sábado, 2 de abril de 2011

Mudei de nome em Myanmar


Escrevi este artigo durante a viagem de duas semanas que acabo de fazer a Myanmar, este país fascinante do Sudeste Asiático, tão pouco conhecido no lado de cá do nosso planeta. Foi a segunda vez que estive em Myanmar. A primeira foi há treze anos atrás e me causou grande impacto, mas a viagem se limitou à cidade de Yangon. Só agora pude concretizar o sonho de conhecer um pouco melhor o país, sua história, tradições, arte e riquezas naturais. Cheia de contrastes de todos os tipos, a cultura milenar de Myanmar é uma das mais belas e antigas do mundo, que hoje luta contra todo o tipo de adversidades políticas e econômicas. Cada minuto vivido neste país foi para mim de grande aprendizado e deslumbramento. Este é o primeiro texto de uma série que pretendo escrever sobre esta viagem a Myanmar.

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Ontem ganhei um nome novo aqui em Myanmar: agora podem me chamar de Thit Sar Shwe. O nome me foi dado num jantar na casa da Myo Nwe, nossa guia em Yangon, para celebrar meus sessenta anos, completados em janeiro. O convite foi feito quando ela soube que esta viagem a Myamar havia sido o presente de aniversário. “Oba, festa é comigo mesmo!”, pensei. Aceitei o convite na hora, feliz com a possibilidade de conhecer melhor a cultura deste país fascinante, na intimidade da vida familiar. Mal sabia que o presente que eu iria ganhar seria bem mais valioso que um simples jantar de aniversário.

À hora marcada, Myo veio nos buscar de táxi no hotel e nos levar à sua casa. Quando ainda faltavam alguns quarteirões, ela sugeriu que saltássemos do táxi para completar o trajeto em trishaw - aquele triciclo de transporte de pessoas em curtas distâncias, tão comuns nas cidades asiáticas. E foi assim, em grande estilo, a bordo de trishaws, que apeamos à porta da casa de Myo, num condomínio bem arborizado, com crianças brincando na rua, onde todos os vizinhos parecem se conhecer. Os olhares da vizinhança caíram todos sobre nós, raros visitantes de terras estrangeiras.

Quando entramos, fomos recebidos com alegria pela filhinha de Myo, a saltitante Wai Wai, de dois anos e meio, e pela sua mãe, Daw Aye Yee, professora aposentada de 67 anos. Depois dos efusivos abraços de boas vindas, muitos sorrisos e poucas palavras, ninguém sabia ao certo o que fazer com a gente. As poucas cadeiras estavam encostadas nas paredes e o meio da sala, vazio. Em um canto, a televisão transmitia um programa em DVD com personagens infantis, cantando músicas para crianças no idioma Myanmar. 

E agora, o que fazemos? Onde nos sentamos? Nas cadeiras ou nesses bancos baixinhos, como preferem as pessoas daqui? Será que é bom ir à cozinha para ajudar? Ou isso pode atrapalhar?

Na indecisão, acabamos ficando ali mesmo de pé, plantados no meio da sala. 


“Querem chá?”, nos oferece Myo. Ótimo, queremos, sim. Pelo menos é algo para manter nossas mãos ocupadas. Myo vai buscar duas xícaras de vidro, sem pires, num móvel entulhado de objetos, ao lado do family shrine, um pequeno altar dourado com imagens de Buda, oferendas de frutas, flores, incenso e copos de água. Tudo ali me parece meio confuso e desarrumado, mas Myo encontra o que quer rapidamente e nos serve o chá de uma garrafa térmica. Enquanto tomamos os primeiros goles, conversamos sobre as fotos antigas da família do marido em preto e branco que estão penduradas na parede, melancólicas. 

