. Um belo dia, Bruno recebe um e-mail de Olga, perguntando se haveria disponibilidade de hospedagem para ela durante um período de quatro dias. "Naquela época eu estava trabalhando muito, num projeto gráfico de livros infantis", relembra Bruno, que havia concluído um curso de um ano de webdesign. "Por isso eu mal pude dar atenção à solicitação dela e acabamos acertando as datas da hospedagem muito rapidamente."

Foi com grande encantamento que ele viu aquela "menina bonitinha", que falava um Português arretado com sotaque alemão-pernambucano, chegar à sua casa no dia marcado. "Era bem na hora do almoço e eu estava preparando minha comida - massa com molho de camarão", diz Bruno. "Aí eu a convidei para almoçar e, para minha surpresa, ela aceitou e comeu tudinho!" O resto da história é uma sucessão de longas caminhadas pelas praias e pontos turísticos do Rio de Janeiro, que rapidamente conduziram os dois jovens a um clima de enamoramento. Mas Bruno lembra que a conquista foi muito difícil, pois Olga achava que não tinha sentido começar um namoro, já que dali a poucos dias teria que viajar de volta ao Recife. "Tive que insistir muito para conseguir convencê-la de que o nosso namoro iria dar certo", disse ele.

Olga retornou ao seu estágio. Apenas três semanas depois, lá estava o Bruno a bordo de um avião, voando para reencontrar a namorada. O amor foi mais forte do que todas as dificuldades geográficas e os dois continuaram a se encontrar. Olga veio morar no Rio e aprendeu a remar na Lagoa. O pai de Bruno, com quem ele sempre manteve uma relação afetuosa, adoeceu gravemente neste período. O casal acompanhou de perto seus últimos meses de vida, viajando de duas a três vezes por semana do Rio para Petrópolis para visitá-lo. "Meu pai adorou conhecer a Olguinha e dizia que eu tinha muita sorte de ter encontrado aquele anjo", disse Bruno.

No dia 1º de setembro do ano passado, Bruno e Olga ficaram noivos. Em dezembro, dois dias depois de Bruno terminar a faculdade de Informática, seu pai faleceu. No dia seguinte, depois do enterro, Bruno foi trabalhar, mas não contou nada do ocorrido a ninguém. "E eu ainda levei bronca do Irineu por ter chegado atrasado naquele dia", relembra, com um sorriso triste. "Mas depois, quando ele soube do motivo, me abraçou muito."

Logo em seguida, Bruno embarcou para a Alemanha, em sua primeira viagem  fora do Brasil. Conheceu os futuros sogros, ("Os primeiros minutos foram aterrorisantes para mim! Eu não conseguia falar uma palavra que eles entendessem", diz ele), viu neve pela primeira vez e passou o Natal com a família Sempf que, afinal, o recebeu muito bem. Quando voltou ao Brasil, Bruno começou a estudar Alemão no Instituto Goethe e já completou o nível 1. Por exigência do governo, ele precisa estudar seiscentas horas (ao custo de 1 euro por hora) e passar no nível 4 para poder trabalhar lá. A motivação é tanta, que ninguém duvida que Bruno conseguirá atingir este objetivo rapidinho.

No próximo dia 3 de setembro Bruno e Olga se casam no civil e, no dia 9 de outubro, no religioso. Felicidades ao casal! A turma do remo vai sentir muitas saudades do Bruno e do seu jeito sempre amável de dizer para a gente, na hora de sair com o barco na lagoa: "Boa remada!"



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Quem quiser ver imagens da cidade de Trier (ou Téveris),
onde Bruno e Olga irão morar, pode clicar aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=NuMbd6WEp5s