terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Vozes de Mariana

Pouco antes do rompimento da barragem de lama de minério na região de Mariana, Minas Gerais, que provocou a maior calamidade ambiental da história do Brasil, a leitura de um livro extraordinário me roubou o sono por várias noites. Vozes de Chernobyl, da jornalista bielorussa Svetlana Alexievich, Prêmio Nobel de Literatura deste ano, é leitura essencial para qualquer pessoa que se importe com o futuro do nosso frágil planeta, já tão maltratado.

Svetlana Alexievich, Prêmio Nobel de Literatura de 2015


Praticamente desconhecida no mercado editorial de língua inglesa e ainda sem tradução para o Português, a obra de Alexievich foi descrita na cerimônia de entrega do Nobel, em outubro passado na capital sueca, como "um monumento ao sofrimento e à coragem dos nossos tempos."  Tive que recorrer à internet para ter acesso a esta obra prima, que afinal consegui ler sob a forma de livro eletrônico, em uma ótima tradução espanhola. Sem qualquer favor, arrisco-me a dizer que este foi o livro mais impactante que já li em toda a minha vida. Foi também, para mim, a leitura mais relevante em termos planetários. 

Muito mais do que uma obra literária, Vozes de Chernobyl é o resultado de um exaustivo trabalho de jornalismo investigativo, onde as únicas vozes que aparecem são de pessoas que vivenciaram diretamente a maior catástrofe ambiental da historia da humanidade, detonada com a explosão de um dos reatores da usina nuclear da pequena cidade de Chernobyl, na então União Soviética, no dia 26 de abril de 1986. A primavera tinha chegado naquela pacata região rural e os campos estavam floridos. O mundo parecia viver em paz, quando, de repente, tudo o que havia ali deixou de existir - pessoas, animais, casas, escolas, vegetação, história, lembranças.



O livro nos faz ouvir as vozes da gente simples que vivia naquela terra e dela tirava o sustento de suas famílias. São vozes dos sobreviventes da tragédia - homens, mulheres e crianças, vidas anônimas que foram violentamente destruídas de uma hora para a outra, por causa da explosão nuclear. Passados dez anos daquele dia de abril,  poucos habitantes da região haviam sido procurados para contar suas historias.

Inconformada com este silêncio inexplicável,  Svetlana Alexievich resolveu ouvi-los. Durante três anos, armada com um gravador de voz, ela entrevistou centenas de sobreviventes, muitas vezes em áreas ainda contaminadas pela radiação, com riscos à própria saúde. Sem demonstrar qualquer pressa, a jornalista conversava com cada entrevistado sobre temas aparentemente desvinculados da tragédia ambiental – amor, escola, casamento, receitas culinárias, cultivo da horta -, fazendo-os reviver aos poucos o que, para muitos, já parecia estar enterrado havia uma década.



Tenho que alertar a quem estiver interessado que esta não é uma leitura fácil. Os depoimentos pessoais são emocionalmente devastadores. Cada capítulo é cuidadosamente construído, em um ritmo crescente de envolvimento do leitor, até atingir o parágrafo final, sempre surpreendente e emocionante. Não dá para se ler tudo de uma só vez. Eu, pelo menos, senti várias vezes necessidade de deixar o livro de lado por uns tempos, apenas para recobrar meu equilíbrio interior, antes de retomar a leitura. Mas, mesmo quando não o estava lendo, o livro nunca me deixou.

Vozes de Chernobyl tem um estilo incomum, difícil de ser definido. Não há conteúdo editorial. Em momento algum se ouve a voz da autora. Todas as palavras do livro são proferidas pelos entrevistados na intimidade da primeira pessoa do singular, como se estivessem falando diretamente conosco.  Aqui e ali, aparecem apenas algumas anotações curtas, para transmitir o clima emocional da entrevista, do tipo [risos], [começa a chorar] ou [faz-se um longo silêncio]. 



Cada capítulo é um monólogo de uma pessoa diferente: um lavrador que estranhou não ouvir o zumbido das abelhas quando aconteceu o acidente na usina nuclear (bem antes dos homens, as abelhas "já sabiam"!); mulheres contratadas pelo governo para lavar as roupas dos soldados "liquidadores", contaminadas pela radiação, e logo ficavam com as mãos cheias de bolhas e feridas; a jovem viúva de um bombeiro que foi chamado no dia da explosão para combater o que acreditava ser apenas um pequeno incêndio, sem qualquer proteção especial; crianças que foram transportadas a outros países e eram sempre vistas com medo e desconfiança por todos; o patriota soviético que se sentia abandonado à própria sorte e recordava com nostalgia os tempos idos, em que o Estado lhe parecia confiável e indestrutível; a velhinha que desafiou a lei e se recusou a abandonar sua casa, mesmo sob a ameaça de armas de fogo; jovens soldados de outras cidades do país, convocados às pressas e sem maiores explicações para evacuar as casas e matar todos os animais que encontrassem pela frente.



Aos poucos, o leitor vai encaixando as peças do quebra-cabeça da União Soviética do final dos anos 80, já bem próxima do seu colapso sócio-político. Neste livro, não se buscam culpados. Todos são vítimas desta catástrofe planetária, que não respeitou fronteiras geopolíticas. A radiação que vazou de Chernobyl foi tão brutal que, em menos de uma semana, se espalhou por toda a Europa. Em duas semanas, países que se acreditavam muito distantes da tragédia, como os Estados Unidos, Canadá e Japão, já haviam detectado sinais desta radiação em seus territórios.