Daw Aye Yee traz para o meio da sala a mesa onde iremos jantar. A mesa, depois de armada, não terá mais do que trinta centímetros de altura. É que em Myanmar as pessoas preferem  se sentar no chão ou em banquinhos que parecem feitos para crianças, em vez de usarem cadeiras. Por cima de uma toalha simples, que mal cobre a superfície, os utensílios do jantar são espalhados sem local definido: alguns poucos talheres, xícaras, pratos e copos desconjuntados.  Completamente à vontade, Wai Wai brinca com esses objetos como se fosse a própria Alice no País das Maravilhas. Tudo naquela sala é do seu tamanho dela e ao alcance da sua mão.


Myo sai da sala e em seguida reaparece com uma ajudante, trazendo um peixe numa travessa, assado na brasa, para a gente admirar. O peixe está preto, com a pele esturricada de carvão. Tem olhos, dentes, rabo, tudo. "Que bonito", digo. Tiramos uma foto - clic! - e o peixe desaparece pela cozinha adentro, sem maiores explicações.

Também sem explicações, aparecem na casa novas pessoas pela porta da rua, sempre aberta. Ninguém nos apresenta a elas e ficamos sem saber como inseri-las no contexto da noite.

Um homem esquálido, com pouco mais de trinta anos, senta-se no chão e nos espia timidamente de longe. Uma mulher jovem, bonita e vestida à moda ocidental, com um tailleur comportado de cor neutra, entra sorridente pela sala adentro e nos cumprimenta em inglês como se a estivéssemos esperando. Depois de algum tempo, Myo esclarece: é apenas uma amiga, trabalha num banco em Yangon, veio jantar com a gente. 

Finalmente o marido da Myo chega do trabalho e é recebido com grande alarde pela pequena Wai Wai. Chama-se Ko Htwe e é motorista de uma van de turismo, da qual é proprietário. Com timidez, pede-nos desculpas pela demora e explica que teve que resolver um problema do carro.  

Enquanto isso, Myo começa a trazer o jantar para a mesa. Em uma pequena panela elétrica com tampa de vidro, ela prepara uma deliciosa sopa de macarrão, vegetais, tofu e dumplings, que vai nos servindo aos poucos, com acompanhamento de molho de tamarindo. Tudo feito em casa por ela,  no maior capricho.


Wai Wai corre ao redor da mesa, beliscando os alimentos aqui e ali, tagarelando sem parar. Está obviamente feliz. Quando terminamos de comer a primeira rodada da panela, Myo volta a acrescentar mais ingredientes crus ao caldo, que assim vai ficando cada vez mais apurado e saboroso.

Enquanto isso, o peixe, já frio, continua nos olhando da travessa no meio da mesa. De repente, Myo se levanta, acende uma vela e a espeta bem no meio da barriga do peixe. Neste momento, todos param o que estão fazendo e me olham com ansiedade. A um pequeno sinal, começam a cantar “Parabéns a você” em inglês, batendo palmas. É o "bolo" de aniversário mais original de todos os que já tive. Quando chega aquele momento em que se anuncia o nome do aniversariante, o sorriso no rosto de cada um deles fica ainda mais iluminado:

"Happy birthday, dear... (e aqui todos fazem uma pequena pausa dramática, os olhos brilhando)...Thit Sar Shwe!"

Então era este o momento mais aguardado da noite: a revelação do meu nome em Myanmar! Todos riem e aplaudem muito, felizes com a surpresa que me preparavam há dias! 

Daw Aye Yee explica o significado do nome que ela mesma escolheu, depois de uma série de cálculos e estudos auspiciosos, com base no dia da semana em que nasci (sexta-feira): “Thit Sar” significa “gladíolo”, flor nativa de Myanmar, que os jovens oferecem tradicionalmente às namoradas quando lhes querem declarar fidelidade e amor eterno. “Shwe” significa “ouro”, mineral onipresente no país. "It’s a very good name, very elegant", me assegura Myo.

