sábado, 27 de fevereiro de 2016

Pedalando sem meu pai

A "descoberta" me caiu como um raio sobre a cabeça, enquanto pedalava pela ciclovia da Lagoa. Explico-me. Vinha distraída, admirando a paisagem, enquanto pensava na reportagem que tinha acabado de ler sobre um grupo de voluntários que dão aulas no Aterro do Flamengo a crianças e adultos que queiram aprender a andar de bicicleta. Escola Bike Angel é o nome do grupo, que já atua aqui no Rio há mais de um ano. O que mais me chamou a atenção na reportagem foi o fato de haver adultos interessados nessas aulas.


Como assim, adultos? Sempre associei o ato de aprender a andar de bicicleta à fase da infância - quando nos expomos a essas coisas maravilhosas que, uma vez aprendidas, jamais esquecemos na vida - como ler, escrever e assoviar. Pedalar bicicleta, para mim, fazia parte deste curriculum natural na vida de qualquer criança.

Não foi preciso muito tempo para que eu me desse conta da absurda ingenuidade desta ideia. É claro que nem todas as crianças do mundo tem acesso a uma bicicleta, menos ainda as de gerações passadas. Por que razão eu nunca havia pensado na necessidade de um adulto ter aulas para aprender a andar de bicicleta?

Enquanto pedalava, meus pensamentos voaram ao passado. Onde é que eu estava quando andei de bicicleta pela primeira vez? Quem foi que estava ao meu lado naquele momento mágico de equilíbrio e coragem que me libertou para sempre daquelas rodinhas de trás?



Eu me vi então na calçada da rua tranquila de um Leblon que já não existe, onde vivi toda a infância. A muito custo me equilibrava naquela Merck Suisse cor de vinho, que me parecia enorme. De repente, senti um empurrão no assento da minha bicicleta, que foi jogada à frente aos solavancos. Lá de trás, pude ouvir a voz de meu pai, segura e confiante: "Pode ir, vai!" O guidón tremilicou de um lado para o outro, mas logo consegui dominar a bicicleta e deslizei, livre e feliz, pelos cinco metros mais gloriosos da minha vida até então. Lembro bem do sorriso orgulhoso do meu pai, quando desmontei da bicicleta e me virei para trás para me certificar de que ele ainda estava lá. A primeira pedalada sem rodinhas ninguém esquece!

Somente agora, depois de todos esses anos vividos, de repente me dei conta do óbvio. Aquele que me deu o empurrão necessário,  transmitindo-me confiança para que eu fosse capaz de me equilibrar sobre duas rodas... nunca aprendeu, ele mesmo, a andar de bicicleta na vida! Uma constatação ao mesmo tempo clara e surpreendente para mim. 

Foi esta a "descoberta" inesperada que se abateu como um raio sobre a minha cabeça, a que me referi no início do texto. Por mais que eu revirasse as gavetas da memória, não consegui encontrar nenhuma lembrança de meu pai pedalando. Nenhuma foto, nenhum fragmento de história contada. Nada. 

De família humilde, meu pai não teve a sorte de ganhar uma bicicleta na infância. Já adulto e crescido, poderia perfeitamente ter aprendido a andar de bicicleta e recuperado o tempo perdido. Mas talvez não tivesse mais vontade - ou coragem - para pedalar sem rodinhas.

Se ainda estivesse vivo, hoje meu pai faria 95 anos de idade. Neste dia do seu aniversário, deixo aqui um pensamento de gratidão ao meu professor de bicicleta - aquele que jamais soube andar em uma.


19 comentários:

Gilberto Strunck disse...

Monica, vc escreve MUITO bem! Quanta sensibilidade, quanta saudade, que exemplo bom. Ah... e as fotos, muito legais. Bj, Gilberto

Elizabeth Greenhalgh de Araujo disse...

Muito bom...como sempre.Lembrando de seu pai. E do meu também...foquei muito emocionada ao ler suas palavras. Parabéns!

Anônimo disse...

Vó eu n sabia que você escrevia tão bem
Estou impressionado. Um texto lindo e muito bem inscrito.
Um beijo Arthur Albuquerque Penido mourão, seu neto

Luciana Rossan disse...

