domingo, 18 de julho de 2010

Amor no CTI

Há cinco dias não tenho feito outra coisa senão entrar e sair de hospital.  É que meu pai levou um tombo em casa e foi atendido no setor de emergência de uma clínica. Devido à idade avançada, foi internado no Centro de Tratamento Intensivo, sob observação médica nas primeiras 24 horas.

Ambiente de CTI é quase sempre surreal, com aquele exército de enfermeiros, médicos e faxineiros marchando resolutos para baixo e para cima por entre os leitos,  enquanto pacientes e acompanhantes buscam, humildes e ansiosos, um sinal qualquer que lhes devolva um pouco da sensação de normalidade.

Pois esta semana eu estava eu ali dentro do CTI pensando nessas coisas, lastimando minha falta de sorte, quando uma visão inesperada me atraiu como um raio de luz: indiferente à movimentação na área, ali à frente estava um casal de cabelos grisalhos, namorando-se ternamente com os olhos, sem dizer palavra.

Quantos anos poderiam ter aqueles dois? Sessenta e cinco? Setenta? Ele estava deitado na beirada do leito, o corpo totalmente voltado para o lado de sua companheira, quase escorregando para fora dos lençóis. Ela, sentada na beirada de uma cadeira, olhava atenta e tranquila o rosto do velho companheiro, com uma expressão sorridente. Poucos centímetros separavam um do outro. Os dois olhares se encontravam e isso lhes bastava.

A impressão que eu tinha era de que os dois atuavam na cena de um filme, com música romântica ao fundo. De repente, aqueles monitores estressantes, com seu emaranhado de fios e alarmes, me pareciam equipamentos estilosos de filmagem hollywoodiana. Havia luz, câmera e ação no meu mundo imaginário - e muito amor na vida real.

Parei de imaginar coisas e resolvi deixar o casal em paz, para voltar aos meus afazeres.

No final do horário permitido às visitas, já esquecida do casal romântico, eu me dirigi à saída junto com os outros acompanhantes, todos com a mesma aparência cansada. Hora de ir para casa e relaxar um pouco, enfim. Inesperadamente, uma voz feminina, clara e firme se ouviu à porta do elevador: "Até amanhã para todos!" A leveza da voz surpreendeu o grupo circunspecto, deixando-nos alguns momentos sem reação. Por fim, dois ou três responderam com resmungos rápidos e tímidos: "Hummm... até..."

E lá se foi a senhora dos cabelos grisalhos, lépida e cheia de energia boa, cuidar da vida lá fora.

Quem a vir caminhando pela calçada nem vai desconfiar que metade de seu coração estará batendo longe dela, num box de CTI.

6 comentários:

carla disse...

Menina, nós notamos que sua casa andou apagada estes dias, imaginei que estavam curtindo a semana no Rio!!!
Ainda bem que foi só um susto, minha mãe volta e meia me prega estas, acabou de se recuperar de uma fratura no braço: caiu andando na praia...ninguem merece.:(
Fico daqui torcendo pela recuperação de seu pai.
By the way, adorei a história do casal!
Bjkas da Serra.

Monipin disse...

Obrigada, Carla! A vida está sempre nos pregando peças mesmo. Saudades da nossa serrinha! Beijos.

eliane disse...

Monica,
se nao pegar muito mal, queria me apoderar desta linda historia e dar um nome a este casal... Cida e Idalgo. So de lembrar a dedicacao e paciencia de minha mae durante longos meses de entradas e saidas do CTI para acompanhar a partida do meu pai, me emociono. Um misto de orgulho e vergonha me dominava, pois eu nao conseguia parar de pensar que estava diante de uma especie rara de relacionamento humano. Meu pai exigindo que apenas minha mae colocasse o papagaio para ele fazer xixi, minha mae exigindo que apenas ela tinha que entrar no CTI em todas as visitas, deixando para nos, filhos, o outro cracha, dividido entre idas e vindas de Sao Paulo para Campinas, saidas de emprego, transito louco. E quando, no dia 10 de junho de 2008, o seu Idalgo nos deixou, a dona Cida tambem cuidou de tudo, inclusive de ir ate o jardim da casa deles para cortar sem piedade e com muito amor a orquidea linda que florescia ha mais de 20 anos na casa dele. Seu nome? Bonitinha. Minha mae mortou a bonitinha para coloca-la sobre as maos de meu pai no caixao. Foram os primeiros momentos da familia sozinha com ele no velorio. Lindo e sereno. E ao se despedir, no fechamento do caixao, que e um momento muito triste, minha mae sem vergonha, sem pudor, apenas com amor disse bem alto, sem dramas... tchau Dago, eu te amo, eu te amo. Monica, essa historia faz parte de minhas oracoes a qualquer minuto do dia. Inclusive hoje pela manha, quando pousei na Cidade do Mexico, em mais uma tentativa de superar o medo de aviao. Novamente, seu Dago estava aqui comigo.

Monipin disse...

Uma história de amor como a dos seus pais só poderia ter frutificado com uma filha tão linda como você. Um beijo carinhoso. (Que disfrutes la gran ciudad de México, niñita!)

Maria Elizabeth disse...

Essa história de máquinas me faz lembrar quandopapai estave internado,depois minha madastra e mais tarde minha tia, um pouco mãe. Mais pareciam árvores natalinas com todas aquelas luzes piscando e vez por outra apitando. E foram momentos de doação inteira minha, que não sabia existir. Momentos tristes é claro, pois todos se foram...disso ninguém escapa. Mas histórias lindas de amor assim , só mesmo você Monica para ter tempo e paz de ver e sentir algo tão profundo com teu pai internado e toda a preocupação que você tinha em mente. Sempre disse que você é uma pessoa especial e continua sendo. Um beijo grande e que tudo volte ao normal, serenamente. Betty

BLOG DA PATRÍCIA disse...

Oi Monica,
Q aperto, heim?!
Mas, olha, tudo vai dar certo ... ele já vai melhorar. Logo vamos ler aqui q ele já está em casa!
Estamos todas aqui, suas amigas, rezando e torcendo por vcs!
Bj grande
Patrícia