A amiga bancária escreve meu nome na lousa da parede da sala e todos me ajudam a pronunciar corretamente aquelas três sílabas de que tento me apropriar como parte de minha nova persona. Para meus ouvidos não-tonais, o novo nome soa mais ou menos como "te-sá-chuê".

Terminada sua função de bolo de aniversário, agora já podemos destrinchar o peixe assado. Faltam talheres? Então vamos comer com as mãos mesmo, aqui está a caixa de lenços de papel para limpar os dedos. Huuummm... Delicioso!


Hora de ir. Myo faz questão de nos acompanhar de volta ao hotel. Na van da família, está também a pequena Wai Wai, de chapéu na cabeça, pulando de contentamento pela novidade do passeio noturno. Quando a porta da van estava a se fechar, o homem esquálido desliza para o banco de trás como uma sombra, sem dizer palavra. Myo enfim nos revela que ele é o marido da empregada que cuida da Wai Wai enquanto ela vai trabalhar – a mesma que preparou o peixe esturricado. O casal tem três filhos. Ele trabalha como condutor de trishaw. Hoje ele não teve nenhum cliente e estava chateado. O dinheiro anda curto na família. Mas, pelo canto do olho, vejo no rosto magro do condutor de trishaw uma alegria infantil por aquela voltinha de carro na cidade, ao lado de pessoas tão estranhas, que vieram de um país chamado Brasil, do outro lado do mundo.

Dentro do carro Wai Wai está felicíssima e canta sem parar musiquinhas na língua tonal e melodiosa de Myanmar.

A porta da van se fecha e pela janela vejo passar as luzes da noite de Yangon. Naquele momento mágico, cercada pelo carinho e generosidade de tantas pessoas, sinto-me em casa. Um profundo sentimento de gratidão toma conta de mim.  Com um sorriso no rosto, repito mentalmente o nome com que fui batizada na inesperada festa de aniversário em Myanmar, como um mantra sagrado que não quero esquecer:

Thit Sar Shwe... Thit Sar Shwe...

9 comentários:

Katia disse...

Thit Sar Shwe
Como sempre me encanto com seus post. A alegria com que você descreve esses momentos faz com que a gente se sinta participando dessa festa.
Saudades
Katia

anamar disse...

Eu nunca fui, mas foi como se estivess ao seu lado...
Bom saber de vós...
Beijo amigo, Monipim

Maria Gertrudes disse...

querida Thit Sar Shwe
adorei seu relato!!!que maravilhosa experiência que vc viveu!!
quero aprender seu nome Myanmarense (?)
Bjs

Betty disse...

Bem vinda Thit Sar Shwe com essa história mágica, sempre tão bem escrita que me faz sentir participando de cada momento, de cada surpresa, de cada encanto e dá até para ouvir as vozes suaves dessa família e o canto da Way Way! Tia alegria em conhecer o mundo, as pessoas de diversos lugares é contagiante. Que maravilhoso presente esse que você teve. Beijos e saudades!

Lê Nira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lê Nira disse...

Sensível, humano, cheio de graça.Foi uma delícia 'viajar' pelo seu texto. Saudades e até breve(?) Bjs, Lenira

Roberto Gadelha disse...

djai lá? djai dé!
sá bi lá? sá bi dé!
piê-biê
Tun Taut Nay

Sandra Felicidade disse...

Thit Sar Shwe

Concordo com a Myo: "It's a very good name, very elegant." Sempre achei muito legal a naturalidade e a facilidade com que você dissolve a fronteira entre o cotidiano e o extraordinário. Estou ansiosa para os próximos capítulos da sua aventura em Myanmar.
Beijos
Sandra Felicidade

Sonia e Zé Carlos Cerqueira disse...

Thit Sar Shwe
Que viagem interessante!
A narrativa dos fatos está muito boa. Deixou-nos com aquele gostinho de também conhecer Myanmar e sua cultura milenar.
Beijos,
Sonia e Zé Carlos Cerqueira