sábado, 24 de abril de 2010

Ladrões de figurinhas


Saiu na primeira página do jornal esta semana: cinco homens armados invadem a distribuidora das figurinhas da Copa do Mundo em Santo André (SP) e levam mais de 135 mil cromos.

Tive que ler e reler o texto algumas vezes para me certificar de que  era aquilo mesmo que o jornal queria dizer.  Fiz as contas por alto: cada pacote de figurinhas é vendido na banca de jornal por 75 centavos,  portanto o valor total do roubo deve chegar a pouco mais de R$ 20 mil.

A pergunta que não me sai da cabeça é: que tipo de homens seriam esses que, com armas de fogo na mão, são capazes de ameaçar outras pessoas de morte e arriscar as próprias vidas para roubar figurinhas com fotos de jogadores de futebol?

Poucas horas depois do roubo, surgem as primeiras migalhas de informações sobre os ladrões. A polícia descobre numa favela caixas com os tais pacotes de figurinhas, escondidas embaixo de camas onde duas jovens mulheres dormiam. Elas são logo detidas, bem como um funcionário da empresa distribuidora, que havia planejado o crime - todos na faixa de 20 anos de idade.

Que tipo de infância roubada teriam tido eles?

Em tempos não muito remotos, álbum de figurinha era assunto de interesse exclusivo de crianças, no máximo de adolescentes ou jovens adultos imaturos.

Penso nos álbuns que tanto me fizeram sonhar quando criança. A sensação de abrir cada pacotinho e torcer para encontrar as figurinhas "certas", como aquelas que completavam uma página inteirinha - que felicidade! -, me parece hoje impossível de se reviver.

Os temas dos álbuns eram então de uma inocência quase inacreditável, como a vida triste e piedosa do menino órfão em Marcelino Pão e Vinho.

Temas considerados "educativos" também tinham sucesso garantido, como animais selvagens, as maravilhas do espaço sideral e a história dos meios de transporte.

E tinha ainda aquelas figurinhas que vinham dentro da embalagem de papel que envolvia os chicletes Ping Pong. Mas a qualidade gráfica não era lá grande coisa.  Além do mais, mesmo com a inocência do nosso olhar infantil, éramos capazes de perceber o óbvio sentido comercial da coleção do chiclete.

Bom mesmo era colecionar as figurinhas dos álbuns de Walt Disney. Os personagens da turma do Mickey Mouse, Pateta, Pato Donald e Pinóquio  passeavam com desenvoltura pelo nosso imaginário infantil.

Mas nenhuma emoção se comparava à que a gente sentia com as figurinhas dos grandes clássicos dos estúdios Disney, como as histórias da Bela Adormecida e da Branca de Neve. A glória suprema era encontrar figurinhas difíceis, como as da cena do beijo do príncipe encantado, bem no finalzinho do álbum. As danadas eram quase impossíveis da gente encontrar dentro dos pacotinhos selados, que a gente rasgava bem devagarinho, prolongando ao máximo aquele momento de agonia e felicidade refreada, nos nossos corações de criança.


E volto a pensar com tristeza nos ladrões de figurinhas, 
cuja infância lhes foi roubada pelas injustiças da vida.


































2 comentários:

Mario disse...

Você tem a figurinha do Messi?
Mario

Monipin disse...

Talvez... Vou dar uma olhada no bolo das minhas figurinhas de jogar "bafo"! ;-)