Tragicamente, as consequências do acidente nuclear de Chernobyl ainda estão longe de terminar. A cada ano que passa, cresce o número de pessoas com câncer, deficiências mentais, disfunções neuropsicológicas e mutações genéticas. De cada catorze pessoas que vivem na região, só uma morre de velhice.

Como uma premonição absurda, o livro me perseguiu, desde a primeira página, com a pergunta cruel: E se uma catástrofe ambiental de grandes proporções como esta acontecesse aqui no Brasil?

Eu estava já nas últimas páginas do livro, quando o que parecia um desvario produzido pela emoção da leitura, de repente, aconteceu. No último dia 5 de novembro,  os jornais noticiavam a tragédia: a pacata Bento Rodrigues, na região de Mariana, interior de Minas Gerais, desaparecia do mapa, soterrada sob a lama da mineradora. Era apenas o começo de um monstruoso pesadelo humano e ecológico, cujas proporções ainda não puderam ser completamente avaliadas - se é que algum dia o serão. 

Incapaz de assimilar tanto sofrimento de uma só vez, fiquei vários dias sem coragem para ler as poucas páginas que ainda me faltavam. Da noite para o dia, Chernobyl ficou próximo demais do meu quintal.

Um dos relatos que mais me emocionaram foi o de uma jovem adolescente, sobre a forma como sua avó se despediu da casa onde a família morava, pouco antes de ser evacuada: 

Minha avó pediu para o papai buscar um saco de grãos que estava no sótão e os espalhou pelo jardim: 'Para os passarinhos de Deus'. Pegou uma cesta de ovos e os distribuiu pelo quintal: 'Para o nosso gato e para o cachorro'. Cortou uns pedaços de toucinho. De todos os saquinhos retirou as sementes: de cenoura, de abóbora, de pepino, de cebola. De flores diferentes. E espalhou todas aquelas sementes pelo jardim: 'Que vivam na terra'. Em seguida, fez uma reverência à casa. Se inclinou diante do telhado. Percorreu as macieiras e as cumprimentou, uma a uma.  Na hora de ir embora, vovô tirou o boné.


Assim como Chernobyl, Mariana vivia seu cotidiano tranquilo em um belo dia de primavera, quando o inimaginável aconteceu. 


Entre tantas outras, uma pergunta fica no ar: o que tem para nos contar as vozes de Mariana?








7 comentários:

Sandra Felicidade disse...

Que triste e pertinente o paralelo...
Pouco se fala do sofrimento humano nos desastres, principalmente quando afetam pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade cotidianamente.
Essas pessoas não têm voz. Por isso o título do livro é muito oportuno. Espero que alguém dê voz a essas pessoas de Mariana e de outros desastres que já aconteceram no Brasil e dos quais nem se fala mais. Parabéns, Monica, adorei seu post!!! Se um dia você se sentir inspirada a fazer um registro como o da bielorussa, no Brasil há muitas pessoas precisando que lhes deem voz. É um paradoxo que na tragédia a gente consiga contar a história de uma pessoa – e um gesto “simples” - com grandeza e poesia, como daquela senhora se despedindo da casa. Beijos

Monipin disse...

Querida Sandra, obrigada pelas suas palavras, sempre sábias e bem vindas. Sua observação sobre a "grandeza" dos "gestos simples" reflete bem o que sinto e acredito. Beijo!

Sergio Cotrim disse...

De uma busca na Wikipedia:
Lama é o nome dado a uma mistura pastosa de terra, argila e água.

Infelizmente o que vazou foram rejeitos químicos altamente tóxicos. Talvez irreversível para nossa situação econômica. O que assusta mais ainda : há outras barragens na mesma situação de perigo.

Fontes- revista Veja- O Globo- Rio Doce contaminado por 25.000 piscinas olímpicas de rejeitos químicos altamente tóxicos atravessando meia Minas Gerais e Espirito Santo até o Oceano Atlântico. Na foz a poluição já entrou 5 Km mar adentro, 8 Km ao norte e 7 Km ao sul. Raros gafanhotos e alguns pequenos pássaros ainda foram encontrados no caminho. Há total ausência de lagartixas e minhocas.

Anônimo disse...

Parabéns pelo q escreveu! Muito triste e pertinente. E para piorar, não houve nenhum plano de emergência do governo federal ou estadual para deter a lama tóxica que chegou até o mar.... e parece que até agora nada está sendo feito para inspecionar as barragens que estão no mesmo estado que aquela que rompeu. Gostaria de tomar uma posição mais ativa, mas não sei o que fazer, por onde começar. Muito triste

Majo disse...

~~~
A sua crónica está admirável e deveras emocionante.

Grata pela sugestão de leitura.

Tivemos notícias da tragédia de Minas Gerais, que muito lamento.

~~~ Abraço amigo. ~~~
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Nea Senna disse...

E a questão é, o que fazer para evitar uma nova catástrofe se vivemos no domínio da imprudência e ganância. Excelente texto boa dica para leitura.

Deise Dias disse...

Querida Monica..seu artigo me emocionou...muito bem escrito, alias como todos os outros...vou procurar este livro por aqui.....Quem sabe voce mesma poderia responder essa pergunta e descobrir o que diriam as vozes de Mariana....