Que emocionante! Que lindo texto e que alegria poder ter em sua memória, a presença de um pai tão carinhoso! Bjs

Luciana Rossan disse...

Que emocionante! Que lindo texto e que alegria poder ter em sua memória, a presença de um pai tão carinhoso! Bjs

EyeWall disse...

Tocante, Mônica. Que preciosa lembrança .... Um beijo carinhoso.

Sonia Maria de Freitas Marques disse...

Que lindo texto!!!!!

Em criança não aprendi a andar de bicicleta. Desisti após inúmeros tombos!!!

Suas memórias reviveram as minhas, com muita emoção.

Um ótimo domingo, Mônica!!!!

Marthraca disse...

MONCA! ADOREI!!! SEMPRE COMENTO, QUE VOCÊ ESCREVE MUITO BEM!BOAS LEMBRANÇAS!SE ELE ESTIVESSE AQUI, ÍAMOS TODOS REUNIR HOJE NA CASA DELE! ELE ADORAVA A FAMÍLIA!
BEIJOS DA PRIMA MAIS VELHA

Silvana Zilli disse...

Bonito texto, Monica.
Coincidentemente, meu pai hoje faria 81.
Beijo e bom domingo!

Leila disse...

Mônica querida, enquanto lia seu texto fiz uma viagem espontânea quando, muito pequena, experimentei essa sensação de conquista maravilhosa de andar de bicicleta sem rodas. Foi tão vívida que pude experimentar novamente este sentimento.
Você manda muito bem. Sempre despertando o que há de melhor em nós.
Parabéns e obrigada!
Grande beijo carinhoso

Anônimo disse...

Monipin, querida. Tenha certeza que aquele que nunca aprendeu a andar de bike, onde quer que ele esteja comemorando o seu dia, está muito feliz com o resultado daquele "vai, pode ir", porque sua filha querida foi mesmo! Segurança , firmeza e confiança não lhe faltam até hoje. Bjocas e parabéns pelo lindo texto, Virginia.

Renata Martins disse...

Amiga, recordar desse bem recebido de seu querido pai é a maior prova da gratidão consciente sentida com todo o afeto no seu coração e de que, nesse instante sublime, o tempo é eterno! É admirável a sua generosidade em compartilhar essa experiência transcendente com os amigos. Com muita saudade, um grande e afetuoso abraço!

Primo Reinaldo disse...

Quem sabe faz, quem não sabe ensina...
("bullying" ou chacota daqueles que não seguiram a carreira acadêmica)
O texto foi uma forma de continuarmos nos reunindo em torno dele.
Amanhã farei 8 anos de casado.
Casei um ano antes de nascer meu filho que fez 31 anos em janeiro!!!...
Matemática perfeita, é ou não é? :-)

Sandra Felicidade disse...

Que texto lindo, Monica!
Tão simbólico esse momento de tirar as rodinhas e encontrar esse "equilíbrio" mágico que só se consegue estando em movimento. Que lindo você ter essa experiência junto com seu pai. Beijos

Sergio Cotrim disse...

Lembrei as primeiras pedaladas. Deu pra imaginar o olhar do tio Murilo que era bem parecido ao de papai. Estamos todos no mesmo trem pras estrelas e às vezes cortamos alguns caminhos de bicicleta. Obrigado pelo "ticket to ride" nessas suas lembranças. Mto bonito.

Sergio Cotrim disse...

Lembrei as primeiras pedaladas. Deu pra imaginar o olhar do tio Murilo que era bem parecido ao de papai. Estamos todos no mesmo trem pras estrelas e às vezes cortamos alguns caminhos de bicicleta. Obrigado pelo "ticket to ride" nessas suas lembranças. Mto bonito.

Sonia Cerqueira disse...

Parabéns,Monica!Mais um texto gostoso de ser lido.E interessante que ao lê-lo ,fui lá no meu baú das boas recordações e lembrei que minha mãe também não sabia andar de bicicleta ,coisa que eu ,na minha cabecinha de criança ,não conseguia entender por achar tão fácil.Bjs

Unknown disse...

É, como sempre os belos textos e gostosos de ler.

Lúcia Leão disse...

Monica, seu texto diz muito também no espaço tão bem criado do não dito, para que nós possamos preenchê-lo. Um grande talento, esse seu. Continue compartilhando, sim? Um beijo.